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ALAPG: UMA ACADEMIA, DOIS ANOS*

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Toda instituição é mais velha do que a idade nos papéis que a documentam. Porque uma pessoa jurídica, antes de ser “jurídica”, é “pessoa”. Assim, uma entidade, em especial uma voltada e devotada às coisas e causas das Letras e Literatura, da Arte e Cultura, uma entidade dessas tem a idade da vida, da experiência, da boa vontade, da capacidade de trabalho, dos sonhos daqueles que a integram e dos demais que por ela torcem, a ela auxiliam, com ela realizam.

Desse modo, os dois anos da Academia de Letras e Artes de Praia Grande (ALAPG) neste 21 de setembro de 2020 são uma data formal, um registro de ata, uma referência no Estatuto, um campo preenchido em formulário de órgão público fazendário. A ALAPG, como toda Academia, “absorve”, por assim dizer, a idade, a História da cidade, a historicidade do lugar em que se criou e ao qual deve servir.

Praia Grande, no litoral de São Paulo, é a quarta cidade – após São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis – que mais recebe turistas no verão, época em que, antes da pandemia, cerca de 1,9 milhão de pessoas vêm se somar aos mais de 320 mil moradores do município, espalhados, ou comprimidos, em menos de 150 quilômetros quadrados (km2) de área total – o que perfaz uma notável densidade demográfica de mais de 2.216 pessoas por km2, mais de 89 vezes maior que a densidade do Brasil, de 24,88 pessoas/ km2, segundo meus cálculos, com números populacionais de 2020, do IBGE. Em habitantes, Praia Grande é o 26º maior município entre os 645 do Estado de São Paulo, e o de número 93 entre os 5.570 do Brasil.

A economia praiana pré-coronavírus mostra pujança, com quase R$ 7 bilhões anuais e movimento nas instituições financeiras locais de mais de R$ 1,4 bilhão em financiamentos e R$ 1,7 bilhão em depósitos, caso incomum de município cujas pessoas (físicas e jurídicas) têm mais dinheiro nos bancos do que deles recebem em operações de crédito. Praia Grande é a 51ª maior economia entre os 645 municípios paulistas e a de número 152 entre as 5.570 cidades brasileiras.

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A ALAPG, portanto, principiou bem antes do seu registro de nascimento e nasceu bem antes de seu início. A Academia estava ali, na mente, alma e coração de seus fundadores, antenas humanas que captavam o “éthos”, o “lógos”, o “locus” praiano.

Como o antigo objeto grego “súmbolon” (de onde veio a palavra “símbolo”), no pré-21 de setembro de 2018, cada acadêmico fundador tinha ou era uma parte desse objeto-símbolo, e precisavam juntar-se para, à maneira do “fiat” no Gênesis, fazer acontecer a ALAPG.

A ALAPG sabe que trabalho(s) não lhe falta(m) em Praia Grande. Uma Academia não é um clube de serviços, mas, se for, deve ser menos clube e mais serviços. A cidade precisa, sua população merece.

Há caminhos a percorrer – tanto aqueles que a própria Academia os irá abrir, quanto outros que, simbolicamente, já os recebeu feitos, como o caminho por onde caminharam os pés e a vontade jesuítica do padre Anchieta no rumo de Itanhaém.

À ALAPG há desafios a superar, e outros a lhe serem criados. Interna e externamente à Instituição, assomam carências que exigem que os Acadêmicos assumam compromissos. Afinal, um município que é grande a partir do nome deve ter um sem-número de necessidades, em especial no segmento da Cultura, da Arte, da Literatura, da Leitura – áreas que, ao final, são as que darão e dirão a Praia Grande sua Identidade enquanto ajuntamento humano, terra de gentes, (re)união de pessoas. Enquanto o burburinho de seres humanos e da Economia dão um sentido de utilidade para as pessoas, a Cultura procura organizar essa movimentação para dar-lhe ou nela descobrir um sentido de identidade, algo como um fio, um cambo, uma fieira invisível que fez unir, ligar tantas gentes em um só lugar.

