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O presidente Jair Bolsonaro e o ministro das Comunicações, Fábio Faria, assinaram, nesta quinta-feira (13), portaria que regulamenta o serviço de retransmissão de rádio, de emissoras cuja finalidade não é gerar, mas, como o nome indica, retransmitir conteúdos. De acordo com Faria, a medida vai possibilitar a expansão do sinal de rádio FM no interior dos Estados da Amazônia Legal.

Em publicação nas redes sociais, ele informou, ainda, que, no primeiro chamamento, o governo deve atender a 232 pedidos de canais, que levarão o serviço a 183 cidades que ainda não possuem emissoras de FM. “Uma iniciativa do governo federal e do Ministério das Comunicações para levar emprego e investimento local aos Estados do Mato Grosso, TO, AM, PA, AP, AC, RO e MA”, escreveu.

Em junho, o governo editou decreto alterando o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão, nome técnico para os canais de rádio e TV em suas diferentes modalidades. A alteração da norma flexibilizou exigências e facilitou as condições para a obtenção de outorgas juntamente ao Executivo, bem como a mudança das características do serviço prestado.

No caso das retransmissoras, o prazo para obtenção de licença passou de 60 dias para um ano. Nesse período, o escolhido deverá cumprir as exigências necessárias à oficialização.

(Fonte: Agência Brasil)

Antônio Leite Andrade

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Um dos maiores empreendedores de Imperatriz, Antônio Leite Andrade, faleceu na manhã da última terça-feira, 11 de agosto de 2020, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP). Problemas cardíacos.

Antônio Leite (ou Toninho, como os mais próximos o chamavam) nasceu em Goiânia (GO), em 30 de abril de 1947, filho de Tarcílio Leite Andrade, falecido, e Margarida Felipe Leite (Dona Zulica). Era casado com a professora doutora Dorlice Leite Andrade e pai de cinco filhos – Alessander Souza Andrade, médico; Anna Kelly Souza Andrade, advogada; Andréa Carla Souza Andrade, pedagoga; e Ana Alexandrina Leite e Antônio Gustavo Leite, estudantes.

Antônio Leite recebendo homenagem da Ampem

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O ano de 1974 foi um período de significativos ganhos para Imperatriz. Nesse ano, inaugura-se o asfalto da Rodovia Belém-Brasília, aprova-se, pelo Conselho Monetário Nacional, uma agência do Banco do Nordeste do Brasil no município, e são instalados o Banco Real, o Aeroclube de Imperatriz, a Polícia Rodoviária Federal, a Clínica Psiquiátrica, a Loja Maçônica Lauro Tupinambá Valente, a Companhia Brasileira de Indústria e Comércio (Cobraice), a Fundação de Ensino Superior de Imperatriz, o Serviço Nacional da Indústria (Sesi), a Vila João 23, a Igreja Luterana, o 3º Batalhão da Polícia Militar...

Foi nesse ano com esse “clima” de empreendedorismo que chegou a Imperatriz o médico Antônio Leite de Andrade e sua mulher, a professora Dorlice Souza Andrade. Era 26 de outubro de 1974. Especialista em Radiologia e Diagnóstico por Imagem, Antônio Leite veio para trabalhar com o casal de colegas e amigos médicos Raimundo Noleto Filho e Ruth Ferreira Aquino Noleto, que haviam fundado, oito anos antes, em 5 de novembro de 1966, o Hospital São Raimundo, um dos três primeiros estabelecimentos hospitalares de Imperatriz.

Inteligente, sensível, trabalhador, além de amigo correto e cortês, Antônio Leite Andrade encontrou, em Imperatriz e região, o espaço e o ambiente adequados para empregar duas características de empreendedor que, aparentemente antípodas, contraditórias, são, na verdade, complementares: ser visionário e ser pragmático. O típico simbolismo de olhar para o alto e trabalhar aqui embaixo. Visão nas estrelas, pés no chão.

Ter essa antecipada percepção “das coisas” e desenvolver um processo prático para realizá-las levou Antônio Leite a dois títulos de pioneirismo: na Saúde, médico pioneiro em Radiologia e Diagnóstico por Imagem em Imperatriz e até no vizinho Estado do Tocantins; e, na Educação, pioneiro no ensino superior privado de Imperatriz.

