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Lembrando papai… JOSÉ CÂNDIDO, O AMIGO DE TODOS*

Deixou a terra natal, o Ceará, e aqui chegou com uma carga enorme de esperanças. E, junto dessa carga, a bagagem dos seus sonhos. Deixou as águas azuis e verdes da terra de Iracema e de Alencar e veio banhar-se de tristezas e saudades nas águas mansas e revoltas de São Marcos histórica salpicadas de lendas e de tradições.

Pisou o cais da Ilha dos Imortais, da terra abundante de cultura e de talentos. Veio criança, veio moço, veio jovem. Engatinhou na subida das ladeiras e perdeu-se nas ruas estreitas da cidade. Emaranhou-se pelas vielas tortas, esburacadas e deu de cara com os azulejos dos sobradões antigos. E não custou em atingir a João Lisboa. E aí, justamente aí, entrou em contato com a cidade. E a cidade passou a lhe oferecer a hospedagem. O abrigo que sonhara encontrar quando deixou a sua terra natal. E aqui se fixou. Em pouco tempo, já não era mais o estranho. E para os que vieram depois, e para os nativos da Ilha, os que chegaram depois, José Cândido de Araújo era maranhense. Nascera aqui num desses sobradões que ele vira quando aqui chegara.

Era essa a impressão. E José Cândido ficou. Sua mocidade toda. Casou. Construiu seu lar. Casou-se com a sra. Lilá Lisboa, filha do sr. Emílio Lisboa, proprietário de uma das mais importantes firmas comerciais da terra maranhense. Integralizara-se na família maranhense. Estava na sociedade no que ela, na época, apresentava de mais evoluído. E, junto dele, uma vida sem cuidados. Era o genro do capitalista Emílio Lisboa! Era o esposo da d. Lilá Lisboa. Galardões da sociedade da terra que lhe oferecera a hospedagem mais simples e mais encantadora.

Mas, com ele, a grandiosidade do seu espírito boêmio, alma aberta, esbanjador de amizade, da amizade que cria amigos. Da amizade que fortalece o espírito. Em pouco tempo, estava ligado aos homens ilustra do Maranhão. Em cada um, o amigo. Em muitos, o adversário. Definiu-se por determinados grupos literários, então exististes. Em pouco tempo, estava nas redações dos jornais. Surgia, com ele, o cronista, depois o polemista.

Aparecia, nele, o intelectual, o estudioso. O espiritualista. Estava sempre na efervescência das campanhas políticas, campanhas literárias, participando de todos os movimentos literários desta nossa São Luís. Toda uma vida assim. Sofreu o colapso da política cômoda que lhe vinha por meio do prestígio da família da esposa cujos dotes morais sempre foram exaltados por ele.

Mas, com ele, a coragem de continuar vivendo a sua vida, de enfrentar o mau tempo. Tinha amigos dedicados junto de si. Soubera conservá-los. Sabia conquistá-los. Não se deixou fixar no abandono de si mesmo. Investia para assegurar o equilíbrio, a mostrar a boa aparência. Uma alma simples agasalhando um coração bom.

Era assim José Cândido de Araújo. Não era um displicente. Não. Tinha cuidados e deveres. Um boêmio autêntico, um espírito lúcido, vibrante. Estava em todas as camadas sociais. Bebia no Casino, no Lítero, mas estava nos botecos com os amigos, os mais simples. Estava em toda a parte. Estava com o Nascimento Moraes, com o Astolfo Serra, com Armando Vieira da Silva, com Antônio Lopes, com Rubem Almeida, com todos numa mistura de estima, de atenções e de afetos. Estava no “fuxico” literário. Aprendera a malícia dos maranhenses. Era um adversário perigoso. Sabia da vida de todos, mas também todos sabiam da vida de José Cândido de Araújo. Era a compensação.

Muitos anos José Cândido na Ilha, cercado pelo Atlântico. Um dia saía do “cerco”. Mas voltava sempre. Estava sempre nos mesmos lugares. Sempre na imprensa. Sempre escrevendo. Depois, saiu de todo. Fixou-se no Rio. Lá, estava a esposa e o filho. Não voltou mais. E foi lá que a doença lhe pegou com a brutalidade do egoísmo. Não mais pôde libertar-se. Sentiu, de certo, a fatalidade terrível. Reações mínimas. Mas ia morrendo aos poucos.

Quebrada estava a resistência. E, na semana passada, chegou-nos a notícia do seu falecimento. O coração do filósofo, que havia em José Cândido, parou. Seus olhos se fecharam para a Vida e, certamente, vão abrir-se para Deus.

A notícia provocou tristeza no coração dos amigos. A cidade sentiu o golpe. Não mais ela veria o poeta, o boêmio nos seus botecos, nos seus clubes sociais, nas páginas dos jornais dando as suas impressões, registrando os seus pensamentos construtivos e, dele, ouvindo a palavra confortadora e amiga. Não mais. Apenas a lembrança com os amigos e nos lugares por onde andou, onde sempre gostava de estar.

Eu o conheci na mocidade e o venho perder na minha velhice. Mas haverá, acredito, o encontro lá muito além daquela serra... Sim, haverá o encontro para matar saudade e rever amigos.

* Paulo Nascimento Moraes. “A Volta do Boêmio” (inédito) – “Jornal do Dia”, 18 de novembro de 1965 (quinta-feira).

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