Saltar para o conteúdo

Com o surgimento da pandemia da covid-19, da noite para o dia, professores e alunos tiveram que se acostumar e se reinventar na forma de aprender e de ensinar: com aulas “on-line” e vídeoaulas, entre outras ferramentas, os educadores se viram diante de novos desafios, aos quais estavam pouco ou nada preparados.

Embora o ensino a distância (EaD) já seja realidade para os adultos que fazem cursos técnicos, graduação e pós-graduação de forma “on-line”, para crianças e jovens a modalidade ainda está em crescimento, mesmo que não seja uma novidade, explica o professor e autor de livros didáticos Ismael Rocha.

“Há muito tempo, diversas escolas praticam o ensino híbrido. A partir do momento em que utilizam diferente plataformas de ensino e aprendizagem, estão trabalhando com o ensino híbrido. Quando há uma excursão para visitar um museu, uma área de mata, essas visitas representam ensino híbrido, que é algo que acontece na sala de aula e fora dela”.

O que não estava estruturado, diz Ismael, era o uso constante do “on-line”. “O que nós não tínhamos antes da pandemia era o uso das ferramentas virtuais para o trabalho do ensino híbrido, não tínhamos a construção do ‘on-line’, que era muito pouco utilizado. Algumas escolas já tinham uma plataforma onde os alunos podiam tirar exercícios, publicar alguma lista de coisas que tinham feito, mas da maneira sistemática como estamos começando a ver hoje e como teremos daqui para a frente é uma novidade – não o ensino hibrido, mas o ensino a partir do uso de plataformas digitais, o ensino ‘on-line’”, acrescenta.

Considerada tendência na área da educação para o futuro, a mistura entre o ensino presencial e o “on-line”, que prevê um “mix” entre a sala de aula convencional e conteúdos produzidos com apoio de ferramentas de tecnologia, vai invadir mais fortemente a vida do estudante no mundo pós-pandemia. Mas o formato exige muito mais mudança dos professores do que dos estudantes, acredita Rocha, que, também, é diretor da Iteduc, organização pioneira em capacitar professores de educação básica para o ensino “on-line”.

“É uma mudança de paradigma, que vai levar professores e alunos a acreditarem que a plataforma digital é uma ferramenta extremamente útil para o processo de ensino-aprendizagem, principalmente porque a grande maioria dos jovens, desde as crianças, utilizam as ferramentas digitais para o lazer. A relação com o digital para as crianças e os jovens não é uma relação nova, já é presente”.

Nativos digitais

Na visão do especialista, o esforço está em transferir essa habilidade dos jovens para a área da educação. “O trabalho do professor vai ser fazer a transposição, acreditando que essas ferramentas podem trazer e facilitar o processo de ensino-aprendizagem. Vamos ter dados mais significativos, vamos saber quantos alunos estão entrando na plataforma para fazer a tarefa, para cumprir as atividades. Vamos gerar a possibilidade de trazer para esses alunos informações muito mais criativas e envolventes, ou seja, muda muito e muda para melhor”.

A adoção do método exige uma reorganização do tempo de sala de aula, com novo plano pedagógico. O professor ganha um papel também de mentor, apto a impulsionar os alunos em direção a uma postura crítica, acompanhando as questões individuais e dando vazão ao que melhor funciona no aprendizado de cada estudante. E as diversas plataformas digitais vêm para somar essa relação ensino-aprendizado.

“Temos inúmeras plataformas que permitem esse tipo de interação. Desde as mais simples, que permitem que você faça uma aula e um exercício ‘on-line’, até as mais sofisticadas. Essas ferramentas ainda não são tão fáceis de serem trabalhadas, porque a grande maioria dos professores não é nativa digital, o que gera certa dificuldade para que o processo todo aconteça de maneira tranquila. Os professores estavam acostumados a ensinar, agora eles terão que aprender para ensinar. Certamente, os professores conseguirão dominar essas ferramentas para colocá-las em prática e permitir que o ensino híbrido se torne, cada vez mais, uma realidade”.

Ensino híbrido

Também conhecido pelo termo em inglês “blended learning”, o ensino híbrido se acentuou com o advento da “internet” e nada mais é do que combinar diversas plataformas, como filmes, rádio e televisão, por exemplo. “Quando eu peço que o aluno assista a um filme e, na aula seguinte, tenho um debate sobre o filme, estamos trabalhando com diferentes plataformas para o que o processo de ensino se dê de forma mais intensa, e tudo isso veio de maneira mais forte com o advento da ‘internet’”, afirma Rocha.

Segundo o professor, atualmente quem não tem acesso à “internet” e a computadores pode ficar prejudicado, mas há outras formas. “Os alunos que não têm acesso a essas plataformas ficam prejudicados sim, mas temos experiências em alguns lugares do mundo, com características socioeconômicas parecidas com as do Brasil, em que as aulas foram dadas pelo rádio por meio de emissoras estatais, ou seja, fizeram aulas permitindo que os alunos daquele país pudessem aprender. Se olharmos de uma maneira muito reducionista, entendendo que o ensino híbrido só pode ser feito por meio de ‘internet’ com banda larga, não há dúvida de que realmente há um prejuízo para aquelas crianças e jovens que não têm acesso”.

O ensino híbrido pode ser feito por meio de formas bem conhecidas, lembra Ismael Rocha. “Nós temos estações de TV e rádio estatais, temos a possibilidade de fazer a geração de materiais escolares numa velocidade muito rápida. É muito mais uma decisão política, para que o ensino híbrido possa fazer parte do dia a dia das escolas, do que uma decisão de tecnologia. Um exemplo no Brasil é o famoso telecurso, quando uma série de pessoas conseguiu seu diploma dos antigos primeiro e segundo graus, acompanhando aulas todos os dias pela televisão. Elas não tinham oportunidades de ter aulas presenciais”, diz.

Na opinião do professor, a pandemia traz esse avanço para a educação. “Se tiver um programa de educação que seja formatado de maneira que todos possam ter acesso à informação, certamente nós teremos um ganho. A pandemia traz exatamente esse desenho: a possibilidade de mudarmos definitivamente a realidade da educação no Brasil. Para a educação, não existem limites, existe sim a necessidade de ter boa vontade, porque aprender é algo que o ser humano faz desde quando nasce, desde os tempos das cavernas, por diferentes plataformas. Nós estamos só sistematizando isso”.

Educa Week 2020

Nesta terça-feira (14), no Educa Week, Ismael Rocha e mais três especialistas vão falar sobre o tema, em debate de utilidade pública “on-line”. O debate contará com a participação de algumas das maiores autoridades no assunto: Ismael Rocha, diretor acadêmico do Iteduc (Institute of Technology and Education), Mario Ghio, diretor-presidente do Somos Educação, Guilherme Cintra, head de Tecnologia Educacional do Eleva Educação e Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais da SAS plataforma de educação.

