Skip to content

– ou Da Presença Caxiense e Maranhense em Alguns Livros

*

No último sábado (29/3/2025), em Fortaleza (CE), por benemerência do doador – mais que pelo mérito do recebedor –, chegou-me às mãos nada menos que dezoito preciosidades bibliográficas. Foram um presente, com gentis dedicatórias, do companheiro (de Rotary), colega (de escritas), confrade (de academia) e amigo (de sempre) José Augusto Bezerra, talentoso e, tanto quanto, ativo e operoso homem de cultura, membro e presidente de entidades de nome regional e nacional e autor de trabalhos de reconhecimento e premiação internacional.

No geral, os livros que me foram doados são obras de difícil conseguimento em livrarias e até mesmo em sebos. Acho que um dos itens, a coleção completa, de dez volumes (2009-2023) da revista-livro “Scriptorium” (veja mais abaixo), publicação da Associação Brasileira de Bibliófilos, é atualmente algo quase impossível de se obter.

José Augusto Bezerra, administrador de formação e confirmação, foi destacado gestor regional de empresa multinacional, de produtos e marcas mundiais, onde investiu talento e esforços e conseguiu resultados que o levaram ao mérito de ao menos oito medalhas de ouro. Foi professor universitário e um dos profícuos governadores do Rotary International, Distrito 4490, formado pelos Estados do Maranhão, Piauí e Ceará – morando em Fortaleza, fui um dos membros de sua Governadoria. Com semelhante denodo e eficácia, Zé Augusto administrou, como presidente, a Academia Cearense de Letras, o Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico), a Academia Maçônica de Letras do Ceará, a Associação Brasileira de Bibliófilos, que fundou e onde continua à frente como gestor. É também membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Academia Fortalezense de Letras, Academia Cearense de Retórica e de outras Instituições, nacionais e estrangeiras, inclusive somo sócio correspondente e benemérito.

Autor e coautor de rica bibliografia, José Augusto Bezerra cultiva em seus livros desde os assuntos de bibliofilia e bibliológicos em geral até o romance histórico e a História propriamente dita. Rica iconografia e detalhados textos são tratados, trabalhados, com adequados projetos gráficos, que se assentam sobre material de alta qualidade gráfico-industrial.

OS LIVROS

Entre essas obras “augustas”, de autoria ou coautoria, coordenação ou organização do dedicado autor cearense, listam-se grandes livros como “Uma História do Brasil em Manuscritos” e “Arquivos do Barão de Studart” (no singular na ficha catalográfica: “Arquivo”), os quais abordarei mais adiante, e também:

– “A Carta de Américo Vespúcio, em Lisboa (1504)”, com Ingrid Schwamboru (Edições UFC, Fortaleza, 2019; edição bilíngue: português/alemão, 228 páginas, formato 21 cm X 29,5 cm, ilustrado);

– “Haydn, Mozart e Neukomm na Corte Real do Rio de Janeiro (1816-1822)”, com Ingrid Schwamboru e Maria Elias Soares (Edições UFC, Fortaleza, 2010; edição bilíngue: português/alemão, 370 páginas, formato 17,5 cm X 25,5 cm, ilustrado);

– “Um Novo Olhar sobre ‘O Quinze’ de Rachel de Queiroz”, com Ingrid Schwamboru e Maria Elias Soares (Edições UFC, Fortaleza, 2014; edição bilíngue: português/alemão, 508 páginas, formato 17,5 cm X 25,5 cm, ilustrado);

– “XIX Instituto Rotário do Brasil” (Fortaleza, 1996, 216 páginas, formato 18,7 cm X 25 cm, ilustrado), uma bem documentada obra sobre encontro de administradores do Rotary International, realizado em Fortaleza na gestão distrital de José Augusto Bezerra; e

– “O Espírito do Sucesso”, definido como “romance épico baseado na vida de Alexandre, o Grande”, publicado em 2004, com 244 páginas, formato 14 cm X 21 cm, ilustrado – com segunda edição em breve, que certamente repetirá o êxito da primeira, merecedora de reconhecimentos como o de Marilda Corrêa Ciribelli, que considerou “O Espírito do Sucesso” uma das melhores obras do mundo sobre a vida de Alexandre da Macedônia, que viveu no século IV antes de Cristo. Marilda Ciribelli é especialista em História Antiga e Medieval, com estudos em Roma, professora doutora, titular do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Outras obras têm vindo a público tendo nos bastidores, para sua existência, a decisiva contribuição e esforço do José Augusto, entre elas a “Revista do Instituto do Ceará”, como em 2012, cujo volume, nº 126, tem mais de 340 páginas. Também, um livro “post-mortem” da notável escritora cearense, Rachel de Queiroz, com 35 poemas selecionados de entre rica e até inédita coleção de textos poéticos da autora de “O Quinze”. Trata-se, a seleta poética, de “Serenata: Poesias”, com apreciação de dois conterrâneos de Rachel: prefácio da escritora Ana Miranda e posfácio do próprio José Augusto. O mimoso livro, com formato 15 cm X 18,5 cm, tem 123 páginas e traz três fotos de Rachel de Queiroz em diversas fases da vida. Lançado em 2010, em abril de 2023 já estava na quarta reimpressão.

“SCRIPTORIUM”

Da Associação Brasileira de Bibliófilos, a revista “Scriptorium” é, por assim dizer, seu item de maior documentação e de mais exposição de conteúdos, informações, conhecimentos, às vezes em textos bilíngues. Verdadeira “pièce de résistance”, cumpre a dupla e difícil missão de alimentar mentes e perdurar em tempos dementes, de pouco caso com a leitura, em especial a leitura em suportes físicos, impressos.

A “Scriptorium” é um publicação diferenciada, dedicada, sobretudo, mas não apenas, a temas relacionados ao livro. “Noblesse oblige” – afinal, trata-se da publicação oficial da maior entidade do País a reunir colecionadores, cultores, leitores, em suma etimológica, amigos dos livros (daí, “bibliófilos”).

As edições de 1 a 10 era a coleção pessoal do próprio doador, que me disse que, posteriormente, saberá formar uma outra série completa. Tenho, portanto, motivo(s) para adubar cá dentro um sadio desvanecimento... Os dez números da exclusiva “Scriptorium” abarcam exatos 15 anos, de 2009 a 2023 (não saíram edições em 2011, 2014, 2017, 2020 e 2022; Lúcio Alcântara, médico, político, escritor e bibliófilo, editor da “Scriptorium” do início até hoje, registrou, em editorial, as razões: “dificuldades”, “óbices”, “elevação dos custos”, “pandemia”...).

As dez edições, com os editoriais, totalizam 124 textos bem distribuídos em 1.280 páginas, com dez a até catorze textos por edição, cada uma com diferente número de páginas, no mínimo 96 e máximo de exatas 200 páginas. À exceção da edição nº 4, todas as demais têm ilustrações. A partir do nº 3, “Scriptorium” traz reproduções de imagens, cartonadas, coloridas, encartadas em bolsa na terceira capa ou mesmo solta, dentro de cada exemplar.

O BARÃO

Em sua farta e fértil vida de médico e historiador, filho de comerciante britânico e de mãe com ascendentes políticos e empresariais, o cearense Guilherme Chambly Studart (1856-1938), o Barão de Studart, era comprometido em tudo que era: abolicionista ativo, católico militante, médico dedicado, historiador produtivo. O Ceará era sua seara. Mas às vezes, condescendente, se atinha a investir seu enorme e consistente talento cuidando de algum aspecto histórico relacionado a Estados como Pernambuco e Maranhão (como os documentos publicados em edição de 1906 da “Revista do Instituto do Ceará” relacionados a decretos de 1648, os quais o Barão ofereceu, respeitantes a “mercês” [recompensas, benefícios, presentes] para índios).

A grande obra “Arquivos do Barão de Studart”, com a coordenação geral de José Augusto Bezerra, tem 160 páginas em formato 28,8cm X 27cm. Reproduz mais de 170 documentos (fotos, mapas, tabelas, esboços, panfletos, correspondência etc.) . Gentil, Bezerra escreve na dedicatória: “Ao inspirado estudioso Edmilson Sanches, este escorço sobree a História, a Geografia e a Antropologia do Ceará. Um dos bons livros sobre a nossa Terra de Iracema”.

O Maranhão – de cujo território o Ceará capitania era parte –, em pelo menos uma dúzia de vezes é menção, referência nessa obra majoritariamente cearense. Logo na página 41 é reproduzido documento de 9 de julho de 1659, de Martim Soares Moreno (1586-1648), que já tinha estado no Maranhão em 1612, observando os franceses, e em 1615, auxiliando na expulsão deles. Nesse manuscrito, Moreno, militar português e capitão-mor do Ceará, manifesta insatisfação com a “dependência política” da sua capitania ao Estado do Maranhão. Ele lista justificativa para o Ceará ficar sob os cuidados de Pernambuco. Esse raro documento contribui também para ampliar o número de anos vividos por Martim Moreno, já que há registros dando conta de que ele teria morrido em Portugal “após 1648”. Agora, acrescente-se mais onze anos, devendo-se escrever “após 1659”.

Na página 42, documento assinado pelo marquês do Maranhão, “O Lobo do Mar” (o almirante britânico Thomas Cochrane, 1775-1860,) anuncia em 2/11/1824 recompensa para quem “prender” o “chefe insurgente” cearense coronel Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, 1789-1825 (não confundir com “Tristão de Alencar Araripe”, como está na obra, que foi o quinto dos nove filhos do coronel insurgente e tinha só quatro anos quando o pai, um militar revolucionário, foi assassinado pelas tropas do Império. A mando do imperador Dom Pedro I, o coronel Tristão esteve em minha cidade, Caxias (MA), e auxiliou o baiano José Pereira Filgueiras, o “Napoleão das Matas” e capitão-mor do Crato (terra de Tristão), a prender o general e comandante português João José da Cunha Fidié, em 31 de julho de 1823.

Na página 74, os “Arquivos” registram que “(...) Fortaleza era o porto mais próximo da Europa e se situava entre duas províncias economicamente importantes – Pernambuco e Maranhão.” Duas páginas depois, nova menção à terra maranhense: “Em 1882, a empresa American Telegraph and Cable Cº. Ltd. instala o Cabo Submarino ligando Fortaleza com o sul do país e o Maranhão. Estes serviços impulsionaram o desenvolvimento da capital na segunda metade do século XIX.” Logo adiante, na página 78, o registro de que, “nos anos de 1860”, a Companhia Maranhense de Navegação a Vapor, aportando nas cidades de Amarração, Granja, Acaraú e Fortaleza, era uma das três que “atracavam em portos cearenses”. Antes dos transportes, as comunicações: em correspondência de 24/5/1815, mostrada na página 83 dos “Arquivos”, Simplício Dias da Silva 1773-1829) pede agência dos Correios para sua terra natal, Parnaíba, e também “para Maranhão e Pernambuco”. A carta era dirigida ao à época governador-geral da capitania do Ceará, Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (1778-1856), que governou o Ceará de 1812 a 1820. A lembrança do Maranhão por Simplício reforça a conexão que ele tinha com a província vizinha: ele estudou no Maranhão e, depois, no exterior; era um dos mais ricos homens do Piauí e do Brasil e em 1822 foi convidado por Dom Pedro I para ser o primeiro presidente da província do Piauí, convite que não aceitou em função dos muitos negócios que tinha.

