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RAIMUNDO NONATO RESSURREIÇÃO (25/3/1951-29/8/2025)*

Se há corais nos Céus, um deles acaba de ganhar uma grande voz...

Na noite dessa sexta-feira (29/8/2025), na cidade de Caxias, no Leste Maranhense, espalhou-se uma nota (que não era musical, mas informativa), dizendo que um cantor se “encantara” – morreu. E, com sua morte, não só foi levada a elevada voz de quem morreu: também foi emudecida a nossa...

Mais uma vez, os da “nossa” geração – e, sobretudo, de nosso relacionamento de amizade e conterraneidade –, mais uma vez paga-se o preço da permanência no tempo, que é o não escapar dele.

Nascido em 25 de março de 1951, Raimundo Nonato Ressurreição morre aos74 anos, 5 meses e 4 dias de vida vivida e vívida.

Jeitão tranquilo, bonachão, alegre, nestes últimos dias tentava a recuperação de sua saúde em hospital caxiense. Amigos não tardaram a atender ao primeiro pedido do professor Nonato Ressurreição (entre outras disciplinas, deu aulas de Inglês em escola de Caxias). Ele precisava de doação de sangue, e logo que isso caiu nos grupos e redes sociais muita gente se manifestou, foi ao hemocentro e alguns até postaram fotos confirmando a saudável, humana e humanitária atitude. Nosso amigo comum Irmão Inaldo, responsável pelo conhecido “blog” que leva seu nome, reproduziu “in totum”, em 6/8/2025, o texto e ilustração que fiz, cerrando fileiras, trabalhando juntos, em prol do justo direito de o amigo Ressurreição restabelecer-se e dedicar ainda uma porção de anos em bonomia e afetuosidade para com aqueles que privaram de sua amizade.

Pesarosamente, a partir de ontem, “Ressurreição” deixa de ser um sobrenome humano e torna-se graça divina, que, cremos, (e)levará o querido Conterrâneo a ressurgir nos Céus.

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Raimundo Ressurreição e eu costumávamos conversar em ambientes tradicionais de Caxias, entre eles o bar do Excelsior Hotel. Foi em um destes encontros que ele, sabendo de meus esforços de divulgação da vida e obra do dramaturgo Ubirajara Fidalgo (Caxias, 1949-Rio de Janeiro, 1986), contou-me que fora amigo dele e relatou passagens de momentos comuns entre eles, dois talentosos caxienses. Quanto eu morava fora de nossa terra natal, ele me alcançava via telefone e falávamos sobre a cidade, sua gente, história e cultura.

Em 2019 Ressurreição confiou-me os originais de duas obras suas que ele desejava publicar. Antes, pedia-me a leitura de ambas, a revisão linguística, a análise e, “se tiverem mérito” (expressão dele), pedia-me que escrevesse o prefácio ou apresentação de ambas e cuidasse da edição e acompanhamento dos trabalhos gráfico-editoriais até a impressão, acabamento e entrega dos exemplares. Ele próprio pediu um tempo, enquanto deslindaria algo a ver com algo relacionado a alguma coisa legada aos herdeiros por sua mãe, Dona Lurdes.

Os livros são ótimos. Ótimos e necessários. Um deles é “A Música na Cidade de Caxias”. Trata-se da ampliação de um também rico trabalho que Ressurreição assinou no enciclopédico livro “Cartografias Invisíveis Saberes e Sentires de Caxias”, obra de referência pluriautoral e igualmente indispensável na historiografia da “Princesa do Sertão Maranhense”, lançada há exatos dez anos, em 2015. Em “Nota do Autor” – que Raimundo Ressurreição cuidou logo de enfeixar antes das primeiras páginas do texto principal –, ele escreveu: “A obra que agora iniciamos já foi lançada, em parte, no livro ‘Cartografias Invisíveis – Saberes e Sentires de Caxias’, mas aqui estamos disponibilizando uma obra completa, não que o já editado seja incompleta, não, mas faltaram os pormenores como as viagens ou o que rolava nelas, as pegadinhas praticadas por um músico contra o outro, as brigas, as revanches, a rivalidade de uma banda contra outra, as estratégias dos empresários para catapultar a sua banda e diminuir a concorrente... Como se vê, são muitas as informações que completarão o seu conhecimento sobre o que foi e o que é a ‘A MÚSICA NA CIDADE DE CAXIAS’”.

Das referências (pré-)históricas de 40 mil anos atrás, quando se acredita que é a idade do primeiro instrumento musical – uma espécie de flauta, descoberta na França , a até a exclusiva e enigmática “aDiretoria” [sic], um ajuntamento de nove (oito – agora, sete – em Caxias, um em Brasília) “experts” e adoradores da Música, a obra musical de Raimundo Ressurreição é um detalhado portfólio de bandas, grupos, conjuntos, seresteiros, “regionais” e outros modos de pessoas, isoladas e/ou coletivamente, fazerem e trazerem até nós sons em harmonia, sejam vozes, sejam instrumentos.