A Educa Week 2020 vai até domingo (19 de julho). No total, serão mais de 30 painéis com a participação de 70 especialistas, que vão debater o futuro da educação no Brasil e compartilhar experiências de sucesso do ensino-aprendizagem durante a pandemia, entre outras pautas do setor. Para acompanhar os debates, aberto ao público, basta acessar o “site” do evento.

(Fonte: Agência Brasil)

As inscrições para o processo seletivo do Programa Universidade para Todos (Prouni) abrem hoje (13) e vão até a sexta-feira (17). A iniciativa do governo federal oferece bolsas de estudo em instituições de ensino superior privadas.

Os interessados devem acessar o portal do Prouni e consultar as bolsas e cursos disponíveis. No “site” é possível buscar por instituição, município ou área de estudo.

De acordo com o Ministério da Educação, neste segundo processo seletivo, foram disponibilizadas 167.780 bolsas em 1.061 faculdades particulares. Destas, 60.551 são bolsas integrais e 107.229, parciais.

Para inscrição, é preciso ter uma conta no portal de serviços do governo federal.

Pelo Prouni, é possível obter bolsas integrais ou parciais, que custeiem todo o curso ou metade do valor. As integrais são destinadas aos estudantes com renda familiar por pessoa de até 1,2 salário mínimo. Já as parciais beneficiam alunos cujas famílias possuem renda familiar por pessoa de até três salários mínimos.

O Ministério da Educação estabelece como requisitos também o aluno ter conseguido nota de, pelo menos, 450 pontos de média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e não ter diploma de ensino superior.

O cronograma prevê, após o fim das inscrições, a divulgação do resultado da 1ª chamada no dia 21 de julho, a comprovação de informações da 1ª chamada até o dia 28 deste mês e o resultado da 2ª chamada no dia 4 de agosto.

(Fonte: Agência Brasil)

O Museu da Língua Portuguesa lançou hoje (13), na capital paulista, o projeto virtual A Palavra no Agora, que estimula o público, a partir de exercícios de escrita, a se expressar sobre o período em que vivemos. O objetivo é ajudar as pessoas a lidar com os sentimentos causados pela pandemia de covid-19.

Os exercícios são baseados em roteiros com perguntas simples, que servem como referência para fazer as pessoas refletirem e transformarem em texto o sentimento sobre o momento. Segundo o museu, os textos produzidos poderão ser compartilhados no próprio “site”. O projeto está disponível gratuitamente em noagora.museudalinguaportuguesa.org.br .

“Vivemos um momento de perdas físicas e simbólicas. A incerteza, a morte, o adiamento de planos, a doença, o isolamento, a crise econômica, a distância, tudo isso tem um impacto enorme na vida de todos os brasileiros. Na ausência do acolhimento físico, do contato, o que nos une hoje são as palavras, ditas e escritas”, explica Marília Bonas, diretora-técnica do IDBrasil, organização social que gerencia o Museu da Língua Portuguesa.

O projeto disponibiliza trechos de obras literárias que falam sobre o sentimento de perda, resenhas de livros e filmes que, de alguma forma, tratam do assunto. Os participantes também podem tomar a iniciativa de sugerir obras que possam apoiar e inspirar outras pessoas neste momento.

O Museu da Língua Portuguesa é uma instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do governo do Estado de São Paulo, e está em reconstrução. Em 2015, um incêndio, que atingiu três andares e sua cobertura, destruiu o local.

(Fonte: Agência Brasil)

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou, na última quinta-feira (9), a Medida Provisória 975/20, que cria um programa emergencial de crédito para pequenas e médias empresas. Os empréstimos concedidos contarão com até R$ 20 bilhões de garantia da União, complementando o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), também aprovado no Congresso Nacional e que já está em execução.

Para o deputado federal Juscelino Filho (DEM-MA), a chamada MP do Crédito é de extrema importância. “Ela reduz burocracias, diminui os juros e estende o prazo de pagamento dos empréstimos. Ou seja, quebra as travas para que o dinheiro chegue finalmente aos empreendedores. Salvar as empresas e os negócios neste momento é fundamental para a retomada da economia no pós-pandemia do coronavírus”, avalia.

O relator da MP 975 foi o líder do Democratas na Câmara, Efraim Filho (PB), que acredita que serão movimentados cerca de R$ 80 bilhões. “Esta é a proposta mais ousada e completa de liberação de crédito. O recurso que está parado nos bancos vai virar dinheiro para micro e pequenos empreendedores, que geram emprego, renda e oportunidade. A crise é gigante e quem quer empregar não pode ficar preso numa burocracia sem fim”, ressalta.

Instituições financeiras participantes do Programa Emergencial de Acesso a Crédito (Peac-FGI), criado pela Medida Provisória, poderão contar com garantia de 30% do valor total emprestado a empresas com receita bruta de R$ 360 mil a R$ 300 milhões em 2019. A contratação poderá ser feita até 31 de dezembro, com carência de 6 a 12 meses. O prazo para pagar será de 12 a 60 meses, com taxa de juros definida pelo regulamento do programa.

O deputado Juscelino Filho ressalta outra novidade: a criação do Peac-Maquininhas, que usará como garantia os valores a receber de vendas feitas pelas empresas por meio das máquinas de cartões. “Mais uma vez, a Câmara ouve o clamor dos setores afetados pela crise da Covid-19 e aprova uma importante medida do governo. Como sempre digo, o diálogo e essa atuação conjunta é o caminho para superarmos tudo isso”, acrescenta. A MP 975/20 segue para apreciação do Senado.

(Assessoria de comunicação)

No Brasil de 1990, uma em cada cinco crianças e adolescentes estava fora da escola, e uma em cada dez, entre 10 e 18 anos, não estava alfabetizada. A cada mil bebês nascidos vivos no país naquele ano, quase 50 não chegavam a completar um ano, e quase 8 milhões de crianças e adolescentes de até 15 anos eram submetidas ao trabalho infantil.

Para pesquisadores e defensores dos direitos dessa população, o país deu um passo importante para mudar esse cenário naquele ano, quando foi publicado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completa 30 anos hoje (13).

Passadas três décadas, o percentual de crianças e adolescentes fora da escola caiu de 20% para 4,2%, a mortalidade infantil chegou a 12,4 por mil, e o trabalho infantil deixou de ser uma realidade para 5,7 milhões de crianças e adolescentes.

O estatuto considerado parte desses avanços é fruto de um tempo em que a concepção sobre os direitos das crianças e adolescentes mudou no país e no mundo. O coordenador do Programa de Cidadania dos Adolescentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Mario Volpi, conta que o Brasil participou, ativamente, das discussões internacionais que culminaram, em 1989, na Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada por 196 países.