É a Academia que faz isso. Antes de serem autores e leitores de livros, Acadêmicos são leitores de pessoas. Eles, como antenas com alma, captam as irradiações, vibrações, energias que são emitidas por todo vivente, do bebê que se gera ou nasce àquele que, com um olhar de amor ou dor, morre.

Acadêmicos são cuidadores da alma de um povo, organizadores, fixadores e fortalecedores da identidade de uma cidade. Seus textos nunca são só ficção – pois esta é uma maneira de dizer ou revelar certas realidades. Suas linhas nunca são só poesia – pois esta tanto pode ser sobre a rosa que fala ou o odor seu que exala quanto podem ser estrofes, versos, palavras, vozes afiadas como espadas que, em vez de matar, denunciam, incitam, excitam, rebelam-se. “Letras não são só cantiga de ninar, mas, também, toque de despertar, sinal de alarmar, hino de guerrear, canção de cantar vitória”.

Para ser mais cidade, uma Academia tem que ser menos... academia. Explica-se: em remota origem, o nome “academia” é formado de “aká-” (fora, distante) e “-dêmos” (povo), alusão ao local – distante da cidade – onde, em Atenas, situava-se o jardim e mansão do herói Academo, onde, mais tarde, provavelmente no ano 387 antes de Cristo, Platão fundou sua Academia, escola de filosofia.

Portanto, que uma Academia seja distante apenas na etimologia. No relacional e até no locacional, que se aproxime ao máximo das pessoas e de seus sonhos, vontades e necessidades, de onde se extrairão os elementos/sentimentos a serem convertidos em prosa e verso, imagem e som, Literatura e Arte(s).

Que a Academia, por honorabilidade, abdique da reverência; mas, pelo trabalho, torne-se referência.

Que a Academia, por documentar e conservar, fazer e criar, seja em igual tempo museu e laboratório, pensamento e ação, contemplação e trabalho.

Que a ALAPG, nos dias que hão de vir, navegue para além do “mare nostrum” do brasão praiano, do mar – particular – tirreno ou da grandeza mediterrânica, oceânica.

Longa vida à Academia de Letras e Artes de Praia Grande! A ela e à sua cidade, mulheres e homens dedicam parte de seu tempo e talento, esforço e saúde, intenções e trabalho. Há muito tempo que cidades dispensaram heróis, míticos ou reais, portadores de olhos flamejantes, mãos radiantes, beleza deslumbrante.

Os heróis de agora portam pás, carregam pedras (sem serem Sísifos). Plantam e edificam.

Heróis de hoje também pegam da pena ou do pincel e peneiram os sentimentos, transferindo-os para papel e tela (da pintura ou do computador). Inspiração e ação.

Assim, vai-se tecendo o tecido social com que todos nos vestimos, nos protegemos e, por meio do qual, como as antigas capulanas, também comunicamos o que nos devem, o que queremos, o que não aceitamos.

Para a ALAPG e para toda Academia, dois anos já são alguma coisa.

Não são só um mais um.

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Com os cumprimentos à presidente Sonia Maria Piologo, escritora e enfermeira da Marinha Brasileira, e ao vice-presidente, "padrinho" e colega administrador e consultor Edson Santana do Carmo, esta homenagem do menor e mais recente de seus membros à Academia de Letras e Artes de Praia Grande.

* EDMILSON SANCHES
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Imagens:
Brasão da Academia de Letras e Artes de Praia Grande e fotos de alguns aspectos urbanos, na orla do município, no litoral do Estado de São Paulo.

Está a população da cidade, já há dias, enfrentando a chamada “crise da carne verde”. Entretanto, em verdade, não há a tal crise. Há, isto sim, um movimento de pressão por parte dos marchantes para conseguirem mais um aumento no preço da carne. Isto apenas.

Daí a ausência do produto nos mercados e noutros postos de venda que existem e que vinham, com regularidade, abastecendo a cidade, garantindo a normalidade. Mas os marchantes, como sempre fazem, sem uma justificativa, resolveram exigir um “melhor preço” e, para êxito de um melhor lucro, vêm utilizando a sonegação da carne com prejuízo para os açougueiros que, na maioria, não podem atender à exorbitância do novo “tabelamento”.

