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IMPERATRIZ E UMA HISTÓRIA DE MULAS E SACOS*

"Tropa de Mulas", pintura de Billy Gibbons (São Paulo, 1947-)

Nasreddin (ou Nasrudin) é o nome de um sábio que viveu no século XIII, na Turquia. Embora até haja um túmulo para ele, não se sabe se Nasreddin realmente existiu, o que só aumenta sua popularidade.

Uma das muitas histórias que se conta sobre e com ele, diz que Nasreddin atravessava com frequência a fronteira, com muitas mulas carregadas de sacos. Com igual frequência e cuidado, os guardas da fronteira inspecionavam tudo, abriam e revistavam tudo o que continham os sacos. Não encontravam nada. Nenhum sinal de contrabando ou outro crime. E assim, repetidas e repetidas vezes, Nasreddin passava pela fronteira com mulas e fardos.

Muitos anos depois perguntaram-lhe o que ele negociava, que nunca era descoberto pelos guardas da fronteira. E Nasreddin, tranquilamente, respondeu: “Eu contrabandeava mulas”.

Assim é em Imperatriz, embora não exclusivamente aqui. A sociedade – a Imprensa, sobretudo – continua chafurdando sacos, continua prestando atenção apenas no que é mais aparente, no que parece ser mais óbvio, enquanto bem ali, em frente ao seu nariz, o principal assunto não é abordado, e, como as mulas de Nasreddin, vão cavalgando calmamente até sumirem no horizonte.

Faz muitos anos, melhor, já se vão décadas, que venho escrevendo, conversando e palestrando sobre a necessidade de a sociedade imperatrizense dar atenção aos grandes temas desta cidade, que estão aí, à nossa vista, enormes, e não recebem a abordagem, a “fiscalização”, o cuidado que eles, os temas, requerem. Só cuidamos de olhar os sacos.

Informações vitais, projetos importantes, decisões grandiosas, estudos interessantes não estão sendo apropriados pela sociedade. Grandes temas, que dizem respeito, mesmo, à sobrevivência mais digna das pessoas e do município são simplesmente desconsiderados, deixados de lado, pela ausência de uma oxiopia política que permitisse enxergar mais longe, a partir das possibilidades e potencialidades de Imperatriz e da região por ela influenciada.

As lideranças políticas (ou melhor, as referências políticas – em Imperatriz não há líderes), as referências empresariais, comunitárias e que tais, míopes e apáticas, desenvolveram uma desvontade para coisas e causas que requeiram investimento sistemático e sistêmico, organizado e orgânico de tempo, esforço, recursos e raciocínio.

E, irresponsavelmente, enquanto vão passando a mão em sacos de nada, deixam passar as mulas que carregam – e são – tudo.

* EDMILSON SANCHES
(escrito e publicado em 2004; mudou algo?)

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