Mesmo antes de esse acordo ter sido ratificado no Brasil, em 1990, os conceitos debatidos na ONU contribuíram para a inclusão do Artigo 227 na Constituição Federal de 1988. A partir dele, tornou-se “dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Aprovado dois anos depois da Constituição, o ECA parte do Artigo 227 e consolida todo o debate que o antecedeu, declarando crianças e adolescentes sujeitos de direito, aos quais devem ser garantidas a proteção integral e as oportunidades de desenvolvimento em condições de liberdade e de dignidade.

“Foi um processo muito complementar. Em 1988, a Constituição. Em 1989, a Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU. E, em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente. Existe um alinhamento conceitual bastante coerente nesses três documentos jurídicos que estabeleceram essa mudança bastante radical na forma como a infância passa a ser vista pelo país”, explica Volpi. “O ECA é considerado uma das melhores leis nacionais que traduzem a Convenção sobre os Direitos da Criança, e foi usado como referência para a maioria dos países latino-americanos, uma referência histórica”.

A mudança conceitual destacada pelo coordenador do Unicef se dá em relação ao Código de Menores, de 1979. Volpi explica que o texto anterior, revogado pelo ECA, estava inteiramente concentrado na repressão a crianças e adolescentes em situações irregulares, como crianças órfãs, pobres, em situação de rua ou em conflito com a lei.

“Existia uma visão de que, para toda a situação de irregularidade nas pessoas menores de idade, deveria haver uma ação repressiva do Estado para proteger a sociedade”, resgata Volpi. “Criou-se essa divisão entre as pessoas com menos de 18 anos conhecidas como crianças e adolescentes, porque estavam em situação de normalidade, e as que eram chamadas de menores, que era como se referiam a uma criança pobre, desvalida. Ninguém dizia que tinha em casa dois menores, dizia que tinha duas crianças ou dois filhos. Mas, quando se referiam às famílias das crianças mais pobres, diziam que a família tinha dois menores”.

Medidas socioeducativas

Ao substituir o Código de Menores na legislação brasileira, o Estatuto da Criança e do Adolescente mudou a Doutrina da Situação Irregular para a Doutrina da Proteção Integral, que distribui a toda a sociedade a responsabilidade por assegurar os direitos das crianças e adolescentes com prioridade absoluta, citando, explicitamente, que esse é um "dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público".

A mudança produziu transformações, mas não apagou a mentalidade enraizada no Código de Menores. "Não fizemos, ainda, uma total mudança das práticas sociais. A lei veio trazendo novas visões, mas a prática social demora muito mais para mudar do que a lei. Nesses 30 anos, houve um grande trabalho de divulgação da lei, de conhecimento, de aplicação, de mudanças positivas, mas existe uma parcela da sociedade que resiste em entender esse conceito de infância como um sujeito de direito”, avalia Volpi, que usa como exemplo o sistema de medidas socioeducativas para crianças e adolescentes em conflito com a lei, apesar de ponderar que há boas experiências no país.

“O país não fez, ainda, um investimento significativo para transformar o que era esse sistema penal de crianças e adolescentes em um sistema educativo”, afirma ele, que lembra que o objetivo das medidas socioeducativas é afastar das práticas criminais os cerca de 26 mil adolescentes que cumprem medidas socioeducativas atualmente no país, e que, para isso, precisam melhorar sua escolaridade, capacitação profissional e seu modo de se relacionar e respeitar outras pessoas. “O sistema socioeducativo está muito focado em punir os adolescentes pelo ato cometido, mas essa é só uma dimensão”.

Para o coordenador da Infância e Juventude da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Azambuja, o ECA sofreu duas crises, ao longo de seus 30 anos: uma de implementação de suas políticas por parte dos governos e outra de interpretação de suas regras por parte dos juristas e da Justiça, de modo a sonegar direitos.

Azambuja também é coordenador da Comissão Especializada de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Nacional dos Defensores Públicos Gerais (Condege) e contesta a ideia de que as medidas socioeducativas são insuficientes porque têm menor duração temporal.

“Nas questões policiais, o ECA, muitas vezes, é visto como sinônimo de impunidade. Mas as pessoas que falam isso são adultas, e não se lembram de como o tempo é relativo e passa de maneira diferente para as crianças e adolescentes. Se você se imaginar com 12, 13 ou 14 anos, longe da sua mãe e preso, o quão infernal isso poderia ser? Esses meninos são bem responsabilizados, mas isso adequado à realidade e idade deles”.

Apesar das dificuldades, o ECA também serviu de instrumento para reivindicar direitos para esses adolescentes, lembra ele, citando a decisão do Supremo Tribunal Federal que obrigou, no ano passado, o Estado do Rio de Janeiro a soltar adolescentes apreendidos em unidades superlotadas, até que se atingisse a lotação máxima de 119% da capacidade de internos. Azambuja também cita que, durante a pandemia de covid-19, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro cobrou que o governo do Estado garantisse educação à distância aos adolescentes apreendidos e videochamadas com as famílias.

“As unidades deveriam se assemelhar a escolas, mas, ainda, vemos esses espaços como pequenas prisões, com todos os malefícios que isso gera, como uma subcultura criminal, incutindo neles o ideal de que são perigosos, prisioneiros, e moldando a personalidade deles de acordo com essa ideia, o que contraria toda a lógica do Estatuto da Criança e do Adolescente", analisa o defensor.

(Fonte: Agência Brasil)

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ) comemora 111 anos nesta terça-feira (14) com uma intensa programação virtual. Como presente, está recebendo 111 depoimentos de artistas de várias expressões culturais do país e de funcionários da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Secec-RJ), como o da camareira mais antiga, Leila Lopes, há 23 anos no teatro. Os depoimentos serão publicados diariamente no “site” do TMRJ, até o fim do mês.

Em entrevista à Agência Brasil, o presidente do TMRJ, Aldo Mussi, destacou que o Municipal “é uma casa de todos”. Para ele, a repetição do número 1, repetido três vezes, “me leva a pensar que, depois de tudo que a gente viveu nesses 111 anos, começar após essa pandemia planetária significa que nós estamos em um recomeço mesmo, de voltar as nossas atenções para os artistas, para o fazer da arte, para a necessidade dessa arte continuar a ser exibida, não importam os meios”.