O livro “Arquivos do Barão de Studart” continua com as menções ao Maranhão. Na página 103, se não a terra, um filho dela. Está: “É possível reconstruir a relação entre as Ciências Sociais, a Geografia e o pensamento médico brasileiro, através das obras de Nina Rodrigues e seus ‘Tratados de Antropologia Física’ (...)”. O maranhense Raymundo Nina Rodrigues (1862–1906), que faleceu em Paris (França) com 43 anos, foi médico (legista, epidemiologista, sexologista, dietólogo, psiquiatra e especialista em doenças tropicais), antropólogo, etnólogo, biógrafo, professor e escritor; é o fundador da Antropologia Criminal brasileira, primeiro a realizar estudos sobre a cultura negra no país e patrono da Medicina Legal do Brasil.

Na página 119, documento de 17/1/1907 trata da “separação entre Igreja e Estado na França”. Sobre o assunto, lateralmente: No Brasil, texto sobre a separação Igreja-Estado e a liberdade de crença e culto, redigido por Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), maranhense de Caxias, foi incluído na Constituição Brasileira de 1891. Até fevereiro desse ano a Constituição de 1824 estabelecia uma única religião – oficial –  para os brasileiros.

Na página 131 o livro mostra documento de 8/7/1656, em que o paraibano André Vidal de Negreiros (1606-1680), então governador e capitão geral da Capitania do Maranhão e do Grão-Pará, destaca, “em nome dos oficiais da Capitania do Ceará”, “o estado de miséria no qual se encontra a região (...)”. Foi uma necessária lembrança e cobrança, mas André Vidal logo deixaria o governo, transferindo-o para Agostinho Correia 77 dias depois da data dessa correspondência. Encerrava assim seu curto mandato, de 16 meses e 12 dias (11 de maio de 1655 a 23 de setembro de 1656).

O livro exibe ainda cópia de uma “relação do padre Luís Figueira, da Companhia de Jesus Superior, sobre mudanças a serem feitas no Maranhão e no Grão-Pará, com vistas a corrigir problemas relacionados à invasão de holandeses e franceses.” O documento manuscrito traz uma data, 2 de agosto de 1623. O religioso português Luís Figueira, nascido nos meados da década de 1570 e falecido em 1643, além de padre jesuíta, é autor da “Arte da Língua Brasílica”, tida como uma das primeiras gramáticas da língua tupi. Ele esteve em 1607 e 1608 no Ceará e no Maranhão. No Ceará participou da primeira missa realizada nesse território. No Maranhão, viu morrer em 10/1/1608 seu colega padre Francisco Pinto. Figueira escapou e escreveu e publicou sua “Relação do Maranhão”, obra onde relata o que aconteceu na atribulada viagem. O padre Figueira, que retornaria ao Maranhão em 1621, escreveria diversas outras obras, delas publicadas em Portugal: “Dificuldades da Missão do Maranhão”, de 1609; “Relação de Vários Sucessos Acontecidos no Maranhão e Grão-Pará (...)”, de 1631; "Missão que Fez o Padre Luís Figueira da Companhia de Jesus, Superior da Residência do Maranhão, Indo ao Grão-Pará, Camutá e Curupá, Capitanias do Rio das Amazonas, no Ano de 1636"; e também o “Memorial sobre as Terras e Gente do Maranhão & Grão-Pará & Rio das Amazonas” (1637).

Outros registros e menções e inter-relações devem (es)correr pelos textos postos e documentos expostos nos “Arquivos do Barão de Studart”. Trabalho para estudiosos e analistas mais percucientes. De todo modo, o Barão de Studart e descendentes comprovadamente têm o Maranhão como objeto de seus estudos e publicações. O fortalezense Carlos Studart Filho (1896-1982), que foi médico, jornalista, historiador, geógrafo, indianista e militar (chegou a general de divisão), escreveu “Fundamentos Geográficos e Históricos do Estado do Maranhão e Grão Pará” (358 páginas; Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1959) e “O Antigo Estado do Maranhão e suas Capitanias Feudais” (360 páginas; Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1960)

BRASIL EM MANUSCRITOS

 “Uma História do Brasil em Manuscritos”, de 2012, bilíngue, ilustrada, colorida, impressa em papel “couché” de 175 g/m2, 240 páginas, 30 cm X 30 cm, que mereceu o prestigioso Prêmio Fundação Calouste Gulbenkian, da Academia Portuguesa da História (Lisboa, Portugal), e também premiação da Biblioteca Britânica de Londres, na Inglaterra. O exemplar dessa obra que me chega vem com a dedicatória do seu autor, José Augusto Bezerra: “Ao grande tribuno e amigo Edmilson Sanches este mais completo livro de manuscritos do nosso País. (...). Estou terminando o volume dois. Quando estiverem juntos será uma importante obra sobre a História brasileira.”

Embora a observação do José Augusto, não é de todo necessária a desejada, esperada publicação do segundo volume para “Uma História do Brasil em Manuscritos” ser “importante”. O volume inicial tem sua autonomia e sua excelsa importância para os que sabem o que ele contém, o de que ele trata – e reconheça-se o tanto que se afadigou e investiu o autor para, primeira e continuamente, reunir e preservar tantos documentos primários, além, é evidente, de escrever, organizar, recorrer a especialistas (paleógrafos, bibliotecários, tradutores etc.). Ter um livro de peso (literalmente), de beleza e de utilidade desses nas mãos nem de longe comunica, ao leitor ou consulente menos reflexivo, o quanto há de gasto e desgaste para se apresentar finalmente uma obra assim às (não muitas) pessoas e instituições interessadas.

O Maranhão comparece com diversos registros nessa obra. Minha cidade, Caxias, está indiretamente presente na página 159, em texto sobre “O Pacificador” Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, título de nobreza que ele obteve em 1869, antecedido do título de marquês em 1852 e de conde em 1845 e, todos esses, corolário do título inicial, o de barão de Caxias, de 18 de julho de 1841.

Foi o nome de minha cidade que Luís Alves escolheu como denominação de seu título. Diferentemente do que alguns ainda não sabem, não é o município de Caxias que deve seu nome ao Duque; é o Duque que, “motu proprio”, “deve” o nome de seu título a Caxias.

Na “Bibliografia”, pelo menos dois autores que, mesmo um pouco forçadamente, vinculam-se a Caxias:

1) o carioca Octavio Tarquínio de Sousa (1889-1959), historiador e ex-presidente do Tribunal de Contas da União, era o marido da escritora, biógrafa e crítica literária mineira Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), autora da festejada biografia “A Vida de Gonçalves Dias”, de 1952, sobre o grande poeta brasileira, maranhense, caxiense; e

2) os cientistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius, que estiveram em Caxias em 1819 e, doentes, foram bem atendidos, em inglês, por um médico caxiense formado no exterior. No volume 2 da sua monumental obra “Viagem pelo Brasil”, Spix e Martius relatam sua chegada a Caxias, a permanência na cidade, e fazem muitas observações acerca da economia, dos índios e do cotidiano de “uma das mais florescentes vilas do interior do Brasil”.

Dois textos, ao menos, lembram o município de Imperatriz, o segundo maior do Maranhão, após a capital:

1) um pouco da história da Imperatriz Teresa Cristina, a partir de uma carta autografa. Foi o título – Imperatriz – da nobre italiana que, em vida dela, deu-se ao futuro mais rico município maranhense, afora São Luís; e

2) uma carta do Visconde de Taunay (Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, 1843-1899, engenheiro militar, político, historiador, sociólogo, escritor, músico e professor carioca) para seu conterrâneo e colega militar, engenheiro e político, o marechal Conrado Jacob de Niemeyer (1831-1905). Na correspondência, Taunay escreve sobre a morte do engenheiro baiano André Pinto Rebouças (1838-1898), que havia se exilado na Europa, acompanhando Dom Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina. André Rebouças esteve pelo menos três vezes no Maranhão (1861, 1864 e 1865) e foi quem primeiro pensou e planejou uma ferrovia conectando o sudoeste do Maranhão (vale dizer, Imperatriz) ao sudoeste de Minas Gerais. Era o famoso “Plano Rebouças”.

Além desses registros, há pelo menos três menções ao rio Tocantins, o majestoso curso d’água por onde vieram de Belém aqueles que por fim decidiram se assentar nas terras que seriam Imperatriz e fundaram a cidade em 1852. A obra augustiana traz registros sobre a descoberta do rio Tocantins, em documento e transcrições.

Cerca de uma dúzia de outros registros mencionam o Maranhão. Alguns desses registros:

... a fundação de São Luís pelos franceses em 1612;

... o único tribunal instalado no período de Dom João VI no Brasil, que foi no Maranhão e com jurisdição sobre outras quatro Capitanias, inclusive a do Ceará;

... uma cópia de documento impresso com comentário manuscrito e assinatura do maranhense José Pereira da Graça Aranha (1868-1931), magistrado, diplomata e escritor, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (1897) e um dos organizadores da Semana de Arte Moderna (1922), autor, entre outras, do romance “Canaã”;

... a transferência do bispo do Maranhão, em 1898, Dom Antônio Cândido de Alvarenga, há vinte anos no Maranhão, e que retornava no mesmo cargo religioso para seu estado e cidade natal, São Paulo, onde permaneceu até sua morte, em abril de 1903;

... introdução e primeiro capítulo de um livro manuscrito de 1685 intitulado “Noticiário Maranhense”, uma descrição “do Estado do Maranhão, suas contendas e peregrinas circunstâncias”, de autoria de João de Souza Ferreira; e

...documento de 7/8/1822 com nomeação de capitães do mato (ou capitães de campo), que eram homens encarregados de pequenas tropas que, a laço e a tiros, caçavam escravos fugidos.

