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Poeta e filósofo Antonio Cicero toma posse na cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras

“A Academia, nos seus bem vividos 120 anos, caracteriza-se por perdas e ganhos notáveis. Lamentamos o falecimento do crítico literário Eduardo Portella e saudamos a chegada do poeta Antonio Cicero. Conviver com seu talento e criatividade será, para nós, um privilégio que queremos ‘guardar’, no sentido dos seus versos: ‘Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la e mirá-la / admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado’”, ressaltou, em seu discurso de recepção, o acadêmico e professor Arnaldo Niskier.

O poeta, filósofo e compositor Antonio Cicero tomou posse na cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras, na última sexta-feira, dia 16 de março, em solenidade no Salão Nobre do Petit Trianon. O novo acadêmico foi eleito no dia 10 de agosto do ano passado, na sucessão do acadêmico Eduardo Portella, falecido no dia 3 de maio de 2017. Em nome da ABL, o acadêmico e professor Arnaldo Niskier fez o discurso de recepção.

Antes, Antonio Cicero discursou na tribuna. Ao terminar, assinou o livro de posse. Logo após, o presidente Marco Lucchesi convidou o acadêmico Antonio Carlos Secchin para fazer a aposição do colar; o acadêmico Marcos Vinicios Vilaça para entregar a espada; e o acadêmico Candido Mendes de Almeida para entregar o diploma. O presidente, então, declarou empossado o novo acadêmico.

Os ocupantes anteriores da cadeira 27 foram: Joaquim Nabuco (fundador) – que escolheu como patrono Maciel Monteiro –, Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.

Discurso de posse

“Há muitas razões pelas quais é uma honra pertencer a esta Casa. Para mim em particular, como poeta, é importante que haja uma instituição que, como diz seu primeiro estatuto, elaborado na época de Machado de Assis, tenha por fim ‘a cultura da língua e da literatura nacional’. Não ignoro que a Academia exerce outras funções, nem jamais me oporia a isso. Mas a meu ver, porém, é fundamental ‘a cultura da língua e da literatura nacional’ porque penso que a Academia Brasileira de Letras é, por sua própria natureza, uma instituição que deve ter uma participação ativa e importante na determinação do cânone literário”, disse em seu discurso o novo acadêmico.

“Contra o relativismo difuso que vigora em nossos dias, afirmo que existem obras boas e obras ruins, obras insignificantes e obras imortais. Um poeta que acredita que todos os poemas ou todos os textos se equivalem – por exemplo, que tudo é relativo ao gosto da pessoa que julga – não tem por que produzir uma obra nova. Pois bem, o cânone pretende ser o conjunto das obras modelares, exemplares, imortais. Ele é tanto mais perfeito quando mais perto disso chegar. Ao falar de obras imortais, lembramo-nos de que a própria ideia da imortalidade dos membros da Academia deriva da ideia de que se supõe que alguém seja acadêmico em virtude de já ser responsável por ao menos alguma obra ou feito imortal”, afirmou.

“Por último, quero fazer uma homenagem a um acadêmico que jamais ocupou a cadeira 27. Trata-se do grande poeta, ensaísta, professor e bibliófilo Antonio Carlos Secchin. Penso que é, em primeiro lugar, graças a ele que aqui me encontro. Secchin foi o primeiro acadêmico a incentivar minha candidatura. E seu firme apoio durou até minha eleição. Isso me deixou feliz, orgulhoso e confiante”, concluiu, antes de ler o poema “Autorretrato”, tirado do livro “Desdizer”, de Secchin, com o qual encerrou seu discurso.

Discurso de recepção

Arnaldo Niskier afirmou, em seu discurso de recepção, que, “Antonio Cicero é um apaixonado pelo Rio, mas não deixa de se preocupar com o Brasil, cujo mal maior, segundo o acadêmico e presidente da ABL, Marco Lucchesi, é a desigualdade. Ao proclamar essa verdade, na sua posse recente, foi entusiasticamente aplaudido. Com toda razão.