Irene Orazem em O Lago dos Cisnes - Acervo pessoal/Irene Orazem

Vivência

Para a funcionária na ativa com mais idade, Irene Orazem, de 80 anos, há 72 anos trabalhando no local, o Theatro Municipal “é minha vida”. Irene entrou na antiga escola de dança do teatro com 8 anos de idade; aos 15 anos, passou a integrar o corpo de baile, em 1955. Foi solista, professora, ensaiadora, diretora da Divisão de Dança e, atualmente, é responsável pela produção de figurinos dos balés e óperas. “Dancei todos os balés possíveis que foram montados. Viajei pelo Brasil com o balé. Para mim, o Theatro é o meu dia a dia, meu pão, minha família. Também é a minha casa porque, com 8 anos, 10 anos, eu já estava em cena. É uma vivência muito grande passando por várias fases e obras do Theatro”.

Irene lembrou, contudo, que a situação hoje não é boa. “Já vínhamos sofrendo muito antes da pandemia”, disse, referindo-se aos problemas financeiros do governo fluminense que impactaram, inclusive, no pagamento de salários. Com a pandemia, a situação ficou pior. “Parar de dançar é difícil”. É uma coisa que ela sente muito pelas futuras gerações. Segundo Irene, os concursos para entrar bailarinos mais jovens estão suspensos.

Diretor do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Aldo Mussi - Tomaz Silva/Agência Brasil

Destaques

Mussi salientou que os artistas da casa estão sempre se modernizando e, agora, partem para as apresentações virtuais. “A gente vai fazer uma coisa simplificada, não simples, porque tem coisas muito importantes, porém, com muito amor de todo mundo”. O exemplo foi dado por essas 111 personalidades da cultura nacional que se dispuseram a falar sobre o Municipal, pelos bailarinos que fizeram uma releitura do “Lago dos Cisnes”, chamada “À Margem”. Os músicos da Orquestra Sinfônica do TMRJ e alguns convidados estão preparando também uma apresentação, misturando um concerto de Bach com samba.

O Municipal prepara um “quiz” educativo que será lançado gratuitamente no dia do aniversário por meio das redes sociais e do “site”. O “quiz” consiste em mostrar a imagem de um camafeu com grandes figuras do mundo das artes, entre os quais escritores, dramaturgos e compositores, e ver se a criança descobre quem é.

Ao longo do dia 14, serão realizadas três “lives”: às 11h, às 15h, e a de encerramento, às 18h. O tema será o destino da cultura pós-pandemia e a história do Theatro Municipal. Na série gravações históricas, haverá uma edição especial com gravações de cantores que participaram da primeira temporada lírica do Municipal do Rio, em 1910.

Exposição

Será lançada, também, a Copa de Fotografia 2020, com fotógrafos profissionais e amadores de todo o Estado. É um concurso que existe desde 2018 e do qual o Theatro Municipal foi tema nos anos anteriores. A edição deste ano terá duas categorias. Na primeira, os participantes dos anos passados podem inscrever uma foto antiga, que não tenha participado dos outros concursos.

Na segunda, denominada Lembrança do Municipal, o público poderá enviar uma foto do seu acervo pessoal referente ao Municipal do Rio de Janeiro, que tenha sido tirada em uma visita guiada ou em um espetáculo e que seja publicada nas redes sociais com a “hastag” #111anostheatromunicipal. “As melhores fotos serão expostas nas nossas redes e concorrerão a prêmios”, disse Aldo Mussi.

Vídeos

A programação comemorativa inclui, ainda, o lançamento de vídeos feitos especialmente para o aniversário. Um deles é “À Margem”, uma produção dos bailarinos do Corpo de Baile do TMRJ, com seis episódios que serão exibidos na íntegra no dia 14, em comemoração aos 111 anos. Inspirada no balé “O Lago dos Cisnes”, a série é dirigida pela coreógrafa Patrícia Miranda.

Na semana do aniversário, o Centro de Documentação (Cedoc) do Theatro Municipal vai disponibilizar a exposição sobre Antônio Francisco Braga, o primeiro maestro da Orquestra Sinfônica, com acervo com vídeos, fotos e programas dos quais Braga participou. “Ao longo do mês, vamos soltando algumas surpresinhas que vão aparecer”, prometeu Aldo Mussi.

Entre as personalidades que já gravaram depoimentos sobre o TMRJ estão Gilberto Gil, Glória Pires, o maestro Isaac Karabitchevsky, Tatiana Leskova, Fafá de Belém, Haroldo Costa, Vera Fischer, Totia Meireles, Renata Sorrah, Marcelo Antony, Ary Coslov, João Donato, Toni Garrido, Lenine.

(Fonte: Agência Brasil)

Redes de ensino de todo o país apostam em habilidades socioemocionais para ajudar gestores, professores e famílias a lidarem com o retorno às aulas presenciais quando elas acontecerem. São habilidades como persistência, assertividade, empatia, autoconfiança, tolerância à frustração, entre outras, que podem, de acordo com os especialistas entrevistados pela Agência Brasil, melhorar o aprendizado dos alunos e ser ferramentas importantes para lidar com a pandemia do novo coronavírus.

“Estamos bastante preocupados com esses estudantes que vão voltar. Vai ter estudante que perdeu familiares, que têm familiares na UTI [unidade de terapia intensiva], a gente tem que estar preparado para isso. Estamos, também, preocupados com a questão cognitiva. Nem todos os estudantes tiveram as mesmas condições ou estão tendo as mesmas condições para estudar”, diz a presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Cecilia Motta.

O Consed firmou uma parceria com o Instituto Ayrton Senna, que, a partir do dia 16, irá oferecer uma formação aos educadores, gestores e às famílias interessadas sobre as chamadas competências socioemocionais. Os técnicos e equipes de formação das redes de ensino participarão de reuniões fechadas e, a cada 15 dias, serão realizas “lives” abertas, pela “internet”, voltada a professores, famílias de estudantes e demais interessados.

“Estamos vivendo algo sem precedentes na história da humanidade. De uma hora para a outra, tivemos nossas vidas transformadas”, diz o vice-presidente de Desenvolvimento Global e Comunicação do Instituto Ayrton Senna, Emílio Munaro. “Nos deparamos com a situação de escolas fechadas, entre outras. As pessoas perderam o senso do que vai acontecer e se viram diante da imprevisibilidade, o que torna as pessoas ansiosas. Para controlar isso, eu preciso desenvolver minhas habilidades”, acrescenta.

Segundo Munaro, habilidades socioemocionais podem ser aprendidas. Essas competências estão previstas, inclusive, na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que estabelece o que deve ser ensinado em todas as escolas do país. De acordo com a BNCC, os estudantes devem ser capazes de “conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas”.