A convite do presidente da Coap, reuniram-se os marchantes e, depois dos debates, trocas de opinião, ficou resolvido que, provisoriamente, a carne fosse vendida, no Matadouro, ao preço de 330 a 350 cruzeiros até que houvesse outra reunião na qual, definitivamente, haveria, para o problema, uma solução. Mas os marchantes não corresponderam a esta expectativa. E, já no sábado, a carne estava sendo vendida aos açougueiros ao preço de 380 cruzeiros o tal “pesado”.

E muitos, senão a totalidade dos açougueiros, não puderam comprar a carne, não puderam abastecer os seus mercadinhos e, com isso, ficou a população sem poder adquirir a sua principal alimentação.

E há outras irregularidades. O peso que vem marcando 30 quilos sempre dá menos! E há, então, protestos e reclamações, exigindo a pesagem certa, exigindo que haja a valorização de um serviço normal quanto ao transporte do produto para os mercados, que haja a presença de várias outras obrigatoriedades que não vêm sendo cumpridas.

Tudo isso são fatores contrários ao interesse de ganhar mais. Contra tais absurdos, resolveram os açougueiros se organizarem, isto é, vão eles fundar o seu sindicato. E contam, estão eles certos disso, com a colaboração, com a orientação do delegado do Trabalho, dr. Paulo Oliveira que, também pensamos nós, não negará o seu apoio, tudo fazendo para que os açougueiros, organizados em classe, possam melhor lutas pelas suas reivindicações. E é preciso que eles façam isso, que se movimentem, que fundem o seu sindicato para que possam se defender das exigências e das imposições da “classe privilegiada dos marchantes”.

Acreditamos que, nesta disposição de luta dos açougueiros, possa surgir uma melhor situação para o serviço de abastecimento da carne na cidade. Acreditamos sim. É preciso que os açougueiros se libertem da “pressão” e da exigência dos donos do “boi gordo” e que, fortalecidos, dentro do seu sindicato, possam melhor servir a cidade e, consequentemente, aos seus próprios interesses. Esperamos que o dr. Paulo Oliveira, homem de uma grande capacidade de trabalho, de realizações, espírito evoluído, que muito tem feito pelos trabalhadores maranhenses, mais uma vez, dê a sua valiosa assistência aos açougueiros que estão, assim nos parece, dispostos a fundar o seu sindicato. É o caminho certo.

* Paulo Nascimento Moraes. “A Volta do Boêmio” (inédito) – “Jornal do Dia”, 20 de novembro de 1963 (quarta-feira)

Poeta,
não dates teus versos.
Eles não carecem de dia
de nascimento
– pois que não têm hora
para morrer.
Ainda assim, o que pudesses datar
seria o gesto gráfico
literal
frásico
expressional.
Esquecerias por certo a gestação
incubação
hibernação.

Poeta,
teus versos não precisam
– nem dependem –
de cronografia;
também dispensam
genealogia:
o poema não tem pai,
e se tem mãe, é filho da puta,
filho de uma égua,
é santo do pé do pote,
nasceu no oco da palmeira,
pode ter vindo de carona
na bolsa marsupial
ou no bico da cegonha.

Poeta,
expele teu poema
antes que ele salte de ti
e sobreviva
à tua vida
(subvida,
sobrevida).
Entretanto, nada de
dia
hora
mês
ano
local.

Os poemas estão por aí, soltos,
misturados à poesia.

Pegue-os.

Mas afasta deles
o gesto cartorário,
a mão tabeliã.

* EDMILSON SANCHES

André Breton

Avenida L2 Sul, em Brasília,
ou Rua do Passeio, em São Luís,
ambas são decididamente
perfeitas para a descida solene
de pessoas espectralmente graves...

Tinham os rostos indiferentes
congelados de solidão,
empurrados por suas convicções...

De repente uma voz rouca dizia
que a poesia é a mais autêntica
orgia do ser humano!

Era a noite do automatismo psíquico!

Depois soube que aquela gente fugira
do Manifesto de André Breton,
e fora ali despejada
por um caminhão de mudanças...

* Fernando Braga, “Poemas do tempo comum”, São Luís, 2009.