Na rica “Bibliografia” da obra, com perto de trezentos itens (livros etc.) brasileiros e estrangeiros, anoto pelo menos três maranhenses:

1) o são-luisense ou ludovicense Josué Montello (1917-2006), com seu livro “História da Independência do Brasil”, obra de 1972, em quatro volumes, comemorativa do sesquicentenário;

2) o advogado, jornalista, ex-deputado (cinco vezes) e ex-senador Cândido Mendes de Almeida (1818-1881), autor do “Atlas do Império do Brasil”, de 1868. Cândido Mendes nasceu em 14 de outubro de 1818, em Brejo (MA). Entretanto, em 1818 a povoação situava-se no município de Caxias. Somente por alvará de 29 de janeiro de 1820 a povoação foi elevada à categoria de vila, desmembrando-se de Caxias, mas menos de três meses depois, decreto de 18 de abril de 1820 tornou Brejo um distrito, voltando a ficar subordinado a Caxias. Brejo só ganhou autonomia, como cidade, meio século depois, em 11 de julho de 1870, conforme a Lei Provincial nº 899; e

3) o não menos maranhense Bernardo Pereira de Berredo e Castro, historiador e administrador colonial nascido em Portugal. Governou o Maranhão de 1718 a 1722. Para fortalecer a colonização do estado, realizou entradas para o interior, inclusive aos rios Itapecuru, da minha infância, e Tocantins (da adultez). De seu viés historiador, deixou uma obra muito conhecida no meio intelectual (professores, historiadores, pesquisadores), publicada em Lisboa em 1749, um ano após a data provável de sua morte: “Anais Históricos do Estado do Maranhão, em que se dá Notícia do seu Descobrimento e Tudo o mais que Nele tem Sucedido desde o Ano em que foi Descoberto até o de 1718”.

*

Eis aí, com os possíveis e prováveis lapsos, um breve apanhado de registros sobre / de alguns dos livros que formaram o conjunto de dezoito volumes/obras que me chegou pelas mãos e benquerença do empresário, administrador, escritor e bibliófilo cearense José Augusto Bezerra.

Que estas anotações possam ter alguma utilidade. Senão, à maneira de Gonçalves Dias em seus “Primeiros Cantos” (1846), eu as fiz para poucos, e contentar-me-ei se alguns mais as apreciarem; e se, ainda assim, estas escritas não forem úteis, terei sempre tido a satisfação de tê-las escrito.

* EDMILSON SANCHES

FOTOS:

Os números 1 e 10 da publicação “Scriptorium”, da Associação Brasileira de Bibliófilos. Os livros “Arquivos do Barão de Studart” e “Uma História do Brasil em Manuscritos” e o autor, José Augusto Bezerra, com Edmilson Sanches, em solenidade na Academia Cearense de Letras.

Rio de Janeiro (RJ), 31/03/2025 - Cine Concerto da Orquestra Petrobras Sinfônica. Foto: Daniel Calvet/Orquestra Petrobras Sinfônica

No Cinema Mudo, como o nome já diz, não se ouviam os diálogos dos atores. Era com a presença de músicos nos locais de exibição dos filmes que a trilha sonora ditava a intensidade das cenas e ajudava no desenvolvimento do roteiro. Com o tempo, as vozes dos atores puderam ser gravadas e incorporadas ao filme, e os instrumentos musicais saíram de cena, dando lugar à trilha gravada, como vemos nos cinemas até hoje.

Uma experiência, no entanto, vai misturar esses dois momentos nesta semana, e o público vai poder se envolver, ao som de uma orquestra, com a história de um filme nacional consagrado por sua história e também por sua comovente trilha sonora: Central do Brasil.

Nesta quarta (2) e quinta-feira (3), o clássico do cinema brasileiro vai ser assistido com a sua trilha incidental, que são músicas compostas especialmente para o filme pelos músicos Jaques Morelenbaum e Antônio Pinto, executadas ao vivo pela Orquestra Petrobras Sinfônica (OPES), no Teatro Riachuelo, no Passeio, centro do Rio.

Rio de Janeiro (RJ), 31/03/2025 - Cena do filme Central do Brasil. Foto: Videofilmes/Divulgação

O maestro Alexey Kurkdjian Ogalla, que vai reger a OPES no Cine Concerto Central do Brasil, disse que este formato de concerto tem sido muito apresentado no exterior e atrai bastante o público, tanto o fã e apreciador da música sinfônica de orquestra, quanto um público que ainda não está tão familiarizado com concerto sinfônico, mas que é fã de cinema.

“Isso acaba atraindo esses dois públicos e formando um público ainda maior. É muito interessante. Aqui no Brasil, essa forma de espetáculo está começando a ficar mais popular”, completou em entrevista à Agência Brasil. “É um resgate de uma tradição que se foi”.

De acordo com o maestro, o público tem gostado e comparecido à série de cine concertos que tem a curadoria de Anselmo Mancini, apresentados pelo Brasil e também em Portugal. 

“Essa é a minha estreia como regente convidado e não consigo encontrar palavras para expressar a minha alegria e como me sinto honrado em ter sido chamado para este espetáculo, ainda mais sendo uma orquestra a que eu cresci, praticamente, assistindo. Considero uma coroação na minha carreira reger a Petrobras Sinfônica neste momento e neste Cine Concerto”, revelou.

Segundo o maestro, esse é um desafio ainda maior porque é necessário executar a trilha do filme no mesmo instante em que ele está sendo exibido.

“É um processo que exige o dobro de atenção e de cuidado no preparo de todo esse material. A sensação é maravilhosa. Sou muito fã de cinema desde pequeno. Tenho ator e diretor na família. Então, é uma coisa que já vem de casa e sempre fui muito fã de trilha sonora também. Juntar essas duas coisas é um prazer maravilhoso. É uma experiência maravilhosa, tanto para mim, que sou regente, quanto, com certeza, para os músicos”, relatou, destacando que os compositores da triha sonora tocarão junto com a orquestra.

Rio de Janeiro (RJ), 31/03/2025 - O músico e compositor Antônio Pinto. Foto: Orquestra Petrobras Sinfônica/Divulgação

Trilha sonora comovente

O fato de o filme ser Central do Brasil torna a apresentação ainda mais emocionante. “É um filme que exige, que tem uma trilha sonora muito tocante e dramática, muito bonita e com um toque do minimalismo. Traz também alguma coisa da tradicional música brasileira. A gente tem duas vertentes. Tem um pouco da música clássica contemporânea e da música tradicional brasileira. O filme é uma obra de arte e merece todo o cuidado e preparo. É tudo muito delicado. Entre todos os Cine Concertos que eu conheço esse é um dos mais tocantes, emocionantes”, analisou.

O curador do espetáculo, Anselmo Mancini, teve contato com este modelo de apresentação quando morava fora do Brasil e, desde o seu retorno ao país, começou a desenvolver projetos nesse sentido. Ele conta que tem conseguido tanto sucesso com a iniciativa que, este mesmo concerto, com o filme Central do Brasil, foi executado no Festival Mate, em Coimbra, em Portugal.

A escolha do teatro não podia ser melhor, acredita a porta-voz do Teatro Riachuelo, Aniela Jordan. O prédio em que o teatro funciona abrigou o Cine Palácio, fechado em 2008. Depois de uma obra de dois anos, a casa foi reaberta em 2016. “É um espaço tombado, e a gente teve que fazer tudo dentro das normas do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. É um teatro que prima pela qualidade, o que faz com que hoje, oito anos depois de inaugurado, o público venha, porque, mesmo que não saiba o que vai assistir, sabe que é alguma coisa de qualidade. O teatro conquistou esse lugar”, afirmou à reportagem.

Aniela também contou ter memórias afetivas ligadas ao antigo Cine Palácio, incluindo uma coincidência. “É uma volta às origens. Ele foi um cinema muito tradicional, eu, inclusive assisti a Noviça Rebelde, quando tinha 5 anos de idade, neste cinema e depois, no ano passado, eu produzi o musical Noviça Rebelde aqui”.

Para o diretor de Projetos da Orquestra Petrobras Sinfônica, Marcos Souza, a narrativa do filme “cresce absurdamente” com a participação dos compositores Jaques Morelenbaum e Antônio Pinto, mostrando, ao vivo, a trilha sonora que foi pensada exclusivamente para cada cena.

“Estar com os compositores no palco, que pensaram aquela música como uma narrativa que super funcionou, e vendo o filme com a orquestra tocando na hora, é muito mais emocionante. É como se estivesse dentro do filme. Para a gente, vai ser muito emocionante. O Central do Brasil tem um peso muito grande, e a indicação [ao Oscar] da Fernanda Montenegro também, aliás mãe e filha [Fernanda Torres com o filme Ainda Estou Aqui]. Que dupla, e com o mesmo diretor [Walter Salles]", analisou.

“A música tem uma narrativa, com as composições do Jaques Morelenbaum e do Antônio Pinto, pontuando cenas emblemáticas, como aquela da carta que a Fernanda Montenegro escreve para o menino. Se você ouvir a trilha no Spotify [plataforma de música] estará lá, inclusive, com a fala dela, de tão forte que ficou. Acho que a gente tem que valorizar mais o cinema brasileiro e mostrar a importância da trilha. A música é parte do audiovisual e conta uma história também. Quando uma música entra, ela prepara uma cena, te emociona, segue um ambiente. Tem muitas formas de ser usada como narrativa”, destacou.

Celebração do cinema nacional

Marcos Souza disse que a escolha do Cine Concerto com Central do Brasil foi antes desse movimento que se ampliou com a indicação do filme Ainda Estou Aqui. Quando soube da apresentação no festival de Portugal, fiz o convite a Anselmo Mancini para realizar no Rio, com a Orquestra Petrobras Sinfônica. “É um momento muito feliz de a gente compartilhar a felicidade de ter o mesmo diretor com o primeiro Oscar do Brasil. A gente está, na verdade, celebrando o cinema brasileiro, Walter Salles e as Fernandas, no palco de um cinema [na origem], com a possibilidade de o público ouvir o filme”, afirmou.

O concerto está incluído na Temporada 2025 da Orquestra Petrobras Sinfônica, que celebra 50 anos de história. A OPES foi fundada por Armando Prazeres e é uma das únicas no mundo gerida pelos próprios músicos. O maestro Isaac Karabtchevsky, que é atual diretor artístico, lidera o conjunto com a missão de aproximar o público da música de concerto.

Rio de Janeiro (RJ), 31/03/2025 - Cena do filme Central do Brasil. Foto: Videofilmes/Divulgação

(Fonte: Agência Brasil)

Brasília (DF) 10/11/2024 –Segundo dia do Enem: candidatos respondem a 90 questões até 18h30
Candidatos chegaram cedo para evitar surpresas antes da prova
Foto: Jose Cruz/Agência Brasil

Os candidatos que não compareceram a um ou a dois dias de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2024 precisam justificar as ausências, se quiserem solicitar a gratuidade da taxa de inscrição do Enem 2025. O prazo será de 14 de abril até as 23 horas e 59 minutos de 25 de abril.

O período para os dois procedimentos está no edital publicado pelo Instituto Nacional De Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) no Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira (31).

A justificativa de ausência no Enem 2024 e a solicitação de isenção da taxa de inscrição devem ser feitas online na página do participante do exame, com Cadastro de Pessoa Física (CPF) e login único no portal Gov.br.

Quem não lembra a senha da conta pode recuperá-la a partir das orientações da própria plataforma. O edital do Inep definiu que não há possibilidade de justificar ausência no Enem 2024 sem solicitar a isenção da taxa de inscrição no Enem 2025, uma vez que a justificativa é realizada no mesmo sistema de solicitação de isenção.