“A ciência mostrou que, na hora que se desenvolve competências socioemocionais, se potencializa as competências cognitivas. Se uma criança desenvolve resiliência e combina com abertura ao novo, tem desempenho melhor, por exemplo, em língua portuguesa. Ao invés de ensinar uma única fórmula matemática, eu ensino o aluno a sentar e resolver problemas. Com isso, eu associo a técnica de resolver problemas a qualquer disciplina, a física, química, biologia. Desde que aprenda a estrutura mental de resolver problemas, consigo fazer isso em qualquer disciplina”, diz Munaro.

Durante a pandemia

Em Granja, município cearense localizado a cerca de 300 quilômetros da capital do Estado, Fortaleza, o professor de geografia das escolas municipal e estadual José Lira Dutra, defende que desenvolver competências socioemocionais é algo importante de ser feito desde já, mesmo antes do retorno às aulas presenciais.

“Fiz um levantamento junto a meus alunos e, conversando com eles, percebi que eles estavam com uma dificuldade enorme, tanto na autogestão – assim como eu, professor, fiquei perdido, o aluno ficou sem saber como organizar sua rotina familiar e escolar – quanto na resiliência. A partir desse levantamento, comecei a trabalhar com eles essas competências”, conta.

Desde antes da pandemia, Dutra desenvolvia, com os estudantes do ensino médio o projeto Diretor de Turma voltado para o desenvolvimento de habilidades ligadas às emoções. Segundo o professor, com a suspensão das aulas presenciais, a realidade dos alunos mudou muito. Até então, eles eram proibidos de mexer no celular dentro da sala de aula. Agora, precisam da ajuda da tecnologia para aprender. “O aluno precisa se engajar no processo de aprendizagem. E esse processo hoje está mudando”.

Para ensinar nesse novo contexto, Dutra diz que ele mesmo precisou se reinventar e, para isso, contou com as habilidades socioemocionais. “O professor precisa hoje se apropriar da tecnologia que está a disposição. É fácil? Não. Tem algumas dificuldades, a verdade seja dita. A partir daí, tem que mostrar para o aluno que o professor está aberto a aprender a reaprender esses novos conceitos e novas práticas de aulas remotas. O professor, estando engajado, o aluno vai entender e vai se engajando também. O professor tem uma força muito grande de engajar o aluno a partir da sua prática e da sua fala”, diz.

Atividades presenciais

Estados e municípios afirma que discutem formas seguras de retomar as aulas presenciais que, na maior parte dos locais, não tem data prevista. Tanto o Consed quanto a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) divulgaram documentos para orientar as redes de ensino a estipular regras para a retomada.

“Nós estamos com muita cautela porque todas as datas que a gente previu que voltaria não deram certo. Estamos discutindo não é quando voltaremos, mas o que faremos quando voltarmos, que tipo de cuidados teremos que ter, com os estudares, famílias. Como a gente vai fazer isso é motivo de debate o tempo todo”, diz Cecilia.

Nesta semana, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou um parecer com Orientações Educacionais para a Realização de Aulas e Atividades Pedagógicas Presenciais e Não Presenciais no contexto da Pandemia. De acordo com o parecer, a reabertura das escolas deve ser segura e consistente de acordo com as orientações das autoridades sanitárias locais e das diretrizes definidas pelos sistemas de ensino.

O parecer orienta ainda que as redes capacitem os professores e funcionários, pois “é essencial a preparação socioemocional de todos os professores e funcionários que poderão enfrentar situações excepcionais na atenção aos alunos e respectivas famílias, como também a preparação da equipe para a administração logística da escola”, diz o documento.

(Fonte: Agência Brasil)

E agora, José?
No meio do caminho
tinha uma pedra. Aliás,
uma pedrada,
que é uma pedra
movimentada.

Dizem que a coisa
foi orquestrada
teleguiada.
Mas, Zé, compreenda:
há muita insatisfação,
e o povo passa fome, arrocho,
precisão.
Você, não.

É preciso se-
parar o joio
do trigo.
Mas onde está o trigo, meu Deus?!
Ele já não é subsidiado
– só o povo continua
subalimentado.

E o povo, já sem razão,
responde
com quatro pedras
na mão.

José, você que é,
que é católico, rezador,
talvez diga que nem só de pão
vive o “home”;
entanto, ouça:
acima da guerra,
há o grito da fome.

José, sabe como é:
o povo se contenta
com pouco.
Boca cheia
não grita.
Bucho vazio
deixa louco.

Sei, não precisa repetir:
atiraram a primeira pedra.
Mas, José, e por que a outra?
Lançada de catapulta,
com destaque em jornal,
apedrejaram o povo com a Lei
de Segurança Nacional.
Lei de Talião,
pagou-se com a mesma moeda.
Ou pedra.
(Mas, José,
duro
com duro
não faz
bom muro).

Não sei, José,
não sei como é.
Tudo serve
de exemplo.
E com pedra também
se constrói
um templo.

Vamos juntar todas essas pedras
e talvez, quem sabe, um dia
com elas terminaremos,
“não mais que de repente”,
o prédio transparente
da democracia.

E aí, povo forte,
Nação em pleno viço,
botaremos uma PEDRA
em cima               disso.

* EDMILSON SANCHES

As dúvidas quanto ao uso dos acentos gráficos ainda não terminaram.

Neste domingo, lembramos mais alguns casos.

Dicas gramaticais
1. SECRETÁRIA ou SECRETARIA?
SECRETÁRIA é a pessoa; SECRETARIA é o lugar.

REGRA:
Acentuam-se as palavras paroxítonas terminadas em ditongo:
SE-CRE-TÁ-RIA, a-é-reo, núp-cias, sé-rie, cá-ries, ób-vio, re-ló-gio, nó-doa, má-goas, á-gua, tá-buas, tê-nue, o-blí-quo, ár-duos, au-tóp-sia, fa-mí-lia, prê-mio, am-bí-guo, lon-gín-quo, en-xá-guas, de-sá-guam, mín-guem, bi-lín-gue...

OBSERVAÇÃO:
Não haverá acento se a palavra terminar em hiato:
SE-CRE-TA-RI-A, ele ma-go-a, ele a-ve-ri-gu-a, a-pa-zi-gu-a, ar-gu-o, que eu ar-gu-a, ele in-flu-en-ci-a, ele no-ti-ci-a, eu pre-mi-o, ma-qui-na-ri-a...

2. RÚBRICA ou RUBRICA?
O certo é RUBRICA.

É uma palavra paroxítona terminada em “a”. Se fosse proparoxítona teria acento.

REGRA:
Todas as palavras proparoxítonas (= sílaba tônica na antepenúltima sílaba) devem receber acento gráfico:
álcool, álibi, amássemos, amávamos,
cágado, científico, depósito, devíamos, êxodo, fôssemos, hábito, ímprobo, ínterim, ômega, pântano, plêiade, protótipo, repórteres, vermífugo...