Ainda falando sobre...

Palavras homônimas e parônimas

...

16. CAÇAR ou CASSAR
Caçar = apanhar:
É proibido caçar animais.

Cassar = anular:
O TSE cassou os direitos do parlamentar corrupto.

17. CARDEAL ou CARDIAL
Cardeal = ave, religioso ou ponto geográfico:
A missa só começou com a chegada do cardeal.
Quais são os quatro pontos cardeais?

Cardial = relativo ao coração (adjetivo):
Seu problema está na válvula cardial.

18. CAVALEIRO ou CAVALHEIRO
Cavaleiro = quem anda a cavalo:
No campo, mostrava-se um grande cavaleiro.

Cavalheiro = homem gentil, cortês:
Ele era muito cavalheiro com as mulheres.

19. CEGAR ou SEGAR
Cegar = ficar cego:
A poeira me cegou.

Segar = cortar:
Ele segou toda a plantação.

20. CELA ou SELA
Cela = quarto, repartição:
Ficou preso em umaa cela.

Sela = arreio de cavalo:
Sentou-se sobre a sela e partiu.

21. CERRAR ou SERRAR
Cerrar = fechar:
As portas da loja estarão cerradas após as 18h.

Serrar = cortar:
Os galhos da árvore foram totalmente serrados.

22. CERVO ou SERVO
Cervo = veado:
O rei gostava de caçar cervos.

Servo = criado:
O rei possuía muitos servos.

23. CÍRIO ou SÍRIO
Círio = vela grande:
Havia quatro círios acesos em torno do morto.

Sírio = relativo à Síria:
O dono da loja era um velho sírio.

24. COMPRIMENTO ou CUMPRIMENTO
Comprimento = extensão:
Qual é o comprimento deste objeto?

Cumprimento = saudação ou ato de cumprir:
Receba os nossos cumprimentos.

25. CONCERTO ou CONSERTO
Concerto = harmonia, sinfonia:
Assistiram a um belo concerto no teatro.

Conserto = reparo, correção:
Consertam-se rádios e televisores.

Teste da semana
Que opção completa, corretamente, a frase abaixo?
“Pela estrada __________ ela, o pai e eu: o relógio __________ três horas”.
(a) vínhamos / dera;
(b) vinhamos / dera;
(c) vinham / davam;
(d) vinham / deram;
(e) vínhamos / deram.

Resposta do teste: letra (a) –
Quem vinha pela estrada era “ela, o pai e eu”, ou seja, “nós”. Quando um dos núcleos do sujeito composto for “eu”, o verbo deve concordar na primeira pessoa do plural (= nós vínhamos). O acento agudo no “i” se deve ao fato de ser uma forma proparoxítona: vínhamos. Na segunda lacuna, o verbo deve ficar no singular, porque o sujeito é “o relógio”: “o relógio dera…” Se não houvesse o sujeito (= o relógio), o verbo DAR deveria concordar com as horas: “Deram três horas”; “Deu uma hora da tarde”; “Davam dez horas da noite quando ele chegou”.

A gestão da prefeita Luanna acaba de conquistar uma importante marca na educação da cidade de Vitorino Freire: a melhor nota, em 15 anos, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

A cidade alcançou o impressionante índice de 4.8 no Ideb de 2019, obtendo um dos melhores resultados do Maranhão.

O Ideb é o importante índice de desenvolvimento por ser condutor de política pública em prol da qualidade da educação. É a ferramenta para acompanhamento das metas de qualidade do Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE) para a educação básica.

O secretário de Educação do Estado, Felipe Camarão, fez questão de gravar um vídeo exaltando a excelente conquista da gestão de Luanna em Vitorino e, também, agradeceu pela prefeita estar cuidando tão bem da população da cidade. "Prefeita Luanna, meus parabéns! Você está no caminho certo. Também quero saudar toda a equipe da Semed, os professores e as professoras, pais, alunos e a todos que contribuíram para esse resultado maravilhoso", destacou o secretário.