Documentação

O Inep determinou regras para justificativa de ausência no Enem 2024, nos dias de aplicação regular do exame (3 ou 10 de novembro de 2024) ou nas datas de reaplicação das provas, realizadas entre 10 e 11 de dezembro de 2024.

Não serão aceitos documentos auto declaratórios ou emitidos pelos pais ou responsáveis pelos participantes. Conforme o edital, as situações e os documentos aceitos pelo Inep são:

  • assalto/furto - boletim de ocorrência policial com nome completo, CPF ou RG do participante envolvido, com o relato do fato ocorrido;
  • acidente de trânsito - boletim de ocorrência policial com nome completo, CPF ou RG do participante envolvido, com o relato do acidente de trânsito ocorrido antes das 13 horas
  • casamento/união estável - certidão de casamento ou contrato de união estável legível assinado em uma destas datas, com nome completo do participante.
  • morte na família - certidão de óbito do cônjuge ou companheiro, pai, mãe ou responsável legal, avô, avó, irmão, filho ou enteado, com documentação que comprove o parentesco ocorrido em um destes dias;
  • maternidade e paternidade- certidão de nascimento ou de adoção legível em que conste o nome completo da participante;
  • mudança de domicílio para acompanhamento de familiar - documento que comprove o acompanhamento de familiar (cônjuge ou companheiro, pai, mãe ou responsável legal, avô, avó, irmão, filho ou enteado) deslocado para outra cidade, de 8 de junho 2024 a 12 de dezembro de 2024, com documentação que comprove o parentesco;
  • privação de liberdade - mandado de prisão com o nome do participante que ateste privação de liberdade nos dias das provas;
  • emergência/internação/repouso médico ou odontológico - atestado médico ou odontológico legível, com o nome completo do participante especificando a necessidade da internação/repouso ou CID; número do Conselho Regional de Medicina (CRM) e a assinatura do médico. Também serão aceitos atestados de acompanhamento de familiar, contendo o nome completo do participante.
  • trabalho - declaração com o nome completo do participante, a justificativa de exercício de atividade profissional, número do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), identificação e assinatura do empregador;
  • Intercâmbio acadêmico - documento assinado, em língua portuguesa, da instituição de ensino internacional que comprove intercâmbio, período do curso, e contenha o nome do participante;
  • atividade escolar - declaração ou documento assinado que comprove a participação do estudante em atividade escolar, no Brasil ou no exterior.

O Inep alerta que se forem constatadas informações falsas para conseguir a isenção da taxa de inscrição indevidamente, o candidato será eliminado do Enem 2025, a qualquer tempo, e deverá ressarcir o valor à União.

Já os documentos aceitos nos recursos da solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição estão disponíveis no anexo II do edital que trata do tema, entre eles comprovantes de benefícios concedidos por programas sociais; declaração escolar que comprove estar cursando a última série do ensino médio em 2025, na rede pública; comprovante da renda; entre outros. 

Direito a fazer o Enem de graça

Será isento do pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025 o participante que preencher um dos seguintes requisitos:

  • quem está matriculado na terceira série do ensino médio (neste ano de 2025) em escola pública;
  • quem fez todo o ensino médio em escola pública ou como bolsista integral em escola privada;
  • pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica por serem de família de baixa renda – com registro no Cadastro Único para programas sociais do governo federal (CadÚnico);
  • Participantes do programa Pé-de-Meia, do Ministério da Educação (MEC).

Cronograma

A justificativa de ausência no Enem 2024 e a solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025 na página do participante do exame serão anteriores à inscrição geral, seguindo as datas abaixo:

  • solicitação de isenção da taxa/justificativa de ausência: 14 a 25 de abril;
  • resultado das solicitações de isenção da taxa/justificativa de ausência: 12 de maio;
  • período de recursos para quem teve reprovado o pedido de isenção ou a justificativa de ausência: 12 a 16 de maio;
  • resultado dos recursos: 22 de maio.

O participante que tiver a solicitação de recurso de justificativa de ausência no Enem 2024 e/ou de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025 reprovadas, precisará acessar o sistema de inscrição do Enem 2025, em prazo que ainda será definido pelo MEC em um futuro edital; preencher os dados solicitados; e pagar a taxa de inscrição para confirmar a participação na edição deste ano.

(Fonte: Agência Brasil)

Brasília (DF), 25/03/2024 - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participa da entrega de cartões do Programa Pé-de-Meia para alunos de todo o País. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os beneficiários do programa Pé-de-Meia 2025 nascidos em janeiro e fevereiro recebem, nesta segunda-feira (31), o Incentivo Matrícula no valor de R$ 200. O benefício corresponde à primeira parcela do ano do programa federal apelidado de Poupança do Ensino Médio. O benefício pode ser sacado a qualquer momento, ou seja, o estudante não precisa esperar a formatura no ensino médio para usufruir dos recursos financeiros.

A Caixa confirma que, neste mês, foram disponibilizadas cerca de 3,9 milhões de parcelas, sendo 1,3 milhão para novos estudantes, que ingressaram no primeiro ano do ensino médio público em 2025.

Depósitos

O Incentivo Matrícula é pago em parcela única anual e será depositado de forma escalonada até 7 de abril, conforme o mês de nascimento do estudante.

Todos os incentivos do Pé-de-Meia são pagos pelo Ministério da Educação (MEC) em conta aberta automaticamente pela Caixa Econômica Federal em nome dos estudantes dos três anos do ensino médio contemplados.

Caso o estudante já tenha, em seu nome, uma conta ativa no banco público, não será necessária abertura de nova conta para crédito do incentivo, desde que sejam do tipo poupança.

Para estudantes menores de 18 anos, o responsável legal deve autorizar a movimentação da conta pelo App Caixa Tem, por meio da opção Programa Pé-de-Meia, permitir acesso a um menor, ou em uma agência bancária. Ainda será necessário que seja realizado o upload [carregamento do arquivo] da carteira de identidade do estudante.

Caso o responsável legal não seja o pai ou a mãe do beneficiário, o consentimento para movimentação dos valores do Pé-de-Meia deverá ser feito presencialmente em uma agência bancária da Caixa.

Quem tem direito

O programa federal do Ministério da Educação (MEC) funciona como um incentivo financeiro para que o estudante de baixa renda da rede pública permaneça na escola e se forme no ensino médio, sem abandonar os estudos para trabalhar.

Para participar do Pé-de-Meia, o aluno não precisa se inscrever. Todo estudante que se encaixa nos critérios é incluído automaticamente no programa.

Os critérios para ser beneficiado pela política educacional são:

  • estar matriculado, em 2025, no ensino médio regular de uma escola pública ou na modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA);
  • ser parte de família incluída no Cadastro Único para programas sociais (CadÚnico) do governo federal.
  • o estudante precisa ter Cadastro de Pessoa Física (CPF).

O Ministério da Educação não faz contato com elegíveis ao Pé-de-Meia.

Para saber se tem o direito a receber os benefícios, o estudante do ensino médio da rede pública de ensino deve consultar o aplicativo Jornada do Estudante do MEC. O agendamento dos pagamentos e os futuros depósitos também poderão ser conferidos no app.

A ferramenta pode ser baixada em smartphonestablets, e o login é feito com o próprio Cadastro de Pessoa Física (CPF) do estudante na conta no portal único de serviços digitais do governo federal, o Gov.br. A conta pode ser de nível de segurança bronze.

Calendário

A parcela única anual do Incentivo-matrícula de R$ 200 será depositada a partir desta segunda-feira até 7 de abril, conforme cronograma abaixo.

· nascidos em janeiro e fevereiro recebem nesta segunda-feira (31);

· nascidos em março e abril recebem nesta terça-feira (1º de abril);

· nascidos em maio e junho recebem nesta quarta-feira (2 de abril);

· nascidos em julho e agosto recebem na quinta-feira (3 de abril);

· nascidos em setembro e outubro recebem na sexta-feira (4 de abril);

·  nascidos em novembro e dezembro recebem em 7 de abril.

Incentivos pagos

A chamada Poupança do Ensino Médio tem quatro tipos de incentivos, entre eles, o incentivo-matrícula, pago nesta semana:

· incentivo-matrícula: por matrícula registrada no início do ano letivo, valor pago uma vez por ano, no valor de R$ 200. O saque é imediato.

·  incentivo-frequência: por frequência mínima escolar mensal de 80% do total de horas letivas. Para o ensino regular, são nove parcelas durante o ano letivo de R$ 200, disponíveis para saque a qualquer momento. A soma é de R$ 1,8 mil por ano.

·    aos alunos da EJA, o bônus é pago em quatro parcelas de R$ 225, por semestre cursado. O valor total semestral é de R$ 900.

·    incentivo-conclusão: por conclusão e com aprovação em cada um dos três anos letivos do ensino médio e participação em avaliações educacionais. O valor recebido é R$ 1 mil por ano letivo, podendo chegar a R$ 3 mil no fim da educação básica. O saque depende da obtenção de certificado de conclusão do ensino médio;

·    incentivo-Enem: por participação comprovada nos dois dias do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no último ano do ensino médio. Os R$ 200 são pagos em parcela única ao estudante matriculado no terceiro ano e ficam disponíveis para saque.

Calendário

Portaria nº 143/2025 do MEC estabelece o calendário de pagamento do programa Pé-de-Meia em 2025.

Além dos depósitos relativos ao incentivo-matrícula, ainda estão programados os pagamentos das bolsas de incentivo-frequência dos estudantes nas aulas e participação no Enem. Os pagamentos seguem um cronograma que varia conforme o mês de nascimento do estudante.

Confira os prazos do calendário do Pé-de-Meia 2025 para o ensino regular:

Confira os prazos do calendário do Pé-de-Meia 2025 para o EJA (primeiro semestre):

Confira os prazos do calendário do Pé-de-Meia 2025 para o EJA (segundo semestre):

(Fonte: Agência Brasil)

– Das razões (que se conhece) das críticas ácidas a um dos livros do ex-presidente da República

*

Em grupo de bibliófilos no WhatsApp, perguntam-me:

“Mestre @EDMILSON SANCHES, você conhece essa obra do Millôr Fernandes? Sabe alguma informação a respeito do motivo do azedume dos textos nela contidos?”

A “obra do Millôr Fernandes” é o livro “Crítica da Razão Impura ou O Primado da Ignorância – Sobre ‘Brejal dos Guajas’, de José Sarney, e ‘Dependência e Desenvolvimento na América Latina’, de Fernando Henrique Cardoso”. Esse livro do Millôr  -– com título parodiado de "Crítica da Razão Pura", do filósofo iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804) – foi publicado, em maio de 2002, pela L&PM Editores, de Porto Alegre (RS).

E quem quer saber, autor da pergunta, é o escritor Francisco Barros Alves (ou só Barros Alves, como o mundo o conhece), autor de várias obras, um notável intelectual cearense, bibliófilo de nomeada, leitor consistente e voraz de livros e jornais em vários idiomas, membro, entre outras entidades, da Associação Brasileira de Bibliófilos, Academia Brasileira de Hagiologia, Sociedade Cearense de Geografia e História, Academia Cearense de Literatura e Jornalismo e Academia Cearense de Retórica.