OBSERVAÇÃO:
Cuidado com algumas palavras que não têm acento gráfico porque verdadeiramente são paroxítonas:
avaro, aziago, ciclope, decano, erudito, filantropo, ibero, inaudito, pudico, refrega, rubrica...

3. APÔIO ou APOIO ou APÓIO?
"APÔIO" e “APÓIO” não existem.
APOIO (ô) é substantivo: “Preciso do seu apoio”.
APOIO (ó) é verbo: “Eu apoio este candidato”.

REGRA:
Acentuam-se as palavras que apresentam ditongos abertos:
ÉU: céu, réu, chapéu, troféus...
ÉI: papéis, pastéis, anéis...
ÓI: dói, herói...

OBSERVAÇÃO 1:
Não se acentuam os ditongos fechados:
EU: seu, ateu, judeu, europeu...
EI: lei, alheio, feia...
OI: boi, coisa, o apoio...

Acrescentando...
“Deficit” e “superavit” tiveram grafia alterada pelo Acordo Ortográfico

“Não estão afastados os riscos de que o país volte a incorrer em grandes ‘deficits’ externos no futuro – e essa possibilidade exige atenção do governo”.

Antes do último Acordo Ortográfico, usávamos as grafias “déficit” e “superávit”, ambas com acento marcando a sua sílaba tônica. As palavras latinas tinham sofrido um aportuguesamento fora do padrão, que foi agora revogado.

Para entender melhor essa questão, convém observar que, na língua portuguesa, não há palavras terminadas em “t” – esse não é o nosso padrão gráfico. Um termo como “superávit” poderia receber o “e” final, adequando-se ao padrão de aportuguesamento, donde resultaria a forma “superávite”.

Ocorre, entretanto, que, com “déficit”, isso não seria possível sem deslocamento da sílaba tônica porque, em português, as palavras são oxítonas, paroxítonas ou proparoxítonas (estas com acento tônico na antepenúltima sílaba). Não há possibilidade, no nosso sistema, de acentuar uma sílaba anterior à antepenúltima. Com o deslocamento, teríamos algo como “defícite”.

Vê-se, assim, que o problema não é fácil de resolver. No sistema ortográfico antigo, optou-se pelas grafias “déficit” e “superávit”, que podiam receber o “s” de plural depois da consoante – mais uma solução fora do padrão ortográfico do português.

Com o novo acordo, essas formas voltaram à sua grafia latina (estão, agora, na lista de estrangeirismos do Volp, documento que registra a grafia oficial das palavras no território brasileiro).

Dessa forma, perderam o acento e passam a ser tratadas como termos latinos. Perdem, portanto, o “s” de plural e passam a ser tratadas como nomes de dois números. Temos, agora, as construções o “deficit”, os “deficit”, o “superavit”, os “superavit” - sem o “s” de plural.

O texto corrigido segundo a ortografia vigente: Não estão afastados os riscos de que o país volte a incorrer em grandes “deficit” externos no futuro – e essa possibilidade exige atenção do governo.

Nem tudo mudou com o Novo Acordo Ortográfico
Na verdade, as mudanças na ortografia do português brasileiro não são tantas como se imaginava. Na prática, muitas palavras mantiveram a grafia anterior. Ocorre, entretanto, que as pessoas, nem sempre familiarizadas com certa terminologia, passaram a ter dúvidas sobre pontos que não foram tratados no Acordo. Do ponto de vista gramatical, o antigo acento de eu “apóio” (que hoje se escreve eu “apoio”) não era um diferencial, mas grande parte dos usuários da língua imagina que sim, que seu emprego servia para distinguir a forma verbal do substantivo. Esse acento deixou de ser usado como todos os ditongos abertos em palavras paroxítonas, independentemente de haver homônimo.

Há quem imagine que os acentos das formas verbais dá (“Ele nunca ‘dá’ esmolas”) e dê (“Espero que ele ‘dê’ atenção ao caso”) sejam diferenciais, pois existe a preposição “de” e a forma “da” (contração da preposição “de” com o artigo “a”), e que, portanto, devem deixar de ser usados. De jeito nenhum. Esses acentos assinalam os monossílabos tônicos terminados em “a”, “e” e “o” (como em “pá”, “chá”, “pé”, “fé”, “pó”, “dó” etc.), regra que não sofreu nenhuma alteração.

Multifuncional, microcirculação, antienvelhecimento, lipoescultura, anticontrabando, por exemplo, não se modificaram. Já arqui-inimigo, autoestima, infraestrutura, antirrugas e anti-idade adaptaram- -se à nova convenção.

Teste da semana:
Assinale a opção que completa, corretamente, a frase abaixo:
“Ela _________ não sabia se as declarações deviam ir ou não ir _________ ao processo".
a) mesma – anexas;
b) mesmo – anexo;
c) mesma – em anexas;
d) mesmo – anexas;
e) mesma – anexo.

Resposta do teste: Letra (a).
A palavra MESMO, quando significa "próprio", é um pronome de reforço e deve concordar com a palavra a que se refere: "Ela mesma". O adjetivo ANEXO deve concordar com o substantivo a que se refere: "as declarações...anexas". Seria aceitável também a forma EM ANEXO, que é invariável.

Os protestos contra a morte de George Floyd tinham acabado de completar sete dias nos Estados Unidos (EUA) – e continuariam levando norte-americanos às ruas em cidades de todo o país por semanas – quando o livro de um autor brasileiro foi lançado. Não era exatamente um lançamento. O autor morreu há 112 anos, e o romance foi lançado em 1879. Resultado: a edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Asssis, lançado, nos EUA, pela Penguin Classics esgotou-se em um dia. Nesta semana, já é possível comprar o livro no “site” da editora, tanto na versão impressa quanto na digital.

O “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, lançado pela Penguin Classics, ou “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas”, como ficou a edição norte-americana, foi traduzido pela americana radicada no Brasil Flora Thomson-DeVeaux, que também assinou a introdução e é responsável pelas notas explicativas sobre o clássico de Machado. O livro tem prefácio assinado pelo escritor e editor David Eggers.

Em uma conversa com a Agência Brasil, Flora disse que o prefácio pode ter contribuído para “Memórias Póstumas” ter se esgotado em um dia, nos Estados Unidos, em meio a uma pandemia e a protestos raciais. O prefácio de Eggers foi publicado, antes do lançamento da tradução, na prestigiosa Revista “The New Yorker”, que já teve, entre seus colaboradores, autores como Truman Capote e J.D. Sallinger. Outro fator, na opinião de Flora, também é a vontade do leitor dos Estados Unidos IEUA) em procurar autores não brancos e que não façam parte do cânone norte-americano.