O outro livro é um romance. Muito bom. Chama-se “Redenção”, e o Autor vai logo alertando: “Todos os personagens deste livro são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos da vida real é mera coincidência.” Mas não há como não lembrar que os personagens “Lurdes”, “Ricardo” e “Nonato”, entre outros, têm o mesmo nome da mãe, de um irmão e da mãe do Autor, ante o que, como se poderá verificar, outros antropônimos e situações se reconhecerão como nomes e ocorrências e ambientes do “locus” familiar, de amigos e conhecidos, de gentes da cidade e região etc. etc. Tomei a liberdade de sugerir uma outra “pegada”, um “reforço” na redação do parágrafo final do romance, para não esmaecer a sensação literariamente agradável do leitor que se atentará à grande construção prosaica, ficcional, do ainda não conhecido Autor de obras “a solo”, isto é, concebidas e escritas por somente ele, Raimundo Nonato Ressurreição.

Ano passado, 2024, Ressurreição e eu conversamos em sua residência e, entre as alegrias do reencontro e proximidade de ideias e ideais, ele me disse não demorar a decisão de publicar seus livros. Exatamente em um mês de agosto, há seis anos, enviei para o talentoso caxiense o arquivo e cópia de seus trabalhos. Ele iria definir o “momentum”. Um pai sabe a hora de apresentar à sociedade seus filhos de celulose, tinta e talento...

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Às 21h09 dessa sexta-feira (29/8), a filha Erika agradeceu por mensagem: “Aqui é Erika, filha do Ressurreição. Quero agradecer a todos que oraram pela recuperação dele. Infelizmente, nosso guerreiro não resistiu. Peço orações para que ele descanse em paz junto a nosso Senhor”.

Ex-alunos lamentaram. Lembraram do Ressurreição professor. Outros lembraram do Ressurreição vocalista, como na banda “Os Temíveis”, criada em 1968 e a partir de 1973, com a fusão com o conjunto “Os Naturais”, redenominada “Grupo Som HR”, que tocou músicas e corações até 1989.

Nas redes sociais, outros amigos postaram “links” de músicas que eram do gosto do pesquisador e colecionador musical Nonato Ressurreição. Uma dessas canções é “Have You Ever Seen the Rain?”, trecho inglês da frase que continua com “comin' down on a sunny day?”  – algo como “Você já viu a chuva cair em um dia ensolarado?”. (Bom, eu já, e na minha infância diziam: “sol e chuva, casamento da raposa”). Criancices à parte, o que o californiano oitentão John Cameron Fogerty, cantor, guitarrista e compositor, fundador e ex-líder da banda de “country rock” Creedence Clearwater Revival, queria deixar entrever, de modo (en)cantador, era a contradição existente no grupo musical: a banda fazia sucesso em todo o mundo, enquanto os músicos sofriam conflitos interiores... Ou seja, a típica afirmação/constatação de que “sucesso não é sinônimo de felicidade”, ou que “as aparências enganam”. Nada tão humano, tão mundano...

Ressurreição viu chegar à maioridade (18 anos) o Canta Folia, evento criado por uma turma de amigos, entre os quais o próprio Ressurreição e Edivá Moura de Araújo, o Cantarele, dono do bar de mesmo nome, que está há mais 40 anos   – desde 1º de junho de 1984 –  no mesmo lugar, ao lado da Igreja de São Benedito e Praça Vespasiano Ramos, no centro de Caxias. 

Raimundo Nonato Ressurreição também foi dedicado servidor público. No início dos anos 2000 era assegurador de disseminação de tecnologia: foi coordenador do Núcleo Tecnológico de Caxias do Programa de Informática do Maranhão (Proinfo), de capacitação de professores e preparação de alunos no variado e inovador mundo da Computação / Informática. Na década de 1980 era um dos diretores regionais da Associação dos Professores do Estado do Maranhão (Apema), entidade que, em 25 de janeiro de 1989, mudou de “status”, transformada no Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica das Redes Públicas Estadual e Municipais do Estado do Maranhão (SINPROESEMMA). Junto com Nonato Ressurreição na diretoria, seus colegas professores Dalva Almeida, Joaquim Ribeiro, Mirian Sousa e Izaura Silva, esta que se transferiu para Imperatriz (MA), onde aposentou-se como professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA).

Do amigo Raimundo Ressurreição guardo o registro de sua última mensagem privada, antes de públicos agradecimentos que ele deixou em grupos de WhatsApp pelo nosso envolvimento em favor da campanha de doação de sangue. Ao saber que em Imperatriz a Academia de Letras decidira dar meu nome à Biblioteca da Entidade, Ressurreição escreveu: “Mais do que merecido; não poderiam escolher e homenagear ninguém mais merecedor, por toda a sua trajetória cultural. Parabéns, meu amigo, Deus continue lhe dando os Louros em vida!”

Professor, pesquisador, colecionador, historiador musical, cantor, romancista, servidor e gestor público, ativista sindical... De Raimundo Ressurreição esses misteres da vida agora são só lembranças e legado ante os mistérios da morte.

Ressurreição, a partir de agora, deixa de ser sobrenome e torna-se realidade supra-humana para aqueles que, como Raimundo Nonato, mudaram de Vida, mas continuam, na Eternidade, torcendo, zelando, orando pelos Familiares e Amigos que ainda resistem neste lado de cá da Existência.

Paz, Luz... e Ressurreição.

* EDMILSON SANCHES

Imagens:

O professor, escritor, historiador musical e cantor Raimundo Ressurreição e suas obras, em pré-diagramação de Edmilson Sanches, a pedido do autor.

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