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O encontro das pedras*

E agora, José?
No meio do caminho
tinha uma pedra. Aliás,
uma pedrada,
que é uma pedra
movimentada.

Dizem que a coisa
foi orquestrada
teleguiada.
Mas, Zé, compreenda:
há muita insatisfação,
e o povo passa fome, arrocho,
precisão.
Você, não.

É preciso se-
parar o joio
do trigo.
Mas onde está o trigo, meu Deus?!
Ele já não é subsidiado
– só o povo continua
subalimentado.

E o povo, já sem razão,
responde
com quatro pedras
na mão.

José, você que é,
que é católico, rezador,
talvez diga que nem só de pão
vive o “home”;
entanto, ouça:
acima da guerra,
há o grito da fome.

José, sabe como é:
o povo se contenta
com pouco.
Boca cheia
não grita.
Bucho vazio
deixa louco.

Sei, não precisa repetir:
atiraram a primeira pedra.
Mas, José, e por que a outra?
Lançada de catapulta,
com destaque em jornal,
apedrejaram o povo com a Lei
de Segurança Nacional.
Lei de Talião,
pagou-se com a mesma moeda.
Ou pedra.
(Mas, José,
duro
com duro
não faz
bom muro).

Não sei, José,
não sei como é.
Tudo serve
de exemplo.
E com pedra também
se constrói
um templo.

Vamos juntar todas essas pedras
e talvez, quem sabe, um dia
com elas terminaremos,
“não mais que de repente”,
o prédio transparente
da democracia.

E aí, povo forte,
Nação em pleno viço,
botaremos uma PEDRA
em cima               disso.

* EDMILSON SANCHES