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LITERATURA MARANHENSE: “Cobra Norato”, uma rapsódia amazônica*

Raul Bopp, o criador deste épico, nasceu em Tupanciretã [hoje Santa Maria – Rio Grande do Sul], em 4 de agosto de 1898, e morreu no Rio de janeiro, em 8 de junho de 1984. Poeta e diplomata. Ao longo da vida, foi pintor de paredes para sobreviver. Seu curso de direito foi feito aos pedaços, em Porto Alegre, Recife, Belém e Rio de Janeiro. Morando em São Paulo, na década de 20, tomou parte do Movimento Modernista, facção Antropofagia, ao lado de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, sendo este poema, “Cobra Norato”, o maior cometimento desse ângulo do movimento. A carreira diplomática começou em 1932, tendo servido na cidade de Yokohama, no Japão, onde fundou o jornal “Correio da Ásia”, serviu, também, em Lisboa, Zurique, Barcelona, Guatemala, Berna, Viena e Lima. Ficou famoso com o livro que melhor representava as tendências nacionalistas da Semana de Arte Moderna, de 1922. “Cobra Norato”, homônimo de uma lenda amazônica contada por Luís da Câmara Cascudo, é ainda, para muitos, a “obra de Raul Bopp, um poema telúrico, rico de expressões regionais. Ele representa toda uma mitologia, a terra, os rios, os bichos, o índio num estilo simples, mas de variado aspecto metafórico”. Do poema disse Oswald de Andrade: “Em ‘Cobra Norato’, pela primeira vez, se realizou a poesia brasileira grandiosa e sem fraude”.

Raul Bopp deixou os seguintes trabalhos: “Cobra Norato” (1931; e a 2ª edição em 1937); “Urucungo” [poemas negros] (1932); “Notas de viagem” (1960); “Nota de um Caderno sobre o Itamaraty” (1960); “Movimentos Modernistas no Brasil” (1966); “Memórias de um embaixador” (1968); “Putirum” [poesia e coisas de folclore] (1969); e “Coisas do Oriente” [viagens] (1971).

“Cobra Norato”, lançado em 1931, é considerado um dos melhores poemas épicos brasileiros, como o é “I-Juca Pirama”, de Gonçalves Dias. Esse canto nasce no cimo do Movimento Modernista, das mãos de Raul Bopp, um dos principais poetas da primeira geração desse período da literatura brasileira, o qual atinge o intento ensaiado por Mário de Andrade, o de ajuntar as falas aborígines e africanas, modificando a sintaxe, evitando os abusos e afetações cometidas pelo autor de “Macunaíma”. “Cobra Norato” retira seu vigor das terras amazônicas de uma forma distinta da realizada por Gonçalves Dias.

“Cobra Norato” é uma prosa na forma e um poema na estrutura, composto por  trinta e três cantos breves e ilustra um cabeamento do herói, onde é apresentado uma suposição acerca da condição de Norato de homem e o seu desejo de “tornar-se humano”, dado o interesse pela filha da rainha Luzia. Vejamos estes fragmentos:

[...] “— Quero contar-te uma história: / vamos passear naquelas ilhas decotadas?  Faz de conta que há luar. / A noite chega mansinho. / Estrelas conversam em voz baixa. / O mato já se vestiu. / Brinco então de amarrar uma fita no pescoço / e estrangulo a cobra. / Agora, sim, / me enfio nessa pele de seda elástica / e saio a correr mundo: / Vou visitar a rainha Luzia. / Quero me casar com sua filha. / [...] — Ah, só se for da filha da rainha Luzia! /  E quando estivermos à espera / que a noite volte outra vez / eu hei de contar histórias / (histórias de não-dizer-nada) / escrever nomes na areia / pro vento brincar de apagar”.

O professor Ébion de Lima em seu “Curso de Literatura Brasileira” [vol. 3] comenta “que ‘Cobra Norato’ é produto do antropofagismo e um dos mais vincados pelo elemento telúrico nas modernas letras brasileiras. A obra se inspira em mitos amazônicos. O poeta aproveita a narração de suas aventuras para descrever a região, e realiza isso vigorosamente, fazendo uso dos termos próprios e vitalizando sua pintura com imagens cheias de dinamismo e sugestões”. E arremata o ilustre mestre, em dizendo que “a natureza amazônica adquire nas páginas de ‘Cobra Norato’ uma exuberância repleta de mistérios e de exotismo, sugeridos não só pelo tema, mas também pela versatilidade quente e colorida com que o poeta a transmite, identificando-se com as raízes folclóricas do lugar”.