Sobre o "Leitmotiv" da crítica milloriana acerca da obra "Brejal dos Guajas e Outras Histórias", do advogado, político e escritor maranhense José Sarney, lançada em 1985, arrisco que, no seu dizer, o “azedume” do conhecido cartunista, humorista, jornalista, tradutor, escritor e dramaturgo carioca Millôr Fernandes (1923-2012) tem a ver com a muito citada – e de autoria nunca assumida – frase “¿Hay gobierno? ¡Soy contra!”

Essa expressão, dita e tida como anarquista e de ainda não comprovada origem mexicana, resume ou revela o que também pode esperar aqueles que assumem posto de mando político, em especial a função pública máxima em um país havido como democrático – a presidência da República.

Assim, tendo chegado à presidência por intrincados problemas que envolveram desde a doença e morte de quem foi eleito (por um Colégio Eleitoral) até as tratativas e/ou negociações políticas, o jogo do poder, as sessões realizadas e as concessões solicitadas etc. etc., era natural que o governo Sarney, como todo governo, e o percurso político, pessoal, cultural do próprio José Sarney ficassem sob poderosas lupas, que tanto são capazes de alcançar detalhes microscópicos quanto ampliar o que for conveniente aos olhos e mentes do observador.

Em especial, adicione-se a esse ambiente ou conjunto de situações políticas, o fato de que José Sarney ser escritor com já nove títulos publicados até 1985, ano em que teve início os seis de seu governo, de 1985 a 1990. Dá-se que, no ano de sua posse, 1985, Sarney tem lançado “Brejal dos Guajas e Outras Histórias”. Ora, para quem conhece a verve de intelectuais, humoristas e críticos que nem Millôr Fernandes e – outros críticos de Sarney –, Paulo Francis (1930-1997; jornalista, escritor e teatrólogo carioca) e Franklin de Oliveira (1916-2000; jornalista, escritor e crítico literário maranhense), um presidente escritor é matéria ou material (ele e que ele tiver escrito e dito) para análise permanente e as possíveis críticas que daí advirem.

Junte-se a essa multifária condição para ser alvo de críticas a sabida má vontade, desvontade ou, vá lá, pouca boa vontade de gentes (poucas, mas as há) do Sul e Sudeste em relação a nós outros do Norte e Nordeste – “¿Hay nordestino? ¡Soy contra!” Em favor de Millôr (que não precisa de favores), diga-se o óbvio: que no seu livro ele é crítico – cítrico --  tanto do nordestino Sarney quanto do seu conterrâneo fluminense e carioca Fernando Henrique Cardoso oito anos mais moço (FHC é de 1931).

Mas, saindo de campo daquilo que eu acho, passemos às motivações – documentadas – do “azedume” de Millôr contra o livro de Sarney:

– A PEDIDO: Millôr Fernandes ele mesmo já havia dito que sua série de onze textos sobre o “Brejal” de Sarney, publicada em janeiro de 1988 no “Jornal do Brasil”, atendeu a pedidos de amigos para analisar a obra. O momento era adequado: “Brejal” foi lançado no ano em que seu autor era empossado (ou empoçado, pois a presidência também pode ser tanto poço, profuuuuuundo, quanto poça, de lama).

– POR SE SENTIR “ENGANADO”: Millôr escreve, logo na primeira das onze “partes” da série “Sarney e o Brejal dos Guajas”, que mais uma vez fora “enganado”. Escreve Millôr: “E enganado em literatura, por gente da melhor qualidade pra julgar literatura, como João Gaspar Simões, Jorge Amado, Carlos Castello Branco, Josué Montello, Lucy Teixeira, Antônio Alçada Baptista, Lago Burnett. E (...) pelo mais preparado de todos pra tarefa específica (...), o crítico literário Leo Gilson (...)’.” Todos esses “luminares do pensamento” (a expressão é de Millôr) escreveram ótimos comentários sobre “Brejal dos Guajas”. Aí Millôr sentiu vontade de confirmar essa unanimidade de crítica ou apreciação favorável. Mas da vontade à ação ainda levaria um tempinho (veja-se: o livro é de 1985; a série crítica de Millôr, de janeiro de 1988). E o que o fez passar do molho ao malho? Veja a seguir.

– “BRASILEIRAS E BRASILEIROS”: Foi o bordão com que Sarney iniciava suas falas (“Brasileiras e brasileiros”) o que disparou o gatilho da desconfiança de Millôr em relação à qualidade do livro tão elogiado por gentes de altíssimo nível literário e de crítica literária. Conta Millôr: “Só fui desconfiar, apavorado com o complô, na primeira vez em que ouvi Sir Ney usar o apelativo rastaquera, ‘Brasileiras e brasileiros’, fazendo média contraproducente (por ridícula) com o feminismo.” Pronto! Parecia não faltar mais nada para iniciar a dissecação anatômico-patológico-literária de “Brejal dos Guajas”. Parecia... Millôr diz que a gota d’água viria mais tarde. Veja a seguir.

– “CORRUPÇÃO”: Millôr Fernandes escreveu que passou mesmo a escrever sua série de críticas após saber das tratativas políticas do Governo Sarney para, em resumo, trocar concessões de rádios e TVs por apoio político do Congresso Nacional ao seu Governo, aí incluída a extensão de mais um ano de mandato para Sarney. Eis as palavras de Millôr: “Não escrevi imediatamente sobre o livro por uma questão de... piedade. Mas agora, depois da jogada de gigantesca corrupção em que, como medíocre ditador, troca esperança de 140 milhões de brasileiras e brasileiros por mais um ano de sua gloríola regada a jerimum, começo uma pequena análise dessa ópera de 50 páginas.”

Millôr, na “Parte II” da série de textos críticos, reitera que o livro tem 50 páginas: “’Brejal dos Guajas’ só pode ser considerado um livro porque, na definição da Unesco, livro ‘é uma publicação impressa não periódica com um mínimo de 49 páginas’. O ‘Brejal’ tem 50.” Neste ponto Millôr estava sendo mais humorista que realista, mais galhofeiro que verdadeiro. (“Galhofeiro” é como Millôr foi definido por seus editores.)

A editora Alhambra (Rio de Janeiro), que publicou “Brejal” em 1985 diz que a obra tem 87 páginas, formato 14 cm (largura) por 21 cm (altura).

Nesse recorte sobre quantidade de páginas, é evidente que um livro terá as características, dimensões, que seu projeto gráfico definir. Autores escrevem textos; editores, diagramadores, gráficos fazem livros, a partir de um projeto e dos custos.

Por exemplo, um texto que, continuamente, impresso frente e verso, não chegaria a quarenta páginas, pode se transformar em um livro de cem páginas ou mais. Como?! Basta definir um corpo maior da fonte (o tamanho das letras); adotar uma mancha gráfica (área de impressão) menor; aumentar os espaços interliterais, intervocabulares, interlineares, interparagráficos (entre letras, palavras, linhas e parágrafos); imprimir texto apenas em um lado da folha (geralmente a face ímpar) e, na página oposta, par, colocar ilustração ou destacar uma frase em moldura ou mesmo deixar em branco; incluir no livro caderno iconográfico, com imagens relacionadas ao texto; incluir índices (onomástico, cronológico, geral), notas de pé de página, de fim de capítulo ou notas finais; e mais páginas editoriais (folhas de guarda, falsa folha de rosto, folha de rosto, créditos editoriais, epígrafe, agradecimentos, sumário, prefácio, apresentação, introdução, páginas capitulares (folhas com apenas a numeração de capítulos ou das partes em só uma das faces), biografia do autor, colofão, orelhas etc.

Um livro não é um texto autoral; é um projeto editorial.

É possível transformar facilmente os Dez Mandamentos, ou uma oração religiosa em um livro com mais de cinquenta páginas.

*

Espero que algo neste arrazoado – desmesurado – possa ser útil ao questionamento do amigo e confrade Barros Alves.

* EDMILSON SANCHES

FOTOS:

Os livros de Millôr Fernandes e José Sarney. Os presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney. Os escritores Barros Alves e Edmilson Sanches, na Academia Cearense de Letras (Fortaleza).

Rio de Janeiro (RJ), 28/03/2025 - Bruno Miranda durante apresentação no balé Bolshoi. Foto: Bruno Miranda/Arquivo Pessoal

Bruno Miranda era criança no ano 2000, quando o balé entrou em sua vida. Ele foi atraído pela dança quando fazia parte do Projeto Dançando na Escola, em uma unidade da rede pública de Santa Catarina. Na época, sua professora também trabalhava na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, que dava seus primeiros passos no país, e foi assim que ele conheceu a possibilidade de dançar balé. No ano seguinte, com o incentivo da família, Bruno entrou para o Bolshoi. Nesses 25 anos, os dois se tornaram referências na dança dentro e fora do Brasil.

Única filial no Brasil do famoso Teatro Bolshoi da Rússia, a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (ETBB) funciona desde 15 de março de 2000, na cidade catarinense de Joinville, em Santa Catarina. Com 25 anos de atuação, a instituição de direito privado, sem fins lucrativos, tem apoio da Prefeitura de Joinville, do governo do Estado de Santa Catarina e dos ‘Amigos do Bolshoi’, empresas e pessoas físicas socialmente responsáveis que contribuem com o projeto por meio de serviços prestados e patrocínios não incentivados ou incentivados por leis de incentivo à cultura municipal, estadual e federal.

Nessas mais de duas décadas, a escola coleciona histórias como a de Bruno, por meio da oferta de bolsas de estudo e benefícios para todos os alunos e seleções rigorosas, dando oportunidades a talentos de diferentes classes sociais.

“Tudo que conquistei foi pela dança”

A lista dos aprovados para o Bolshoi era publicada em um jornal. “Minha mãe comprou o jornal e fiquei super feliz de ver meu nome lá. Fiz oito anos de curso na escola, depois, passei quase três anos na Cia Jovem [da ETBB]. Ao todo, foram 11 anos, e peguei bem o início do Bolshoi. Sou da segunda turma de formandos”, orgulhou-se em entrevista à Agência Brasil, direto da África do Sul.

“Parece clichê falar isso, mas o Bolshoi representa a minha vida. Eu não estaria onde estou hoje, morando na África do Sul, em Johanesburgo, trabalhando com balé e com dança, se não fosse o Bolshoi. A minha família sempre foi muito humilde. A gente nunca teve dinheiro para bancar estudos. Tudo que conquistei hoje foi por meio da dança, e poder dar um suporte para a minha família também”, afirmou.

A mãe deu apoio a Bruno, mas não pôde ir com ele na audição de seleção, porque tinha que cuidar dos outros três filhos menores. Foi uma tia, que pegou dinheiro emprestado para pagar as passagens de ônibus, que levou o sobrinho.

De lá para cá, a caminhada foi longa. Em 2009, logo após sua formação, ele conquistou seu primeiro contrato profissional e ingressou na Cia Jovem ETBB. Além da experiência como bailarino, participou de concursos e atuou como jurado em festivais.