Em ambos os casos – Radiologia e Ensino –, Antônio Leite cuidava de um mesmo aspecto: o interior das pessoas... e, a partir daí, a saúde física e a saúde mental. Assim, manuseando recursos invisíveis – a radiação eletromagnética e a educação universitária –, Antônio Leite dava mais visibilidade e, pode-se dizer, uma vida melhor para aqueles que dele eram pacientes (como médico) e estudantes (como empreendedor educacional).

Na Medicina, o espírito saudavelmente inquieto e pragmaticamente realizador de Antônio Leite Andrade levou-o a criar diversos empreendimentos e empresas. A parte mais visível desse empreendedorismo médico está no Diagcentro, uma das maiores referências em diagnóstico por imagem de Imperatriz e região, e a grande Clínica de Imagem, que Antônio Leite fundou após transferir sua participação da Diagcentro.

Na Educação, fui testemunha auricular e ocular dos sonhos empreendedores do casal Dorlice (Dora) e Antônio Leite. Essa vontade dos dois materializou-se em 1986, com a criação da escola Ceril (Centro Educacional Renovado de Imperatriz Ltda., conhecido também como Ceril-Objetivo), que trouxe, a partir do nome, uma proposta e prática de renovação no ensino. Depois de muitos anos localizado no centro de Imperatriz, o Ceril foi transferido para a mesma área territorial da Faculdade de Imperatriz, a Facimp, onde se integrou ao espaço e, de certo modo, ambientou seus alunos ao quotidiano do ensino superior. Depois, o Ceril foi extinto, e Dorlice Andrade pôde dedicar-se mais as variadas e permanentes tarefas da direção geral da Faculdade.

Doze anos após a criação do Ceril, Antônio Leite e Dorlice criavam, em 1998, a Associação Região Tocantina de Educação e Cultura (Artec), a entidade mantenedora da Faculdade de Imperatriz – esta a obra maior, resultado, é claro, de todos os esforços e realizações anteriores.

Assim, três anos após a Artec, em 20 de agosto de 2001 – no mesmo mês em que se despede da vida seu fundador –, a Faculdade de Imperatriz, a conhecida Facimp, ganhou vida: nesse dia, foi dada a primeira aula, e logo no curso de Odontologia, um dos de maiores exigências para sua implementação. Fui testemunha da alegria de Antônio Leite por esse dia. Era, aquela aula, a confirmação de que a Faculdade que leva o nome da cidade finalmente inspirava, respirava, resfolegava e extravasava o sopro e a graça da vida própria, autônoma, independente, como devem ser os estabelecimentos de ensino superior. Naquele instante, para além dos importantes e indispensáveis papéis que registrem outras datas, anteriores, de existência legal da Facimp, a Faculdade de fato só ganhou foros de vida e materialidade com a energia física e mental dos professores que ministraram as primeiras aulas e dos universitários que a elas assistiram, naquele 20 de agosto de 2001.

Consolidado o projeto e a realidade da faculdade, Antônio Leite transferiu, para grupo especializado, o comando, a posse, mas não a propriedade, da Facimp; entretanto, por óbvio, nem que ele quisesse, poderia transferir a titularidade do pioneirismo e inovação no campo do ensino superior privado de Imperatriz e região.

Com espírito público, Antônio Leite Andrade não se furtou a desafios que normalmente, em Imperatriz, médicos e empresários não encaram tão amiudemente: colocou-se no jogo da Política e da Administração Pública, além de ter se dedicado a atividades sociocomunitárias. Assim, Antônio Leite foi dirigente partidário, presidente do Partido da Frente Liberal (PFL) e do Movimento Democrático Brasileiro (MDB); foi presidente do Rotary Club, foi diretor da Associação Médica de Imperatriz, foi secretário municipal da Qualidade de Vida (Saúde) de Imperatriz. Várias vezes lembrado para candidato a prefeito, razões que desconheço furtaram à cidade essa possibilidade. Voluntariamente, auxiliou candidatos, inclusive o governador, nunca tendo recebido de volta o que lhe prometeram retornar. Ainda assim, foi suplente de senador duas vezes, uma delas assumindo a senadoria, de 3 de junho a 2 de agosto de 2005.