"Esse é o resultado do nosso compromisso com a educação de Vitorino. E, quando digo nosso, falo dos professores, pais, alunos e servidores, além da Secretaria Estadual de Educação, na pessoa do secretário Felipe Camarão. Essa conquista é só a primeira de muitas outras que virão na educação e em outras áreas importantes da nossa cidade", destacou a prefeita Luanna.

(Fonte: Assessoria de comunicação)

De 13 a 16 de setembro registram-se o nascimento de Jacqueline Bisset (atriz), Lia Luft (escritora), Lauren Bacall (atriz) e Fernanda Torres (atriz) e a morte de Isadora Duncan (dançarina), Grace Kelly (atriz, princesa de Mônaco), Berta Lutz (zoóloga) e Maria Callas (cantora).

Mulheres que marcaram e marcam com talento, beleza e graça a Arte e a Ciência no Brasil e no mundo.

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O ANTES E O DEPOIS

Antes da casa, o projeto.
Antes do edifício, a maquete.
Antes do engenheiro, o arquiteto.
Antes do filme, o roteiro.
Antes do sonho, o sono.
Antes do sono, a estória.
Antes da publicidade, o “story”.
Antes da venda, o anúncio.
Antes da tragédia, o prenúncio.
Antes do sangue, o estampido.
Antes da ajuda, o alarido.
Antes da bala, o bandido.
Antes da pintura, o bosquejo.
Antes do repouso, o bocejo.
Antes da realidade, o desejo.
Antes de estar – ser.
Antes de imprimir – escrever.
Antes do papel, a árvore.
Antes da árvore, a semente.
Antes da semente, o semear.
Antes do “B”, o “A”.
Antes da fala, o pensamento.
Antes daquele instante,
aquele momento.
Antes da rubrica, a assinatura.
Primeiro, o Criador; depois, a criatura.
Antes, natureza; depois, cultura.
Antes da caminhada, o caminho.
Antes do filhote, o ninho.
Antes das passadas, um passo.
Antes, penso; depois, faço.
Primeiro, minério; depois, aço.
Antes de falar – ouvir.
Antes de chegar – ir.
Antes da pele, o sangue.
Antes do mar, o mangue.
Antes da obra, o rascunho.
Antes do templo, o exemplo.
Antes da escultura, o modelo.
Antes do desenho, o esboço.
Antes do velho, o moço.
Antes do castelo, o fosso.
Antes de rainha, princesa.
Antes de reinar, nobreza.
Antes da lágrima, a dor.
Antes da entrega, o amor.
Antes do preço – valor.
Antes de Cristo, Maria.
Antes da Paixão, a traição.
Antes da cruz, a humilhação.
Antes da morte, o perdão.
Antes da loucura, a razão.
Antes do milagre, a oração.
Antes da oração, a fé.
Obra feita – o homem.
Obra perfeita – mulher.

* EDMILSON SANCHES

BOI CORAÇÃO (*)

I

Meu São João, meu São João, nosso São João,
põe fora o cinza-escuro deste dia:
o mundo, a Ilha do Amor, o Maranhão
são cores, são cantos, são alegria!...

Que as nuvens de chumbo se tornem vida!
Que a vida seja em toadas e terreiros!
Zabumba, matraca, orquestra – a partida,
pra dança, o toque, o som, bens brasileiros.

O sol, ciclópico, abre seu imenso olho.
As casas, os prédios abrem janelas.
Gente em ruas e praças, saindo do molho
... E viva o bailado das índias belas!...

Penas e penachos, chapéus e fitas...
Máscaras, mulheres, homens, meninos...
Coisas, corpos dançam dança bonita
– e o boi baila e volteia, e os cantos são hinos...

Catirina, Pai Francisco, esta voz
é amor, é fé, esperança – força do coração.
O boi não morre porque vive em nós:
a ressurreição do boi é a nossa ressurreição.

II

Nuvens descolorem o dia e a noite.

O cinza-escuro espicha-se pelas ruas, espraia-se pela orla, invade as casas, escala os prédios e, sem bater, instala-se em nós.

Rostos se desbotam, chapéus e máscaras perdem luz e, com ela, a cor, o brilho.

Penas e fitas pendem e também perdem beleza, maciez.