Otto Maria Carpeaux diz tudo sobre o poeta nestas duas linhas: “A poesia rara de Raul Bopp situa-se no ponto de contato entre o modernismo estético e o nacionalismo literário”.

“Cobra Norato” é o que chamamos de uma rapsódia amazônica. Lemos este trecho para ter uma pequena ideia da beleza do texto:

“A noite com sono reclama silêncio – correm cipós pelo alto dos galhos, / amarrando arvorezinhas contrariadas, – Árvores comadres / passaram a noite tecendo folhas, em segredo. – Raízes com fome mordem o chão. Árvores encalhadas pedem socorro – A madrugada vem se mexendo atrás da selva. / Clareia. / Os céus se espreguiçam. – Nacos de barrancos se afundam. / Vão fixar residência mais ao longe / numa geografia em construção...”

Estrutura-se o “Cobra Norato” como uma obra épico-dramática, em decorrência das andanças do poeta pela Amazônia, na década de 20, onde narra as aventuras de um jovem que, depois de ter estrangulado o animal, fez-se viageiro em suas abomináveis entranhas.

Esse épico é uma obra mítica do Modernismo, cuja narrativa Wilson Martins no seu livro “O Modernismo”, pág. 195, diz: “observa-se que o mito da viagem, no tempo e no espaço, é a viga-mestra de ‘Macunaíma’, de Mário de Andrade, de ‘Martim Cererê’, de Cassiano Ricardo e do próprio ‘Cobra Norato’, porque foi o Modernismo uma escola ambulante e perambulante, pela descoberta geográfica meduzado pela descoberta cronológica”. E continua Wilson Martins: “Esses artistas com tanto sentido de moderno, a contradição é apenas aparente quando verificamos o sentido do passado mítico representado pelo folclore: é que atrás disso tudo estava à consciência do tempo...”

Ouçamo-lo também: “Um dia / ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim. / Vou andando caminhando, caminhando; / me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes. / Depois faço puçanga de flor de tajá de lagoa / e mando chamar a Cobra Norato. /— Quero contar-te uma história: / vamos passear naquelas ilhas decotadas? / Faz de conta que há luar”.

A poética antropofágica tinha como objetivo ‘devorar’ os valores europeus, e esse era um dos principais tópicos do Movimento Modernista do qual Raul Bopp integrou, a cumprir com brilhantismo essa parte subjetiva que lhe coube, a exemplificar-nos, com esse poema épico, uma narrativa folclórica, já existente na grandeza amazônica. 

“Cobra Norato” é legitimamente uma rapsódia amazônica porque, além do fantástico da história, onde o “Jonas bíblico” é decalcado de uma maneira mais arrepiante e trágica. Lembra-nos, também, as aventuras dos cachalotes brancos descritos por Herman Melville, em “Moby ‘Dick” e, por fim, traz-nos, além disso, a figura do “Leviatã”, o monstro marinho e bíblico e advindo de uma saga fenícia, referenciado em tantos textos e por tantos autores, e particularizado no estudo estatal pelo publicista inglês Thomas Robbes, publicado em 1651, cujo título por extenso diz respeito a “Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil, a tratar da estrutura da sociedade organizada”. Hobbes diz que os humanos são egoístas por natureza a necessitarem de um soberano [Leviatã] que puna aqueles que não obedeçam ao grande acordo igualitário, referências implícitas aos estudos essenciais do Estado, e à proposta do que seria o contrato social de Rousseau

 Por fim, essa rapsódia fala de encantados, das florestas, dos igarapés, dos santuários lúdicos dos rios, das cachoeiras e de todo um primitivismo onde se interiorizam o instinto da aventura e da morte.

*Fernando Braga, in “Conversas Vadias” [Toda prosa] antologia de textos do autor.

Ilustração:

Capa do livro “Cobra Norato”, de Raul Bopp, uma das muitas edições da obra, desde sua estreia em 1931.

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