A seu convite, fui a Brasília para auxiliá-lo no início do desempenho de seu mandato senatorial. No apartamento funcional em que estava, e onde fiquei, a simplicidade era a regra, além de muito trabalho. Nos 61 dias de seu mandato no Senado Federal, começou, logo no dia 3 de junho, com discurso em defesa da criação do Estado do Maranhão do Sul, seguido de um Projeto de Decreto Legislativo, nº 300, que instituía plebiscito sobre a criação do Estado do Maranhão do Sul. Em igual tempo, com vistas à criação de Estado, entrou com Projeto de Lei, nº 216, para alteração da Lei nº 9.709, de 18 de novembro de 1998, que regulamenta dispositivos da Constituição Federal (Artigo 14, incisos I, II e III). Menos de uma semana depois, dia 9/6/2005, posicionou-se, como líder do PMDB, favorável à criação do Maranhão do Sul.

Seus pronunciamentos posteriores sempre eram a defesa de uma grande causa ou a exposição de um grande tema. Assim, seus pronunciamentos no Senado Federal, há exatos 15 anos, versaram sobre: reivindicação do início das obras da hidrelétrica de Estreito, município do Maranhão, com impactos também no Estado do Tocantins; apelo ao Ministério dos Transportes para recuperação de rodovias do Maranhão; importância das pesquisas científicas para o combate ao câncer e necessidade da implantação do Hospital do Câncer no Estado do Maranhão; apoio à aprovação do Projeto de Lei 131, de 2001, de autoria do senador Geraldo Althoff, que cria o Serviço Social da Saúde (Sess) e o Serviço Nacional de Aprendizagem da Saúde (Senass); defesa do Projeto de Lei do Senado 138, de 2002 – Complementar, de autoria do senador Francisco Escórcio, que autoriza o Poder Executivo a instituir, para efeitos administrativos, a região do complexo geoeconômico e social denominada Corredor Centro-Norte de Desenvolvimento, visando à redução das desigualdades regionais, por meio de seu desenvolvimento.

Um mês depois de ter assumido, e novamente na condição de líder, pronunciou, no dia 7 de julho de 2005, discurso com elogios à atuação da Imprensa brasileira. Em 13 de julho, três dias antes do aniversário de Imperatriz, fez pronunciamento em comemoração ao centésimo quinquagésimo terceiro aniversário da cidade que tão bem o recebera – Imperatriz –, um microcosmo do Brasil, com população formada de brasileiros de todas as regiões e estrangeiros dos diversos continentes.

Nos dias seguintes, e caminhando para o final de seu mandato, fez pronunciamentos sobre o programa do governo que reduzia o saldo devedor de financiamentos imobiliários; apresentou mais justificativas para seu projeto de lei que alterava a Lei da Improbidade Administrativa (Lei 8.429/1992); posicionamento favorável à proposta de que os trabalhos parlamentares do Senado funcionem de segunda a sexta, das oito até às dezesseis horas ou mais, se necessário; comentários à decisão do procurador da Federação Maranhense de Futebol a respeito do campeonato maranhense de futebol de 2005.

Nos últimos dias de mandato, pronunciou-se defendendo a conclusão das obras da Ferrovia Norte-Sul e a implantação do transporte de passageiros e, sensível às questões da Educação e do Conhecimento, fez pronunciamento acerca da escolha do ano 2005 como o "Ano Ibero-Americano da Leitura”, que, no Brasil, recebeu o nome de "Viva Leitura".

Em seu período como senador da República, esteve presente na discussão e votação de, pelo menos, 19 matérias, envolvendo temas sensíveis e relevantes da vida nacional, como abertura de crédito, escolha de altos dirigentes de órgãos federais e de diplomatas brasileiros para servirem em diversos países e, também, votação de propostas de emendas à Constituição Federal.

Foi também de sua autoria o Projeto de Lei do Senado nº 259, que acrescentava um artigo (nº 17-A) à Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992, a conhecida Lei da Improbidade Administrativa, com isso estabelecendo uma precedência de ações decorrentes de atos de improbidade administrativa. Também de Antônio Leite o Requerimento nº 796, que, observando o Artigo 50, parágrafo 2º, da Constituição Federal, e de disposição do Regimento Interno do Senado Federal, solicitou ao ministro da Fazenda informações sobre a dívida do Estado do Maranhão.

E se, de acordo com a tríade chinesa, Antônio Leite Andrade já houvera plantado árvores e gerado filhos, a trindade se completava com uma pequena publicação que ele assinou e o Senado Federal editou: “Criação do Serviço Social da Saúde e do Serviço Nacional de Aprendizagem da Saúde”, a única obra bibliográfica que traz o nome de Antônio Leite na capa, como autor. O trilátero chino completara-se.

