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Lembrando papai… A TRAGÉDIA DA PISCINA*

A menina-moça saiu de casa, do lar, da vigilância de seus pais. Era um domingo de sol. Sol radiante. Vivificador. Sol Vida. Um céu límpido. Uma paisagem de luz com os borrões das nuvens alvas, paradas umas e em movimento outras. E havia, em tudo, a presença encantadora desta coisa que Bilac chamou de “alegria da vida, alegria da vida”. E a menina-moça, iluminada de sonhos, banhada de inocência, tudo nela amor pureza, amor virgindade do corpo e da alma, saiu para o domingo banhado de sol ardente, “vida e calor”.

Tinha um endereço certo: o Casino Maranhense. No Casino, a fascinação dos divertimentos. No Casino, a fascinação da piscina. A água na (...)1 da luz. Porção d’água parada, porção d’água em oscilações mínimas. Um poema de emoção em tudo. Uma paisagem num deslumbramento da Natureza em festa, Natureza acordada, profundamente sentida. Em tudo a vida, em tudo a alegria contagiante. Em tudo o encantamento dos sonhos mais lindos, ilusões que se perdiam, que iam e vinham. Pensamentos no mundo tranquilo das divagações. Pensamento no alvoroço das idades. Pensamentos num balaio de improvisações as mais diversas. Tudo calmo. Tudo quieto. Tudo num convite de paz, num convite íntimo para as diversões mais extravagantes.

Muitas crianças no Casino. No banho da piscina. Muitas crianças correndo. Outras paradas, olhando apenas, fora do cenário das travessuras, dos brinquedos, das correrias. E outras à borda da piscina, olhando aquela porção de “mar” trançado naquele recinto de dimensões pequenas. Outras meninas e outros meninos no banho de mar, no banho de sol. E, no meio das crianças, lá estava Maria de Lourdes. Lá estava a aluna inteligente, a aluna do Colégio Santa Tereza. Com ela, a sua inocência. Junto dela a expressão melhor dos seus 13 anos e mais dois anos a teríamos na festa social das debutantes. Tudo nela alegria, tudo nela Vida. E Maria de Lourdes sem saber, sem pressentir que estava vivendo o seu último domingo. Despedia-se da Vida, da Vida amor, da vida estudo, da vida trabalho e deveres. No lar, seus pais. Com a mãe, talvez, quem sabe, os maus presságios. Uma desconfiança que não se fez angústia. O coração das mães tem os seus mistérios: prevê o Bem e o Mal. Sente a aproximação das borrascas e pressente os dias das bonanças. “Coração de Mãe não engana!” Talvez no lar, com a progenitora, a presença duma desconfiança, um pensamento mais forte a lhe segredar cuidados, a lhe apontar sombras agoureiras. Talvez.

Mas Maria de Lourdes estava no esbanjamento das suas alegrias. Envolvida pelos seus pensamentos de menina-moça, tudo nela um poema de encantamento. Magia na moldura dos seus 13 anos. E Maria de Lourdes brincava. Sorria. Ria. Iluminação de sol nos seus cabelos, no seu rosto, nos seus olhos vivos. Olho olhando a Vida. Coração na pulsação da Vida. E a piscina lá estava. Atração dos sentidos. Reflexões de luz, brilho de sol na superfície líquida. E Maria de Lourdes olhava a piscina, a água no convite do banho. Insistente. Dominando até. E Maria de Lourdes, acreditamos, foi para a piscina. Aproximou-se. Olhou a água e jogou-se para o mergulho. Mas, com ela, mergulhava a Vida, sua Vida. Mergulhava seu corpo de menina-moça. Um mergulho só.

À tona não mais veio Maria de Lourdes. Não mais. Ficara lá embaixo, no fundo da piscina. A Morte a esperava lá embaixo ou fora com Maria de Lourdes. Presa nela. Cá em cima, a angústia. Cá em cima, o sofrimento em muitos corações. No alto, o mesmo céu azul, as mesmas nuvens na ronda silenciosa do firmamento em festa, a festa do sol na paisagem geográfica da Ilha, da cidade, a terra-berço de Maria de Lourdes.

Hora de aflição. Instantes de inquietações. E, depois, a realidade terrível. Maria de Lourdes morta. Maria de Lourdes sem vida. Seu coração deixara de bater.

E, em casa, uma Dor chorando no coração de seus pais.

E Maria de Lourdes foi se encontrar com o Filho do Carpinteiro: “deixar vir a mim as criancinhas”.

E nos lembramos mais do poeta: “Mas a criança no-lo ensina: se viu morrer Jesus quando homem feito, nunca teve uma filha pequenina”. Nunca teve.

* Paulo Nascimento Moraes. “A Volta do Boêmio” (inédito) – “Jornal do Dia”, 10 de julho de 1965 (domingo).

Nota:
1 No material (original), não foi possível identificar a palavra escrita pelo autor.

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