Pernas não bailam, braços não se dão, troncos não coleiam, rostos não se tocam, olhares não se cruzam...

Mas eis que a luz novamente se faz.

De uma corda cardíaca extrai-se um acorde córdio que parecendo acalmar quer despertar para o baticum da vida. Som da vida. Ávida vida. Ave da vida.

Ao fundo, matracas anunciam a marcação dos passos devidos, entoam um ritmo de resistência. É a volta. É a vinda. É a vida.

O chapéu, como coroa solar, é minivulcão regurgitando cores, expelindo brilhos, convergindo olhares.

Agora tudo é movimento. Rostos riem. Mãos se dão. Braços abraçam. Olhos se olham. Passos em compasso. O boi volteia. Meneia. Negaceia. Faz que vai, e volta. Faz que volta, e vai.

E em um desses vais... não volta.

Pai Francisco não nega Catirina.

E pega do boi a língua.

Que nos diz que escuridão se acaba com cores.

Que o amor é a cura para as dores.

Que a vida está em um sorriso de criança.

E que tudo faz sentido e vale a pena – se houver esperança.

Esperança – trilha sonora da vida.

III

O cinza-escuro estava nas nuvens, estava nas ruas -- mas não era das nuvens, não era das ruas.

O silêncio da orla e até da onda do mar não era silêncio da orla, da onda, do mar.

A solidão das praças, a descor das faces fêmeas, o desbotamento dos olhos, o sem brilho dos chapéus, penas, fitas e máscaras não eram isolamento das pedras, mudez das gentes, desluz de adereços.

O não som dos tambores, o sem ruído das matracas, o sem zoeira, sem zunido e sem zum-zuns das vozes não eram calmas de instrumentos nem desfala de pessoas.

Tudo o que era lá fora era o que estava lá dentro. Dentro das pessoas dentro das casas. Dentro de nós.

Mas – fiat lux! – o Sol se faz dentro do ser. E o ser faz ter cores claras, cores lindas nos céus, companhia nas ruas, alvoroço nas praças, cores nas faces, barulho no mar, brilho no olhar, nas fitas e chapéus, nas penas e penachos.

E há som nas matracas, e bomba o bumbo, e ribomba o zabumba. E pessoas cantam e dançam. E pés passeiam, e bailam, e volteiam. E bumbuns bambas bambeiam.

O bumba meu boi vive porque vive no coração.

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E mais u’a vez canto, bailado, encantamento;
se ouve, se vê, na praça, terreno, terreiro,
história, alma, humor, desejo, drama, tormento,
Catirina, Francisco – povo brasileiro.

* EDMILSON SANCHES

(*) Textos produzidos a convite do produtor musical Chiquinho França, de São Luís. A linha temática é o silêncio e a descoloração dos tempos pandêmicos de confinamento e o desejado futuro pós-pandemia, com o ressurgimento da alegria, dos sons, do canto, da dança, das cores – elementos presentes no bumba-boi.

A mostra competitiva do 48º Festival de Cinema de Gramado, na Serra Gaúcha, começa hoje (18), às 20h. Devido à pandemia da covid-19, o evento será realizado, pela primeira vez, de forma “on-line” e sem atividades presenciais.

As exibições vão até 26 de setembro, quando ocorrerá a cerimônia de premiação e a entrega do Kikito, estatueta que ficou conhecida nacionalmente como o “Oscar brasileiro”.

Os filmes serão exibidos pelo Canal Brasil e pela plataforma de “streaming” da emissora. Durante a semana, debates sobre os filmes que estão na disputa serão transmitidos pelas redes sociais oficiais do evento. A programação completa está disponível no “site” do festival.

Na primeira noite da mostra competitiva, serão exibidos os curtas “4 bilhões de Infinitos” e “Receita de Caranguejo”, além dos longas “Por que você não chora?” e “El silencio del cazador”, da Argentina.

Neste ano, serão homenageados os atores Marco Nanini e César Troncoso, a diretora Laís Bodanzky e a atriz Denise Fraga.

História

A primeira edição do festival foi realizada em janeiro de 1973, a partir da iniciativa entre a prefeitura local e a Embrafilme, antiga empresa pública de fomento ao cinema nacional.