Em 2011, Bruno se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar com a coreógrafa Deborah Colker e sua companhia, com quem viajou para diversas cidades dentro e fora do Brasil. Em 2013, o destino foi Belo Horizonte. Lá, trabalhou na Cia Sesc de Dança. Durante quatro anos, teve contato com coreógrafos nacionais e internacionais e ampliou sua experiência em diversas técnicas clássicas e contemporâneas.

Hoje, além de bailarino, é professor e coreógrafo. Desde agosto de 2017, integra o Joburg Ballet, em Joanesburgo, África do Sul, onde apresentou papéis principais e solos em balés de repertório e contemporâneos. Também naquele país, Bruno produziu duas temporadas para a companhia como produtor e coreógrafo.

“O que eu gosto na escola e sempre falo é que o Bolshoi não é só balé, tem outras modalidades de dança, contemporânea, popular. Eu também aprendi muito sobre música, sobre teatro. O inglês eu também aprendi dentro da escola. Aprendi a tocar instrumentos musicais e sobre saúde, tanto que escolhi a gastronomia como curso de graduação e, agora, estou terminando a graduação em nutrição, porque a nutrição e a dança têm tudo a ver. A gente precisa cuidar do corpo como bailarino”, descreveu.

Os planos futuros têm a ver com o desenvolvimento dos estudos de nutrição. “Quero me formar em nutrição e fazer pós-graduação em fisiologia e biomecânica do exercício, por que eu quero dar suporte aos bailarinos. Temos fisioterapia, pilates, mas acho que falta algo direcionado para o balé, para a dança”, ensinou.

Com formação em curso em outra área, o bailarino disse que não há chance de ele se desconectar da dança e do Bolshoi, que ainda o influenciam.

“Até hoje, tenho uma troca, uma ligação muito grande. Fui de férias, agora em dezembro e janeiro, e passei lá na escola. Fiz aulas, vi meus antigos professores. Foi muito legal saber também que os bailarinos e alunos, que estão lá, sabem quem sou eu. A minha ligação com o Bolshoi é tão forte que até hoje as pessoas sabem quem sou eu. Eu me formei em 2008, mas até hoje as pessoas comentam sobre mim, sobre minha carreira, ou me acompanham nas redes sociais. Isso para mim é o mais importante, porque isso vai me levar para o que eu quero no futuro”, apontou.

Se depender de Bruno, a vida vai seguir com a dança por mais alguns anos, mas, se precisar parar de dançar por qualquer motivo, quer continuar trabalhando com a nova geração. “Aqui, na África do Sul, além de ser bailarino, sou coreógrafo, fiz algumas produções para a companhia e também dou aula para a escola daqui".

25 anos de Bolshoi

A história de Maikon Golini é parecida. Hoje, o ex-aluno da Escola Bolshoi no Brasil é professor e assessor artístico da direção da escola, cargo que ocupa há 15 anos. Somados aos 10 anos de formação, ele está desde o início do Bolshoi no Brasil. Maikon lembra com satisfação de quando entrou, aos 7 anos, na primeira turma da escola.

“Sempre fui um menino que gostava de dançar, desde pequenininho. Gostava de música, de estar me mexendo, mas não tinha entendimento que a dança podia ser uma profissão. Isso só apareceu para mim quando comecei a estudar no Bolshoi. Quando comecei a entender que poderia ser um bailarino profissional, a minha cabeça se voltou para isso e se tornou uma meta”, revelou.

“A gente brinca que eu e a minha geração fomos os pioneiros. Eu fiz o teste em 1999 e comecei a estudar no ano de 2000. A gente não sabia o que era o Bolshoi. Com 25 anos, a gente vê o impacto que esta instituição causou e como vem gerando frutos positivos”.

Para virar um aluno do Bolshoi, é necessário passar por uma peneira bem concorrida, a seleção nacional para ganhar a vaga e uma bolsa de estudos, que custeia toda a estrutura do aluno na escola até se formar.

“A gente vive em um país que não reconhece muito a dança como realmente uma profissão. O Bolshoi instrumentaliza isso, tem duração de oito anos, e o aluno vai aprender todas as vertentes necessárias para se tornar um profissional do mais alto nível. Hoje, a gente tem um índice de empregabilidade de 74%, com quase 500 bailarinos formados. A escola tem um nível para o mercado profissional da dança muito expressivo. Para criança e o jovem que sonham em ganhar a sua vida, em fazer a sua carreira na dança, a Escola Bolshoi é uma grande referência”, pontuou.

Além de cidades de Santa Catarina, a instituição recebe alunos dos mais variados estados brasileiros, entre eles Paraná, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraíba e inclusive de outros países da América Latina e até da Rússia. De acordo com Maikon, depois de 25 anos de história, a escola é muito eclética e atende talentos do Brasil e de outros países. O bailarino conta que a proposta é que a escola cresça cada vez mais, abraçando esses diferentes talentos.

“O espaço artístico, mesmo sendo uma escola de formação em arte, é o espaço perfeito para integrar essas diferentes culturas, essas diferentes visões. É um espaço de muita troca. As crianças aprendem muito umas com as outras, questões de valores e de convivência”, analisou, lembrando que há alunos que tem origem em comunidades e realidades completamente distintas daquele universo da dança.

“A gente tem muitas crianças que saem de comunidades e de lugares de muita vulnerabilidade social e que têm as suas perspectivas de vida transformadas com o contado com a escola em Joinville. A arte e a cultura têm esse poder. Conseguir enxergar um futuro diferente daquele que está sentenciado naquele momento é uma coisa muito preciosa”, apontou.

Os alunos recebem bolsa para estudar, mas as famílias precisam bancar a moradia e a alimentação. Maikon contou que, para reduzir os gastos, surgiram as mães sociais, que geralmente são mães de um aluno do Bolshoi que abrem as suas casas em Joinville para receber outras crianças e jovens de famílias que não têm recursos financeiros de uma mudança para a cidade. “Acabam aparecendo essas pequenas repúblicas em que um responsável assume a residência das demais crianças”

“Fui aluno da escola e posso dizer que o apoio, o comprometimento da família junto com a criança faz toda a diferença na formação dela e no profissional que ela vai se tornar. Esse apoio familiar é imprescindível para que aquela criança consiga fazer os oito anos de curso, passar por todos os desafios inerentes à profissão. A gente costuma dizer que não é apenas o aluno que se torna Bolshoi, mas a família se torna Bolshoi, a comunidade que ele está inserido, e assim por diante”, apontou.

(Fonte: Agência Brasil)

São Paulo (SP), 27/03/2025 - Professor e antropólogo Eduardo Brondízio. Foto: Unicamp/Divulgação

O  antropólogo e professor Eduardo Brondízio, que leciona a disciplina de antropologia ambiental na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e é associado no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade da  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),  receberá o Prêmio Tyler 2025, um mais importantes na área ambiental, em nível mundial, conhecido como o Nobel do meio ambiente. A honraria será compartilhada com a ecologista argentina Sandra Díaz.

Brondízio realiza pesquisas sobre a Amazônia há 35 anos e atua como uma voz internacional sobre a importância da valorização das comunidades ribeirinhas e dos povos tradicionais na conservação ambiental e nas políticas de sustentabilidade. Díaz e Brondízio são reconhecidos ainda pela sua atuação na promoção de políticas e ações que integrem a justiça socioambiental.

A cerimônia de premiação está marcada para o dia 10 de abril de 2025, em Los Angeles. O brasileiro e a argentina são os primeiros sul-americanos reconhecidos com o prêmio.

Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Eduardo Brondízio destaca a importância da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) para a definição de ações concretas para a redução de emissões de gases de efeito estufa. O encontro será realizado em novembro, em Belém.

"As últimas duas COPs não deram o avanço esperado, e os impactos climáticos estão ficando mais aparentes e inegáveis. Internacionalmente, há uma expectativa muito grande nessa COP em poder gerar um acordo mais efetivo para mudar o cenário atual de emissões de gases de efeito estufa, mas, também, de constituir um plano mais amplo para investimentos em adaptações às mudanças climáticas, priorizando as populações mais afetadas", disse.

Leia a seguir a íntegra da entrevista: 

Agência Brasil: 

Professor, quais os aspectos de sua pesquisa que têm maior relação com a premiação recente no Prêmio Tyler?

Eduardo Brondízio: 

Por um lado, a interação entre desenvolvimento regional, mercados e mudanças ambientais e comunidades rurais na Amazônia, focado em respostas das ações coletivas e locais e como elas influenciam a realidade regional, incluindo a urbanização regional, e, por outro lado, abordo esses temas em nível global – como as mudanças globais afetam a qualidade de vida de sociedades humanas, a contribuição de populações indígenas e rurais para produção de alimentos e a conservação da biodiversidade a urbanização no sul global.

Agência Brasil: 

Quais os aspectos mais importantes, hoje, desta relação entre comunidades e a Amazônia?

Brondízio: 

Por exemplo, como as comunidades rurais e indígenas trazem soluções para conciliar conservação e desenvolvimento econômico. Também procuro entender como as pressões de expansão agrícola, urbanização e mudanças ambientais afetam essas populações, e como influenciam as migrações dessas populações rural e indígena para as cidades,  como isso transforma as cidades, e a relação entre cidade, pessoas e ambiente.

Agência Brasil: 

Este ano é importante para essa temática, com discussões como as da COP30, não?

Brondízio: 

Este ano, a COP30 é um tema catalisador a dois níveis. Global, no sentido de que as últimas duas COPs não deram o avanço esperado, e os impactos climáticos estão ficando mais aparentes e inegáveis. Internacionalmente, há uma expectativa muito grande nessa COP em poder gerar um acordo mais efetivo para mudar o cenário atual de emissões de gases de efeito estufa, mas, também, de constituir um plano mais amplo para investimentos em adaptações às mudanças climáticas, priorizando as populações mais afetadas.

Também é um momento de fragmentação na cooperação internacional, então há expectativa de oferecer um espaço para buscar convergências entre vários setores da sociedade em torno de ações mais concretas. Há um outro nível onde a COP30 já vem tendo um papel catalisador, o da Amazônia e do Brasil. Existe esperança de mobilizar energia, colaborações e financiamento para reverter o quadro de deterioração social e ambiental da região. Os problemas ambientais e sociais da Amazônia oferecem um espelho da situação global onde mudanças climáticas, degradação da biodiversidade e desigualdades sociais se autorreforçam.

Agência Brasil: 

Por que esse momento é importante para a Amazônia?

Brondízio: 

A Amazônia, o Brasil e países vizinhos foram palco de avanços importantes nos últimos 30 anos, como a criação de áreas protegidas, demarcação de terras indígenas e criação de áreas de uso sustentável, que englobam, no Brasil, cerca de 45% da região. Esse avanço conseguiu garantir direitos para as comunidades e tem sido fundamental em bloquear, pelo menos parcialmente, a expansão do desmatamento e das queimadas. Um outro avanço importante nesse período foi o da expansão e as inovações da sociobioeconomia, que vêm garantindo ganhos ambientais e a valorização do conhecimento local e da biodiversidade. Essa é uma economia gigante, apesar de invisível, que vem das populações, das florestas e rios da região.

