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Mistério*

DIA 2 DE AGOSTO, INTERIOR DO MARANHÃO: “ESTOU MORRENDO DE UMA DOENÇA CONTAGIOSA. PEÇO-LHE PARA NÃO INVESTIGAR AS CONDIÇÕES DE MINHA MORTE. VOU COMETER SUICÍDIO”.

Você é jovem. Tem 27 anos e já é um cientista, com doutorado e tudo, com estudos e trabalhos feitos em diversas partes do mundo e é considerado um dos mais promissores talentos em sua área. Tem uma irmã. É bem-nascido: o pai é médico, pioneiro no uso da novocaína em anestesia e fundador do maior hospital da região; a mãe também é médica, dedica-se a crianças e é ativista na luta contra a tuberculose.

Então, em fluente inglês escreve uma carta, onde, de início e diretamente, expõe o próprio drama e anuncia a tragédia particular: “I am dying of a contagious disease. I request you to not investigate the conditions of my death. I am going to commit suicide”.

E o ato final: as mãos empunham uma faca e, incompreensão das incompreensões, desespero dos desesperos, pesadelo dos pesadelos, horror dos horrores, em diversos e sucessivos golpes, a lâmina metálica fria agride, desfere e fere, lacera e dilacera, talha e retalha, parte e reparte partes do próprio corpo.

Mas o fim próximo, se estava anunciado, não estava completo: aos golpes de faca afiada sucedem o martírio derradeiro, a sevícia última, a violência autoinfligida fatal: o corpo esfaqueado, esburacado, sangrento e sangrando, encaminha-se rumo... à forca.

Na presença de duas testemunhas pasmas e impotentes, em um cenário de matas e morros, pendurado a um nó de corda, um homem se mata e morre.

Foi em Carolina, Maranhão, no dia 2 de agosto de 1939. Com apenas 27 anos, o antropólogo e Ph.D. norte-americano Buell Halvor Quain, nascido em Bismarck, cidade de 148 anos, 80 quilômetros quadrados, 61 mil habitantes e capital do Estado de Dakota do Norte, Estados Unidos, comete suicídio. Deixou sete cartas para amigos brasileiros e para familiares e colegas nos Estados Unidos. Lúcido, pode-se dizer, isentou as duas testemunhas – dois índios – de qualquer responsabilidade em relação à sua morte.

Embora tenha merecido registros e elogios de antropólogos e etnólogos como o francês Claude Lévi-Strauss – considerado uma das grandes inteligências do século XX, falecido em 2009, um mês antes de completar 101 anos –, Buell Quain e seus quatro livros (três deles “post mortem”) parecem ter ficado esquecidos. Sua vida e sua morte, ou melhor, o mistério que as circunda e envolve, foi objeto do livro “Nove Noites” (2002), do escritor brasileiro Bernardo Carvalho. A obra é assumidamente parte ficção e parte não ficção, nesse criativo “fiat” frankensteiniano que escritores estão divinamente autorizados a pronunciar, cometer, realizar.

Em um “site” norte-americano sobre doenças ou distúrbios psíquicos (www.bipolaraid.org), há um espaço intitulado “Famous People with Mood Disorders”. Nele, listam-se, em ordem alfabética, pessoas do presente e do passado, mortas e vivas, que são/seriam portadoras desses distúrbios da complicada alma humana. Do “A” ao “Z”, a lista “pega” um mundo de gente. Quem sabia que o ultrainteligente teólogo e escritor espanhol São Tomás de Aquino sofria de depressão?

E o poeta mexicano Manoel Acuna, também depressivo, que se matou tomando cianeto de potássio, um dos mais violentos venenos que a Química já elaborou?

E Pushkin, notável escritor russo? Era bipolar. E Antero de Quental, notável filósofo e escritor português? Também bipolar. Matou-se à bala.

E Boris Yeltsin, o primeiro presidente da democracia russa? Tinha depressão, mas não cometeu suicídio: morreu do coração em 2007 e era uma “figura”, com seu estilo e suas gafes movidas a “nonsense” e vodka – muuuuuuuuuita vodka... Foi a preocupação de diplomatas do seu e de outros países e, também, fez as delícias (e malícias...) de jornalistas e cronistas do mundo político.

E, encerrando a lista, na última letra, está a competente e, com a licença de Michael Douglas, bela cantora e atriz britânica Catherine Zeta-Jones, provavelmente o mais perfeito dos espécimens bipolares vivos...

Não nos esqueçamos do Stefan Zweig, o jornalista e escritor austríaco que veio viver e morrer em terras tropicais e, aqui, escreveu seu famoso livro conhecido mais como frase do que como título: “Brasil, País do Futuro”. Em 1942, em Petrópolis (RJ), após uma tocante e superbem escrita carta de agradecimento, desilusão e adeus, o depressivo Stefan e a esposa, Lotte, tomaram ácido (barbitúrico, em dose mortal). No escrever do escritor, “em boa hora e conduta ereta”, ele achou melhor “concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra”. No encerramento da breve carta, Stefan saudou todos os seus amigos, desejando-lhes “que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite”. Como ponto final, anunciou: “Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes”.

Sem trocadilho, a lista de antropônimos de portadores de distúrbios psíquicos vai de um polo ao outro e, nela, está o (quase) esquecido Buell Quain, após cujo nome registra-se: “depression, American ethnologist, suicide” (portador de depressão, etnólogo americano, suicida).

A misteriosa, controvertida, complexa e triste morte de Buell Quain talvez não devesse terminar em um dia 2 de agosto, no interior do Maranhão, nem, muito menos, em uma relação não tão famosa de “famosos” psiquicamente perturbados. Além dos estudos linguísticos, antropológicos, sobre nossos irmãos índios (os trumais, no Mato Grosso; os craôs/krahôs, no Maranhão/Tocantins), o Brasil, os Estados Unidos e a Ciência estão devendo um esforço que não apenas esclareça e reconte os mistérios da morte mas, sobretudo, resgate e enalteça o talento, os trabalhos e – ele os devia ter – os sonhos de vida de Buell Quain, jovem, 27 anos, doutor, agente e destinatário da própria e trágica morte – morte testemunhada por dois pares de olhos e ouvidos índios e pelo silêncio ancestral de árvores e bichos habitantes de um pedaço de floresta no município maranhense de Carolina, hoje, há exatamente 81 anos, 2 de agosto de 1939.

* * *

Talvez caibam ao viver e desviver de Buell Quain os versos de Antonio Domenico Bonaventura Trapassi, ou Pietro Metastasio, respeitado e influente escritor romano do século XVIII:

“Não é verdade que seja a morte
O pior de todos os males;
É um alívio dos mortais
Que estão cansados de sofrer”.

* EDMILSON SANCHES

Fotos:
O antropólogo Buell Quain e dois de seus livros, e o romance histórico do escritor brasileiro Bernardo Carvalho.

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