A tradutora também falou sobre a dificuldade de traduzir Machado de Assis e, também, por que aquele que é considerado o maior escritor da literatura brasileira não tem o mesmo reconhecimento no resto do mundo. “Certamente, a demora na tradução não ajudou. Ele chega à língua inglesa com quase 70 anos de atraso”, disse Flora. “A gente está tentando recuperar esse atraso até hoje”.

Agência Brasil
Por qual motivo a senhora acredita que a nova tradução de “Memórias Póstumas”, que foi publicada nos EUA pelo selo Penguim Classics, vendeu tão bem a ponto de se esgotar em um dia?

Flora Thomson DeVeaux
É um mistério que nem eu, nem a editora previmos, porque senão a Penguim teria feito uma primeira tiragem enorme. A gente ainda está tentando entender qual foi a alquimia que fez com que esse livro chegasse até às pessoas. Eu acho que teve dois movimentos, de certa forma complementares, de certa forma contraditórios. O prefácio do David Eggers foi publicado no “site” da “New Yorker”, que tem um alcance enorme, e a maneira como ele descreve o livro tem muita leveza. Ele fala que é um dos livros mais espirituosos jamais escritos, fala do humor, da inventividade e, ao mesmo tempo, foi um momento, enfim ainda estamos neste momento, em que as pessoas estão procurando ler mais autores não brancos, não [fazem parte] do cânone norte-americano. Enfim, tem essa tentativa também da parte de muita gente de se educar, de sair da caixinha em termos de referências. Essa é uma interpretação minha, só analisando o que estava acontecendo naquele dia, mas acho que pode ter muita gente que foi atrás do livro para se distrair, talvez, desse momento tão difícil, e pode ter gente que foi atrás do livro para se educar. Eu acho que existe uma chance de o romance ser recebido de maneiras muito diferentes por tais públicos. Portanto, é um fenômeno que, só com as leituras chegando, a gente vai entender melhor o impacto, entender melhor o que aconteceu.

Agência Brasil
Alguma coisa diferencia a tradução que você fez do “Memórias Póstumas” de outras que foram lançadas anteriormente, nos Estados Unidos?

Flora
Eu estudei, por extenso, as outras traduções. Então, posso apontar maneiras, elementos que diferenciam a minha tradução em termos de estratégia. Eu tive acesso a muitas ferramentas linguísticas e digitais que os outros tradutores não tiveram, porque as outras saíram nos anos 50 e 90, respectivamente, mas acho que essas são sutilezas. Tem algumas coisas que diferenciam a tradução já a partir da embalagem. Dá para dizer que é a primeira tradução anotada em língua inglesa. A Penguin é a primeira editora a apostar que isso seria necessário e interessante para o leitor em língua inglesa. Tem, também, o fato de sair não pela Penguin, mas pela Penguin Classics. É um selo que tem história, que tem um peso, é como se estivesse colocando Machado naquela prateleira da literatura universal. Se a Penguin Classics publica alguma coisa, você pressupõe que deveria conhecer. Eu poderia entrar em mais detalhes, em minúcias que diferenciam a minha tradução das outras, mas acho que é mais para especialistas.

Agência Brasil
A tradução de “Memórias Póstumas” chegou em um momento bem “peculiar”. Os Estados Unidos estavam, e estão, passando por uma pandemia e, ao mesmo tempo, vários protestos raciais em razão da morte de George Floyd. Para você, esses dois fatores, mais especificamente os protestos, podem ter influenciado de  alguma maneira no sucesso desta edição de “Memórias Póstumas”?

Flora

Podem, sim. Na verdade, quando eu fui pensando no lançamento, temi que as manifestações ofuscassem completamente o evento, porque, o que se sente muito nestes tempos é a urgência do momento. Uma semana particularmente conturbada. As manifestações pela morte do George Floyd tinham acabado de completar uma semana, estavam pegando fogo pelos Estados Unidos, e as redes sociais eram muito voltadas para organizar tais manifestações. Tinha muita coisa mudando o tempo todo e, nesse contexto, temi que um romance com quase um século e meio de vida ficasse escanteado, não chegasse agarrando as pessoas pela gola. Foi por isso, também, que foi surpreendente [a edição de “Memórias Póstumas” vender tanto], alguma coisa nessa mistura de fatores fez com que tivesse o efeito contrário. Isso é que eu não sei explicar. Eu teria apostado em um efeito contrário.

Agência Brasil
O fato de Machado de Assis ser um autor negro, isso pode ter contribuído de alguma forma?

Flora
Pode, certamente. Isso que eu digo de ter um momento em que as pessoas estão procurando se informar, o movimento de descolonizar o cânone, ler mais autores negros, mas eu não tenho certeza de que esse teria sido o principal motivo de as pessoas procurarem o romance. Quando a pessoa compra, ela não preenche um formulário explicando por que comprou. Está aí um mistério.

Agência Brasil
Qual foi a maior dificuldade em traduzir a obra de Machado de Assis e, mais especificamente, “Memórias Póstumas”?

Flora
É uma coisa muito curiosa. Tem um ensaio sobre Machado em inglês, tem um tradutor que, em determinado momento, disse que o Machado era muito fácil de passar para o inglês, e ele passou mais alguns anos traduzindo Machado, mas, no prefácio que fez de “Dom Casmurro”, falou o contrário, que Machado é traiçoeiro, justamente porque parece fácil de levar para o inglês. E ele não é. Quando você olha para o Machado, eu acho que os leitores da língua portuguesa veem mais normalidade do que a prosa realmente contém. Tem umas estranhezas nas colocações. Eu tentei prestar muita atenção em quando ele usava frases e expressões que me pareciam fora do comum para aquela época e, aí, reproduzir esse desvio no inglês, escolhendo frases e expressões tão obscuras quanto, mas o que se percebe mais do que uma frase, ou uma palavra, é que tem uma ambiguidade em Machado que é muito comentada em termos gerais, que a gente vê se manifestando em fenômenos como a dúvida, entre todas as aspas, sobre a traição da Capitu, mas essa ambiguidade, às vezes, está nos menores detalhes do livro. Quando você é obrigado a traduzir uma frase, você percebe, quando você lê, enquanto leitor, é isso que o Bento Santiago [personagem do livro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis] fala dos livros falhos, dos livros em que os leitores são obrigados a preencher [as lacunas] por conta própria. O Machado escrevia assim. Quando você traduz, uma frase que você lê, parece que está tudo normal, mas, quando vai traduzir, percebe que ele não deu todos os detalhes, e aí é que você consegue mapear aquilo que o cérebro do leitor/tradutor está sendo obrigado a preencher. Você vê que ele deixou uma margem estratégica de dúvida. Então, é como preservar isso de uma forma adequada, que, às vezes, no processo de tradução, a gente é obrigado a se definir mais para um lado ou mais para o outro. Mas o que eu acho mais interessante é olhar várias traduções de obras do Machado, porque aí que a gente entende as possibilidades que estavam latentes naquela dúvida. Quando você coloca lado a lado as traduções, elas podem estar relativamente juntas, e aí chega um momento em que alguma descrição de um personagem, ou de um gesto, um aditivo, você percebe que as traduções disparam em sentidos diferentes. Isso é porque o Machado não entrega todas as informações de bandeja. Por mais que a informação não pareça esquisita num nível de inventividade linguística de um Guimarães Rosa, ele está fazendo uma coisa, jogando com a dúvida, com a ambiguidade num nível microscópico. É fascinante, são esses os desafios sutis de se traduzir os romances do Machado.