Agência Brasil: 

E qual o contexto em que esses avanços ocorrem?

Brondízio: 

Esses grandes avanços vêm acontecendo lado a lado com a transformação da região pela expansão do desmatamento, mineração, infraestrutura e urbanização. Progressivamente, essas transformações estão criando uma sinuca para áreas indígenas e protegidas. Hoje, a expansão desordenada dessas atividades, além da expansão do crime organizado, representa uma ameaça à sustentabilidade desses territórios. As áreas que são protegidas estão sitiadas e viraram "ilhas". São efetivos para garantir governança ambiental dentro dos seus limites, mas não para impedir os impactos do que vem de fora. É uma prioridade hoje salvaguardar esses territórios e dar condições às comunidades de avançar nos ganhos da sociobioeconomia.

Outro elemento é a urbanização da região, só na Amazônia legal são 770 cidades. Anteriormente desarticuladas e pouco conectadas fisicamente, hoje as conexões interurbanas estão criando uma grade que irá definir a governança ambiental do território pelas próximas décadas. Hoje, as realidades urbana, rural e indígena se entrelaçam na região. Boa parte das áreas urbanas da Amazônia é das mais precárias do Brasil e também está sofrendo com as questões climáticas como seca, inundação e temperaturas extremas com muita intensidade, além de altos níveis de poluição de mercúrio, pesticidas e poluição do ar.

Agência Brasil: 

Quais as condições destas cidades hoje, principalmente das capitais?

Brondízio: 

Os dados do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], de 2022, mostram, por exemplo, que as ocupações subnormais dominam nas principais capitais da Amazônia, chegando a mais de 55% das ocupações em Belém e Manaus. Isso não pode ser esquecido, pois a maior parte da população da Amazônia Brasileira, quase 80%, vive nessas áreas. Além disso, as áreas urbanas têm influência direta nas áreas rurais e indígenas e na saúde da floresta e dos rios da região. A precariedade das áreas urbanas e rurais vem levando a um crescimento acelerado das economias ilegais e do crime organizado na região. Alem da violência urbana na região, alta em relação ao resto do Brasil, cenário que tem colocado uma pressão enorme nas comunidades indígenas e rurais, além de estar aliciando jovens para a economia ilegal e para o crime organizado, ambos cada vez mais próximos do tráfico internacional de drogas.

Agência Brasil: 

Nesse contexto, qual a importância do surgimento de lideranças jovens na região?

Brondízio: 

É muito grande. Os avanços na proteção e sociobioeconomia na Amazônia vêm da luta de uma geração de líderes que enfrentou esses desafios dos anos 1970 a 1990, conseguindo oferecer um modelo de governança territorial e alternativas econômicas baseadas na biodiversidade regional. A geração nova precisa carregar essas vitórias para a frente. É muito gratificante ver uma nova geração de jovens indígenas e rurais continuando esses avanços e buscando novas alternativas e narrativas para o futuro da região compatíveis com seus valores culturais, mas também integradas e tendo acesso a serviços e oportunidades para melhorar as condições de vida onde vivem.

A tendência global e nacional nos últimos 50 anos vem sendo de uma diminuição da população rural e indígena muito forte, e isso é resultado de uma série de pressões sociais, econômicas e ambientais. A falta de priorização de investimentos nessas áreas, falta de opções econômicas e de acesso a serviços e oportunidades de educação desincentivam a vitalidade de comunidades rurais e indígenas. Essas condições também levam muitos jovens a serem empregados nas economias ilegais e no crime organizado. Em áreas onde oportunidades estão presentes, a gente vê essas lideranças se engajando nas discussões nacionais e internacionais, tendo protagonismo em acordos nacionais e internacionais de biodiversidade e clima e também trazendo novas visões e resposta para demandas atuais.

Temos visto a constituição de redes de jovens da região. Porém, para manter os jovens em suas comunidades é fundamental assegurar a viabilidade econômica da sociobioeconomia, dar acesso à educação compatível às realidades locais e também acesso às tecnologias de comunicação. Por fim, essa questão passa pela valorização social e cultural do papel dessas comunidades na economia, conservação e enfrentamento dos problemas sociais da região. Aquele jovem que vê a sociedade valorizar as populações da Amazônia e seus papéis no desenvolvimento sustentável regional fica orgulhoso das suas contribuições e digno do seu papel no futuro da região. Precisamos valorizá-los, eles são o futuro da Amazônia.

(Fonte: Agência Brasil)

Rio de Janeiro (RJ) 29/03/2025 - Marcos Vilaça, jornalista, advogado, ex-ministro e presidente do TCU e membro da ABL, morre aos 85 anos.
Foto: Lucia Ourique/Ministério da Cultura

O escritor, advogado e jornalista Marcos Vilaça morreu na manhã deste sábado (29), no Recife, aos 85 anos. A causa da morte foi falência múltipla dos órgãos, conforme divulgou a Academia Brasileira de Letras (ABL). O pernambucano ocupava a cadeira 26 da instituição que ele presidiu por quatro anos.

Nascido em Nazaré da Mata, na zona da mata de Pernambuco, Marcos Vilaça estava internado na Clínica Florença, no Bairro das Graças, em Recife. O corpo dele será cremado na cidade, e as cinzas jogadas na Praia da Boa Viagem, também na capital pernambucana, mesmo destino dado as da esposa dele, Maria do Carmo. Esse era um desejo do casal.

Marcos Vilaça ingressou na ABL em 11 de abril de 1985, sucedendo Mauro Mota. Presidiu a instituição nos biênios 2006-2007 e 2010-2011. Também foi membro da Academia Pernambucana de Letras.

Vilaça teve a vida permeada por produção intelectual e vivência na administração pública de Pernambuco e do país. Ocupou cargos em conselhos de órgãos, no Conselho Federal de Cultura e presidiu fundações, como a Funarte e a Pró-memória.

Trajetória intelectual e política

Em 1988 passou a ser ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), indicado pelo então presidente da República José Sarney. Aliás, foi o mesmo Sarney quem o tinha recebido na ABL três anos antes. No TCU ficou por mais de 20 anos, tendo ocupado também a presidência do órgão de controle das contas públicas.

Nas décadas de 60 e 70 fez parte do governo de Pernambuco. Foi integrante da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido situacionista durante a ditadura militar. Fez parte também Partido Democrático Social (PDS), legenda criada por quadros da Arena. Foi ainda membro fundador do hoje extinto Partido da Frente Liberal (PFL).

Marcos Vilaça era formado em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também cursou o mestrado.

Obras

Em 1958, Vilaça publicou Conceito de Verdade, que se tratava do discurso que pronunciou no Salão Nobre do Colégio Nóbrega em dezembro de 1957, na condição de orador da turma de concluintes do curso clássico. Ainda naquele ano, publicou A Escola e Limoeiro. Em 1960 lançou as crônicas de viagem Americanas.

Em 1961, Marcos Vilaça publicou um dos seus trabalhos literários de maior sucesso: Em torno da Sociologia do Caminhão, que recebeu o prêmio Joaquim Nabuco da Academia Pernambucana de Letras.

Velório de colega 

A morte de Vilaça acontece no dia em que será velada na ABL, no Rio de Janeiro, a escritora Heloisa Teixeira, acadêmica que morreu na sexta-feira (28), também aos 85 anos. Por muito tempo, Heloisa usou o sobrenome Buarque de Hollanda..

(Fonte: Agência Brasil) 

O mês de abril de 2025 se aproxima – e é neste mês que o maranhense Itaercio Rocha apresentará ao público vários shows de “Ralando o Cotovelo no Asfalto”, seu novo espetáculo musical. Será uma dobradinha especial no Solar Cultural da Terra Maria Firmina dos Reis, no Centro de São Luís, nos dias 4 e 5 de abril (sexta e sábado), a partir das 20h.

Os shows criam um contraponto com as suas apresentações anteriores, quase sempre “alegres e festivos” – em “Ralando o Cotovelo no Asfalto”, o artista homenageia clássicos da MPB, celebrando compositores como João do Vale, Hermínio Bello de Carvalho, Luiz Gonzaga, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Marluí Miranda, Sueli Costa, Caetano Veloso, entre tantos outros.

Neste novo espetáculo, Itaercio Rocha foge da sua zona de conforto e enfrenta o desafio de intérprete, para encarar canções que falam de solidão, abandono, traições e tristezas, em geral.

“Este novo sh ow poderia facilmente se chamar ‘Vem Chorar Comigo’, deste artista que sempre convidou o público para a festa e exercícios de alegria, carnavais, cacuriás, cocos, congados e tantas cirandas. Contudo, é sim um espetáculo para poder chorar, para ralar o cotovelo seja lá onde for. Mas, principalmente, é uma experiência que se propõe a inquietar a alma, a procurar conforto e paz no ombro e colo dos nossos grandes compositores, intérpretes e na infinidade de belas canções que possuímos”, ressalta o artista.

“Ralando o Cotovelo no Asfalto” é um passo importante na jornada musical de Itaercio Rocha, que possui três álbuns solos e autorais (“Chegadim”, “Caboclo” e “Bumba Meu Ita”). Nesta nova empreitada, o maranhense inicia sua caminhada na trilogia sobre o amor, interpretando clássicos da MPB, acompanhado por Gabriela Flor na percussão e Chico Neis nas cordas, arranjos e direção musical do espetáculo.

Na dobradinha de apresentações em São Luís, o público pode esperar clássicos como: “Cão Sem Dono”, de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro; “Dor de Cotovelo”, de Caetano Veloso; “Bom Vaqueiro”, de João do Vale e Luiz Guimarães; “Juazeiro”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; entre outros destaques, como “Peito Véio”, do próprio Itaercio Rocha.

Os dois shows de “Ralando o Cotovelo no Asfalto” serão nos dias 4 e 5 de abril, a partir das 20h, no Solar Cultural da Terra Maria Firmina dos Reis, localizado na Rua Rio Branco, 420, no Centro de São Luís.

Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), e podem ser adquiridos de forma antecipada pelo telefone (98) 98754-4181 (Dandara) ou na entrada do evento (sujeito à lotação).

Para acompanhar mais informações sobre Itaercio Rocha, acesse o perfil do multiartista maranhense no Instagram, no endereço: https://www.instagram.com/rochaitaercio/.

Itaercio Rocha

Estudioso das manifestações populares brasileiras, além de diretor, ator, escritor e cantor, Itaercio Rocha tem especialização em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA – 2009) e é graduado em Educação Artística, com habilitação em Artes Cênicas, pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP – 2000).