Antônio Leite discursando no Senado Federal

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Conheci Antônio Leite e Dorlice Andrade desde a década de 1970. Lembro até das três centenas, das sete dezenas e das unidades que formavam o número da conta-corrente dele no banco federal em que eu trabalhava e a partir de onde trocávamos ideias e esperanças pensando na cidade. Não demorou e já eu era todo ouvidos e falas em conversas com a professora Dorlice e seus quereres em torno da criação de sua própria escola. Logo a seguir, tendo eu retornado para Imperatriz, depois de anos em Fortaleza, Brasília e aprendizados em São Paulo, conversei, a convite, com Antônio Leite sobre suas ideias da Faculdade – em uma delas, recordo-me, a presença do amigo odontólogo Giovanni Ramos Guerra, que também colaborava com seu conhecimento, sua disponibilidade, seus esforços e boa vontade para a implantação do curso de Odontologia na futura Faculdade.

Tempo depois, Antônio Leite me convidou para ser um dos diretores da Faculdade, onde convivi ao lado de pessoas boas, trabalhadoras, competentes, entre as quais a diretora-geral Dorlice Andrade, o vice-diretor-geral Edgar Santos, economista, e o diretor acadêmico Domingos Furlan, filósofo. Acompanhei e colaborei com um pouco na dinamização das atividades da Facimp, a faculdade-orgulho de Imperatriz, cujos cursos, mais de dez na época, iam do “A” de Administração ao “Z” de Zootecnia. Muitas das vezes, em um automóvel da Faculdade, com motorista, eu viajava para grandes municípios dos Estados vizinhos para apresentar a Facimp aos alunos e professores das escolas de ensino médio, suas opções de cursos, sua estrutura física de primeira qualidade em área total de quase 600 mil metros quadrados, inclusive áreas de expansão.

Recordo-me de que, certa feita, visitando-me, Antônio Leite ficou impressionado com as dezenas de milhares de livros de minha biblioteca particular. Brincando e falando sério, disse que eu tinha mais livros ali do que a Facimp tinha em seu acervo. Olhou um pouco algumas capas e lombadas e perguntou-me se eu venderia uma pequena parte para ampliação da quantidade de volumes da biblioteca da Faculdade. Reticente, conversei sobre que temas interessariam etc. etc. Fiquei de listar alguns milhares de títulos e submetê-los a funcionários especializados da Faculdade. Com algum travo na garganta, desfiz-me de vasta bibliografia, que, creio, deve estar espalhada pelas estantes temáticas da Facimp até hoje.

Quando pedi para deixar o cargo de direção na Facimp, o fiz para candidatar-me a prefeito de Imperatriz. A bondade despretensiosa de Antônio Leite levou-o a me dizer que eu não precisaria sair, que a Facimp não poderia perder-me e que eu entraria de licença de minha diretoria, sem prejuízo da remuneração. Não pude aceitar – e, mais uma vez, Antônio Leite, extremamente correto, providenciou minha dispensa e com direito a seguro-desemprego, benefício que igualmente não quis exercer, estando ainda comigo, guardada, a papelada. Excesso de tolice ética, o meu...

Recordo-me de que, quando lancei a “Enciclopédia de Imperatriz”, que escrevi de setembro de 2002 a fevereiro de 2003, Antônio Leite comprou do grupo responsável pela publicação centenas e centenas de exemplares do volumoso (2,4kg) livro. Enviou os exemplares como presente de sua Faculdade para altos dignitários da República e outras autoridades, professores etc. Presenteando com o livro que escrevi sobre Imperatriz, Antônio Leite manifestava também seu orgulho e amor pela cidade.

Ali pelos fins da década de 1980 ou começo dos anos 1990, registrou-se um incomum episódio: fui, de manhã cedo, fazer uma tomografia computadorizada na clínica Diagcentro. O Antônio Leite, com aquela animação e boa vontade nele muito próprias, fez questão de fazer o exame. Orientou-me direitinho e, enquanto eu me mantinha quieto e a máquina me escaneava todo, o Antônio Leite, protegido dos raios, fazia-me perguntas: “Está sentindo alguma coisa?” E eu: “Não”. O exame continuava... Daqui a pouco, novamente a pergunta e a mesma resposta: eu nada estava sentindo.