O Kikito, estatueta que é entregue aos vencedores, foi desenvolvida pela artista gramadense Elizabeth Rosenfeld.

(Fonte: Agência Brasil)

Antes das luzes se acenderem e as câmeras ocuparem o estúdio, a ansiedade tomou conta. Será que aquilo iria dar certo? Experiência, os profissionais tinham de rádio. Agora, a novidade era outra. Não bastariam os sons. As imagens também seriam transmitidas ao vivo, um desafio que deixava artistas, apresentadores, jornalistas e técnicos à beira de um ataque de nervos. Não daria, em tese, para cortar. Mas, começar de novo (quantas vezes fossem necessárias). Tudo com a luz ligada e o coração à boca, como revelam os documentos e pesquisadores da história da televisão no Brasil.

O dia 18 de setembro, uma segunda-feira, entrou para a história brasileira como a data da primeira transmissão da TV Tupi, de iniciativa do empresário Assis Chateaubriand (Chatô), em São Paulo. Setenta anos depois, a primeira década, uma era de experimentação, improviso e muita paixão, deixou um legado que excede o pioneirismo. Uma época de valorização da efervescência cultural que o país experimentava. Era a maior emoção daquele ano quando as três câmeras acenderam as luzes para as palavras do ator Walter Forster: “Está no ar a PRF-3-TV Tupi de São Paulo, a primeira estação de televisão da América Latina”.

Uma história diferente começaria ali naquela noite.

“Quando chega, a televisão tem a seu favor toda a infraestrutura das rádios que já existiam. Os funcionários também tinham a experiência de produção”, afirma o professor Flávio Luiz Porto e Silva, pesquisador de história da televisão no Brasil. Ele explica que foi o amplo conhecimento dos profissionais de rádio que viabilizou a experiência da televisão no Brasil. Naquela noite e todos os outros dias que marcaram aquele início de experiência. “Eles vão aprender fazendo”, afirma o pesquisador.

A programação do dia da inauguração incluiu apresentações como da artista cubana Rayito de Sol, da orquestra de Georges Henri, um número do ator Amácio Mazzaropi, e outro de canto de Lia Marques, as notícias de política com o jornalista Maurício Loureiro e até uma celebração com a “Canção da TV”, cantada por Lolita Rodrigues e Vilma Bentivegna. Os versos da música eram do poeta Guilherme de Almeida (No teu chão, Piratininga / A cruz que Anchieta plantou: Pois dir-se-á que ela hoje acena / Por uma altíssima antena / Em que o Cruzeiro poisou / E te dá, num amuleto, O vermelho, o branco, o preto / Das contas do teu colar / E te mostra, num espelho / O preto, o branco, o vermelho / Das penas do teu cocar). Hebe Camargo, originalmente escalada para cantar o hino, ficou afônica. Foi um sucesso, apesar de uma das três câmeras não funcionar na hora da inauguração.

Na prática, a experiência do rádio viabilizou as imagens em movimento. Um rádio com imagens, como salienta o professor e pesquisador Laurindo Leal Filho. “A respeito ao conteúdo, a televisão, quase que deu continuidade ao que se fazia no rádio. Eu tenho escrito que a televisão no Brasil teve implementação diferente. Foi o teatro que influenciou bastante o início na Europa. Nos Estados Unidos, a TV apoiou-se no cinema”, explica.

“A televisão brasileira, na década de 50, teve um caráter de aventura, com o pioneirismo de seus profissionais desbravando os mistérios do novo veículo”, afirmou o professor Edgard Ribeiro Amorim no livro “História da TV Brasileira”. Ele explica que os primeiros anos foram marcados por uma “fase de aprendizagem” de como funcionaria aquela nova caixa mágica. Responsáveis pela parte técnica precisaram adquirir maior formação profissional na prática diante da novidade. Um tempo, aliás, sem recursos de buscas imediatas a outras referências, como ocorre no século XXI. No campo artístico, os profissionais tinham as práticas da época de rádio, cinema e teatro. “Os recursos técnicos eram poucos, com um equipamento mínimo para manter uma estação no ar”, pontua Amorim.