Nascido em Vila de Pedras, no município Humberto de Campos (MA), Itaercio já morou em diversas cidades, como Olinda, Campo Grande, Rio de Janeiro e Maringá, antes de se estabelecer em Curitiba, no Paraná, em 1996 – nesta última, atuou e dirigiu o famoso grupo Mundaréu, comandando espetáculos como “Guarnicê”, “As Aventuras de Uma Viúva Alucinada”, “Cortejo Natalino”, “Embala Eu”, “No Pé do Lajero”, “Adamastô”, entre outros.

Serviço

O quê: show “Ralando o Cotovelo no Asfalto”, do artista maranhense Itaercio Rocha;

Quando: nos dias 4 e 5 de abril (sexta e sábado), às 20h;

Onde: no Solar Cultural da Terra Maria Firmina dos Reis, localizado na Rua Rio Branco, 420, no Centro de São Luís;

Ingressos: por R$ 30/Inteira | R$ 15/meia – antecipados pelo telefone: (98) 98754-4181 (Dandara);

Assessoria de Comunicação: (98) 99968-2033 (Gustavo Sampaio).

 (Fonte: Assessoria de imprensa)

Aeronauta, advogado, escritor, membro da Academia Imperatrizense de Letras e autor de diversos livros sobre a história de Imperatriz

*

Faltando exatos cinco meses para completar 98 anos de idade, morreu na tarde dessa quinta-feira (27/3/2025), no Rio de Janeiro (RJ), José Herênio de Souza, aeronauta de voos internacionais, advogado, escritor, membro da Academia Imperatrizense de Letras e autor de diversos livros sobre a história de Imperatriz. Nascido em Carolina (MA), mas registrado em Marabá (PA), José Herênio, também conhecido como Zeca, era filho de Conrado José de Souza, também natural de Carolina, falecido em Marabá, em 11/9/1930, e de dona Raimunda Herênio Alvares Pereira (1902-1963), imperatrizense de tradicional família.

Há uma semana, dia 21 de março, Zé Herênio ligou-me, como o fazia habitualmente (a ligação anterior fora doze dias antes, em 9 de março). Era 21h08, eu deitara mais cedo e o telefone estava no silencioso. O que José Herênio queria conversar, dizer, comunicar, informar, refletir, ponderar, relembrar o projeto do “Marco Zero” de Imperatriz, que idealizou e pelo qual tanto propugnou – o que o mais vívido e vivido dos membros da Academia Imperatrizense de Letras queria falar, não fiquei sabendo. Poderiam ser talvez as últimas palavras deles em conversa direta comigo. Eu que auxiliei em pesquisas para seus livros. Que prefaciei um deles. Que discursei em lançamento de outro. Que... Que dizer acerca do que naquela noite ele, ao telefone, me quereria dizer?

O texto a seguir, sobre a vida de José Herênio, é uma republicação feita em 2024, às vésperas de ele completar 97 anos. As palavras são poucas para o tamanho – tamanho e grandeza – de uma vida que existiu e resistiu durante quase um século, no percurso ultrapassando nove décadas, adornando dois séculos (20 e 21) e dois milênios.

José Herênio morre no mesmo mês que, em 10 de março de 2019, morria aos 82 anos e também no Rio de Janeiro, a imperatrizense e minha amiga Sophia Herênio Medlig. As mulheres, como sempre pioneiras, fora na frente para, no tempo de Deus, aguardar o marido Zeca.

Agora, sim, Sophia e Zé Herênio estão para sempre juntos... (EDMILSON SANCHES)

*

JOSÉ HERÊNIO DE SOUZA

Em 26 de agosto de 2024 completou 97 anos o aeronauta, advogado, escritor e acadêmico José Herênio de Souza, titular da Cadeira 15 da Academia Imperatrizense de Letras. Nesta oportunidade, a AIL lembra e homenageia seu decano, autor de obras importantes para a História e Cultura de Imperatriz.

*

Herênios vêm fazendo História há muito tempo. Antes e depois de Cristo.

Herênio Pôncio e seu filho, o comandante Caio Pôncio Herênio, o senador Lúcio Herênio, Herênio Etrusco, imperador romano, e sua mãe, Herênia Etruscila – todos Herênios cujos feitos e existência, a partir de 24 séculos atrás, têm merecido o cuidado e as consignações da História.

Nos primeiros cem anos antes de Jesus nascer, também pontificou Marcos Herênio (Marcus Herennius), cônsul romano, a quem foi dedicada a famosa “Rhetorica ad Herennium” ("Retórica a Herênio"), de autor ainda desconhecido, o mais antigo tratado sobre a arte da eloquência, do bem falar, o uso da linguagem com beleza e capacidade de persuasão, a arte da palavra – que era tão importante a ponto de constituir o “trivium”, a primeira parte do ensino universitário na Idade Média, com três disciplinas (retórica, gramática, lógica), ministradas antes do conjunto de saberes seguinte, o “quadrivium” (aritmética, geometria, música e astronomia). Juntas, essas sete disciplinas formavam as Artes Liberais ou as Sete Artes. A “Retórica a Herênio” mantém sua atualidade e desperta interesse até hoje, sendo objeto de estudos acadêmicos, em especial no Direito.

Outros Herênios – muitos --  atravessaram tempos e territórios, entre eles o José Herênio de Souza, um filho de três cidades: nasceu em Marabá (PA), registrou-se em Carolina (MA) e viveu em Imperatriz, terra de Dª Raimunda Herênio de Souza, sua mãe, casada com o Sr. Conrado José de Souza, seu pai.

E é da história imperatrizense, a partir de seu início, que José Herênio hoje e de há muito tornou-se, provavelmente, a maior referência viva, o maior repositório, o melhor depositário, detentor do mais consistente repertório de fatos primevos. Nisso ele é mestre e disso ele é, em igual tempo, proprietário, herdeiro, legatário – como, aliás, está no significado do nome latino “Herennus”, originado de “heres”, herdeiro.

Em 1927, ano em que José Herênio nasceu, o piloto norte-americano Charles Lindbergh realizava seu primeiro voo transatlântico sem escalas. Em 1927 também “nasceu” a Varig – Viação Aérea Rio-grandense, fundada em Porto Alegre (RS). A Varig foi uma das primeiras companhias aéreas do Brasil e uma das maiores e mais conhecidas do mundo, a primeira a ligar o Brasil à África e à Ásia, para onde nosso país não tinha até então voos comerciais. Pois foi exatamente sua coetânea Varig que, em maio de 1951, contratou José Herênio e deu-lhe oportunidade de fazer o curso de Navegação Celestial, tornar-se navegador e, depois, piloto de aeronaves de grande porte e chefe do Departamento de Rotas e Rotas Internacionais. 

Desses acontecimentos de 1927 o recém-nascido José Herênio nada sabia, evidentemente, mas eles fariam sentido em sua vida, pois – coincidência? – tornou-se militar da Aeronáutica e, depois, aeronauta, contratado pela Varig no mês e ano em que essa companhia aérea completava 24 anos de fundação. Certamente, à memória hereniana vieram as lembranças do rapazote que, em 1943, aos 16 anos, estava em Carolina e começou a trabalhar na Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul (a antiga Condor), empresa carioca fundada... também em 1927.

Outra profissão que, após a aviação, José Herênio exerceu foi a advocacia. Formou-se em Direito e especializou-se em Direito Processual Civil na Faculdade Cândido Mendes, sediada no Rio de Janeiro (RJ), a mais antiga universidade privada do Brasil, fundada em 1902, há 121 anos, por um maranhense que nem Zé Herênio, o político e advogado Cândido Mendes de Almeida.

Advocacia, sabe-o José Herênio, é voz e verbo, fala e escrita. Advogado é a voz (“vocis”) que está próxima (“ad-“) de alguém em função de algo. Nos anos em que exerceu a advocacia, e em outros anos, Herênio deve ter se lembrado de sua própria voz menina falando junto aos e para os demais colegas de formatura e professores do Colégio Santa Teresinha, das Irmãs Missionárias Capuchinhas, em Imperatriz, onde se formou aos 15 anos e foi designado orador da turma, em razão do brilhantismo e louvor com que concluiu os estudos.

Mais uma vez o futuro de José Herênio se fazia presente em sua mocidade: seria também advogado, uma voz a falar para pessoas, por pessoas. Coincidentemente, entre os seculares, milenares Herênios também se encontravam, entre outras atividades, homens do Direito, gentes de boas falas – de que a acima citada “Retórica a Herênio” é grande ilustração.

O caminho de José Herênio até os 97 anos, que se completarão em 26 de agosto de 2024, foi um percurso iniciado, continuado e vencido com esforço (desde menino), dores (pelos sofrimentos maternos, inclusive), perdas (da mãe, do pai, da amada esposa Sophia), superação (pelas conquistas). Em tudo isso, dedicação e talento.

José Herênio, aeronauta, aprendeu a ler o Tempo, tornou-se amigo dos Céus e suas estrelas; soube decifrar códigos (a partir do Morse); cruzou, como Lindbergh em 1927, o Atlântico e outros oceanos; tornou-se homem dos sete mares e dos cinco continentes; cosmopolitou-se a partir do conhecimento de diversos países, para onde viajou e os quais percorreu, da cortina de ferro da União Soviética às veias abertas da América Latina, da oriental Ásia à ancestral África.

Autor de “Retratos sem Retoques”, “Maranhão – Apagando a Mentira”, “Crônicas Esparsas”, “Imperatriz! Nossa Avozinha, Aos 100 Anos de Idade” e, provavelmente, de rico material inédito, José Herênio mantém-se, sadiamente obstinado, na defesa de causas e coisas para Imperatriz. Por exemplo, faz tempo que ele propôs à cidade – via sua Câmara e Prefeitura municipais, por intermédio da Academia Imperatrizense de Letras, de que é membro --  a construção de um monumento, obelisco, o que seja, que marque o “marco inicial” de Imperatriz.

*

Já passei diversas semanas no apartamento do José Herênio, no Rio de Janeiro, em Ipanema. Com Herênio e com Dª Sophia (e suas calopsitas) reforçamos e reamarramos laços de amizade. Nas longas conversas na sala, nas demoradas conversas ao telefone, nos ricos registros e bem escritos enunciados de seus textos, Herênio e eu realimentamos essa incontida paixão pela cidade, por sua História, e nossa igualmente incontida decepção com tanta desvontade e “nonsense” havidos e existentes nos sucessivos gestores e representantes imperatrizenses oficiais.

José Herênio completou 97 anos em 2024, com lucidez e sadio orgulho pela história de que é agente e usuário e da qual é maior autoridade – sua própria história. Gerou filhos (uma médica e um militar), escreveu livros e plantou árvores e amizades. Se dependesse dessa filosofia oriental, seria um homem realizado.

Mas José Herênio não é um homem realizado.

É um homem... realizando.

Porque, por enquanto, ele só tem 97 anos.

E ainda há vida – muita vida – pela frente.

Parabéns, Amigo.

Ave, José Herênio! 

* EDMILSON SANCHES

FOTOS:

José Herênio: o autor e suas obras.