“Segundo o poeta e crítico Antonio Carlos Secchin, os poemas de Antonio Cícero incorporam duas tendências quase antagônicas da recente poesia brasileira: de um lado, o discurso da geração marginal, com seu verso mais despojado e pouco ‘literário’; de outro, a vertente culta, oriunda dos desdobramentos concretistas, que prima por sofisticados jogos metafóricos e intrincada rede de alusões. Cicero lança seu barco em meio às duas marés e seu primeiro livro ‘Guardar’, de 1966 (vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, na categoria estreante), testemunha um ouvido igualmente atento a ambas as chamadas. O poema ‘Guardar’ foi incluído na antologia ‘Os cem melhores poemas do século’, organizado por Ítalo Moriconi.

“Apesar da tonalidade coloquial e despojada de vários poemas, Antonio Cicero não escreve para leitores distraídos, ou refratários ao terreno da ‘alta cultura’. Tampouco descura do aparato técnico do texto, em particular no que tange à prática das formas fixas. Com grande apuro, elabora muitos versos (quase sempre brancos) em torno do decassílabo e do heptassílabo, e costuma recorrer a eventuais apoios rítmicos, toantes ou soantes, mais intensos nas partes finais dos poemas, como bem observou Antonio Carlos Secchin.

“Conviver com o talento e a criatividade do Antonio Cicero será, para nós, um privilégio que queremos ‘guardar’, no sentido dos seus versos. Seja bem-vindo a esta Casa, que abre, para você, os seus braços, caro poeta, filósofo e escritor Antonio Cicero”.

O novo acadêmico

Sétimo ocupante da cadeira 27 da ABL, fundada por Joaquim Nabuco, Antonio Cícero formou-se em Filosofia, em 1972, pelo University College London, da Universidade de Londres. É autor, entre outros trabalhos, dos livros de poemas “Guardar” (Rio: Record, 1996), “A cidade e os livros” (Rio: Record, 2002), “Porventura” (Rio: Record, 2012) e, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, de “O livro de sombras” (Rio: +2 Editora, 2010). Também publicou as obras de ensaios filosóficos “O mundo desde o fim” (Rio: Francisco Alves, 1995), “Finalidades sem fim” (São Paulo: Companhia das Letras, 2005) e “Poesia e filosofia” (Rio: Civilização Brasileira, 2012). Além disso, suas entrevistas foram reunidas no livro de Arthur Nogueira, intitulado “Encontros: Antonio Cícero” (Rio: Azougue, 2013).

Organizou o livro de ensaios “Forma e sentido contemporâneo: poesia” (Rio: EdUERJ, 2012) e, em parceria com Waly Salomão, o volume de ensaios “O relativismo enquanto visão do mundo” (Rio: Francisco Alves, 1994). Em parceria com Eucanaã Ferraz, produziu a “Nova antologia poética de Vinícius de Moraes” (São Paulo: Companhia das Letras, 2003).

Em 1993, concebeu o projeto intitulado “Banco Nacional de Ideias”, por meio do qual, nesse ano e nos dois subsequentes, promoveu, em colaboração com o poeta Waly Salomão e com o patrocínio do Banco Nacional, ciclos de conferências e discussões de artistas e intelectuais de importância mundial, como João Cabral de Melo Neto, Richard Rorty, Tzvetan Todorov, Hans Magnus Enzensberger, Peter Sloterdijk, Bento Prado Jr. e Darcy Ribeiro, entre outros. É também autor de inúmeras letras de canções, tendo como parceiros compositores como Marina Lima, Adriana Calcanhotto e João Bosco.

Antonio Cícero foi agraciado, em 2012, com o “Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade”, concedido pela Universidade Candido Mendes e pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade, e eleito para a ABL no dia 10 de agosto de 1917.

(Fonte: ABL)

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