Agência Brasil
A senhora acha que Machado de Assis tem o reconhecimento merecido fora do Brasil?

Flora
É difícil falar em mérito na literatura. Eu acho que o Machado deveria ser mais conhecido. Ele mereceria mais destaque. Eu também estudei a recepção das traduções de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ao longo do século XX, e o que se vê, a cada ciclo de traduções, são brasileiros e machadianistas comemorando e dizendo: será que agora, finalmente, Machado vai ser reconhecido lá fora? Por isso, eu tenho certo ceticismo, porque, quando vejo a cobertura de hoje, penso no Eugênio Gomes [escritor e crítico literário brasileiro], no Raimundo Magalhães Jr. [jornalista, biógrafo e historiador] no começo dos anos 50 falando exatamente as mesmas coisas.

Agência Brasil
A senhora vê algum motivo para essa falta de reconhecimento de Machado no exterior?

Flora
Certamente, a demora na tradução não ajudou. Ele chega à língua inglesa com quase 70 anos de atraso – temos os primeiros contos traduzidos para o inglês no fim da década de 1910, mas não são divulgados amplamente. Então, Machado de Assis efetivamente chega aos Estados Unidos nos anos 50. Aí já são 70 anos de atraso em relação à publicação de “Memórias Póstumas”, mas ele já chega deslocado, chega como uma curiosidade, e eu acho que isso atrapalha a leitura, atrapalha o reconhecimento. A gente está tentando recuperar esse atraso até hoje. Talvez, este seja um argumento para fazerem mais traduções de literatura brasileira contemporânea, para não descobrirem um grande autor brasileiro só daqui a 70 anos.

Agência Brasil
O Machado de Assis aqui no Brasil é estudado no ensino médio, e não é uma leitura muito querida pelos estudantes. Por que a senhora acha que as obras de Machado, inclusive os contos, não são tão apreciadas pelos estudantes?

Flora
Eu não sei. Eu tenho quase vontade de sentar em uma sala de ensino médio e observar as aulas, o professor passando “Memórias Póstumas”, porque eu encontrei o romance aos 19 anos, li por conta própria no meio da faculdade e achei incrível, muito divertido. E fico me perguntando: se eu tive um encontro tão marcante com o livro justamente porque eu não era obrigada a ler. Talvez, tenha a ver com a maneira com que essas obras são apresentadas. Se o Machado de Assis já chega como uma grande imposição, engessada, em vez de ser uma leitura divertida, uma crítica social feroz, um modelo de escrita. Eu realmente não sei se tem algo que poderia ser feito para suavizar esse encontro, porque eu me recuso a acreditar que o problema esteja no livro. Eu li adolescente, e eu me encantei.

Agência Brasil
A senhora conhece outros exemplos de resistência dos jovens a autores clássicos?

Flora
Eu posso pensar na minha própria resistência no ensino médio a obras clássicas. “A Letra Escarlate” [clássico de Nathaniel Hawthorne publicado em 1850], por exemplo, que eu fui obrigada a ler. Eu acho que é fácil você encarar essas leituras como imposição, e não como uma descoberta. Não quero minimizar em nada o trabalho que um professor de ensino médio tem para animar os alunos a encarar a obra com mais boa vontade, mas eu consigo me identificar com esse aluno de ensino médio que está meio emburrado, que acha esse livro velho e chato. Só que, tendo lido muitas vezes, [vejo que] o Machado tem uma leveza de estilo, até comparando com contemporâneos. O Machado envelheceu muito bem. Quando eu ouço as pessoas falando em fazer uma versão simplificada, modernizada, penso que vai massacrar, não tem a menor necessidade. Não estamos falando de um texto medieval. O Machado, inclusive, tem elementos do português coloquial que consegue incorporar no ritmo da prosa – é uma das inovações dele.

Agência Brasil
Após esse sucesso de “Memórias Póstumas”, você tem planos de traduzir outras obras de Machado?

Flora
Muito provavelmente não vai ser do Machado, por um simples motivo: ressaca de doutorado. Todo mundo fica com vontade de respirar ares diferentes, tanto que, assim que defendi minha tese, eu me joguei na pesquisa para um “podcast” narrativo, que vai sair ainda este ano, sobre o caso da Ângela Diniz [socialite brasileira assassinada pelo companheiro, o empreiteiro Doca Street, em 1976, em Búzios, no Rio de Janeiro, em um caso de grande repercussão nacional]. São categorias completamente diferentes. Na minha próxima tradução, gostaria de fazer algo de um período diferente, de uma época diferente. Estou conversando, avaliando algumas possibilidades, mas nunca estive na posição de uma editora já se interessar por uma nova tradução – eu sempre fazia no meu tempo e, quando chegava a hora, botava embaixo do braço e saia batendo em portas. Então, é uma situação nova. De qualquer forma, ainda vai demorar, eu não tenho nada exatamente no forno.

Agência Brasil
Como é o “podcast” sobre a Ângela Diniz em que você está trabalhando?

Flora
Desde o começo do ano passado, estou trabalhando na Rádio Novelo, que é uma produtora de “podcast” aqui no Rio. É uma coisa circular. No primeiro ano de faculdade, eu comecei a estudar português e, também, jornalismo em áudio. Rádio sempre foi uma paixão, cheguei a estagiar em uma emissora de rádio pública nos Estados Unidos. Então, está sendo um reencontro com essa paixão a possibilidade de trabalhar com histórias em áudio.

Agência Brasil
E sobre o “podcast”?

Flora
Não posso adiantar muita coisa. É uma nova leitura desse caso, que teve um grande impacto nos anos 70 e, de certa forma, inspirou o movimento “Quem Ama não Mata”. A gente passou um ano e meio fazendo dezenas de entrevistas. É quase um documentário em áudio. Serão oito episódios. Estamos colocando os pingos nos is. Ele vai ser lançado nos próximos meses, não posso cravar a data ainda, mas não vai demorar muito.

(Fonte: Agência Brasil)