Uma característica dos trabalhadores brasileiros foi se multiplicar para dar conta do desafio que se apresentava. Entre um programa e outro, os radialistas da Rádio Tupi ocupavam o estúdio da recém-lançada PRF-3 TV Difusora, interpretavam cenas ao vivo e voltavam à sua função no rádio. Essa era a rotina de muitos pioneiros da televisão brasileira, que se iniciou em 1950. Xênia Bier, Alvaro de Moia, Vida Alves e tantos outros nomes dessa trajetória experimental da televisão brasileira já deixaram os palcos da vida.

E na rádio, os brasileiros já tinham os caminhos das ondas. Afinal, desde 1922, graças à iniciativa de Edgard Roquette-Pinto, artistas, jornalistas e outros profissionais conheciam o frio da barriga e a responsabilidade de entender o que era uma transmissão ao vivo. Até 1932, por exemplo, publicidade era proibida em rádio. Somente depois que o veículo se popularizou.

Quando a TV foi ao ar, um novo caminho se iniciava para uma moçada arrojada, já acostumada, por exemplo, em apresentações, jornalismo e radionovelas que encantavam a audiência. Segundo os pesquisadores entrevistados, havia empolgação, mas também dúvida do que a rádio se transformaria ou qual o tipo de impacto teria com a concorrente com imagens. O rádio já era realidade em 80% das casas brasileiras.

Quando a TV chegou ao país (depois da leva dos 200 primeiros aparelhos importados por Chateaubriand), o aparelho estava longe do acesso à população, tanto pelo alcance dos transmissores não irem além de 50 quilômetros, como pelo preço, de cerca de US$ 700. Ainda mais quando foi a própria televisão ter alguma popularização, principalmente depois de 1955. Conforme registra o professor Flávio Luiz Porto e Silva, um aparelho, no começo, custava o equivalente a 30 salários mínimos.

“Com o crescimento nas vendas e a possibilidade de crediário, o número de aparelhos foi crescendo. O próprio processo de popularização aumenta à medida que a década de 1950 avança. Quando chega 1959, o número de aparelhos já é muito grande. E esse número de aparelhos significa também audiência. Uma maior popularização vai ocorrer mesmo nos anos 60”, afirma o professor. No começo da década seguinte, já eram 700 mil aparelhos nas casas das pessoas. Era um tempo em que o vizinho ou familiar com televisão chamava a turma para dividir os cantinhos da sala.

As novelas nessa década já eram queridinhas da audiência. Entre o fim de 1951 e início do ano seguinte, “Sua Vida me Pertence”, com o galã Wálter Forster e a estrela Vida Alves, deixou o público curioso em frente ao novo aparelho. “A telenovela, apesar de constante no ar desde 1951, não tinha a duração nem a importância popular das atuais”, explica Edgard Amorim.

Nas artes, atores e cantores experimentaram, a partir de 1952, um momento singular de profusão cultural. O programa “TV de Vanguarda”, na Tupi, estreou no dia 17 de agosto (um domingo), como aponta o professor Flávio Porto. “Era o maior de todos os programas de teatro, que ia ao ar às 21h sempre com atraso e se estendia por duas, três horas e, às vezes, até avançava madrugada adentro. Este programa foi o grande laboratório da televisão”, afirma o pesquisador. Ele explica que produções dos principais nomes da dramaturgia mundial eram encenadas ao vivo pelos atores brasileiros, o que exigia uma “performance” e estudo inesgotável.

Os diretores inspiravam-se na estética cinematográfica para adequar o conteúdo. O diretor Cassiano Gabus Mendes foi um dos criadores com Dermeval Costa Lima. Dionísio Azevedo fazia também parte da direção de espetáculos de autores como Shakeaspeare e Dostoiévski. Em cena, o talento de atores como Bibi Ferreira, Vida Alves Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Lima Duarte e Laura Cardoso. As imagens, claro, ainda em preto e branco carregaram novas cores ao público e à arte brasileira há 70 anos. A década deu um novo sentido ao “está no ar”.

(Fonte: Agência Brasil)