De repente, antes que o médico me questionasse mais uma vez, disse-lhe espontaneamente que estava sentindo algo na perna. De repente, só ouvi barulhos altos da máquina sendo desligada e o Antônio Leite vindo até onde eu estava. Examinou-me, saiu apressado e só o ouvi gritando alto, procurando a alguém onde estava a chave de um determinado armário.

O certo é que, sem esperar mais, Antônio Leite me pegou nos braços (era magro, mas era forte) e, andando rápido, saiu da clínica comigo até a primeira farmácia que ele encontrou ali na Avenida Dorgival Pinheiro de Sousa, onde, por sua indicação, aplicaram-me uma injeção. Depois, retornamos e fui levado para descanso e observação à sala da direção, onde, a essa altura, já estavam presentes os médicos e sócios da clínica Ricardo Olivi Júnior e Águeda Maira Matias Olivi, ambos igualmente radiologistas. Eram os três amigos nossos, disseram-me que eu iria sentir sonolência e que me levariam para casa. Antes, pedi ao Antônio Leite que ligasse para o banco federal em que eu trabalhava e relatasse o ocorrido, informando que o competente atestado pela ausência seria levado posteriormente, no retorno ao trabalho. Antônio Leite foi deixar-me no Jardim Três Poderes, onde eu estava morando (porque minha mãe, muito doente, estava sensível ao barulho das festas que se realizavam em clube social próximo de antiga casa, no Bairro Juçara). Ao me despedir do Antônio Leite, brinquei com ele, dizendo que eu não iria dormir, apesar da injeção – mal me deitei, ainda era manhã, e dormi; fui acordar perto de meia-noite...

Depois, fiquei sabendo que meu corpo reagiu, alergicamente, ao tal “contraste iodado”, substância usada comumente em procedimentos radiológicos como radiografias, ressonâncias e tomografias. Embora se discuta se coceiras, náuseas, calorões e gosto metálico provocados pelo contraste sejam tecnicamente alergia, havia risco sério de, por exemplo, a criação e explosão de bolhas (que foi meu caso) ocorrerem em áreas do corpo – inclusive internas a ele – de difícil controle. Daí, a cuidadosa pressa do Antônio Leite em aplicar-me medicação antialérgica, que me tirou de risco (se risco havia) e me brindou com mais de uma dúzia de horas de sono... Depois, o cardiologista e clínico Bene André Camacho de Araújo, que me atendia, fez anotar em uma carteira médica minha a observação de que eu apresentara reação a contraste iodado.

Faculdade de Imperatriz, em visão panorâmica, do alto

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Anotações e relatos como os que aqui se registram dizem da verdade mais comum e tão pouco refletida: a vida de uma pessoa é a soma de interações com a vida de outras, às vezes muitas outras, pessoas. Desse modo, quando uma pessoa morre, parte-se, fica suspensa no ar, para sempre incompleta, a teia da própria vida que havia entre quem morreu e os que ainda não...

Nos longínquos séculos XVI e XVII, viveu o poeta metafísico inglês John Mayra Donne. A Metafísica, uma disciplina da Filosofia, cuida daquilo que seria o fundamental no que chamamos de realidade, como a relação entre a mente e a matéria, as relações entre as categorias do ser e até o estudo de todos os fenômenos do Universo. Sim, tem gente que estuda “coisas” assim. E, às vezes, sabem dizer isso muito bem – e resumir tudo isso – em poesia, ou poeticamente. John Donne escreveu:

“A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da Humanidade. Eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”.

Durante o dia 11 de agosto – triste agosto... –, amigos me ligaram, gravaram áudios, enviaram mensagens: não acreditavam que era verdade que Antônio Leite havia morrido. Uns lembravam: “O Antônio Leite via a gente sentado, ele dava a volta em seu carro e vinha cumprimentar, sentar e falar com a gente”. O outro lembrava as conversas regadas a bebidas e, como tira-gosto, “o melhor queijo do mundo”, feito por Dona Zulica, mãe do Toninho.

O jeito simples, “largado”, do Antônio Leite era visível. Ele comparecia a certas reuniões com uma camiseta às vezes puída, descosturada no ombro... Antônio Leite tinha um particular “joie de vivre”, um prazer alegre na vida e no viver, expressado mais pelo sorriso e gestos amáveis que por vestuários e adereços. Uma das fotos que ilustra este texto mostra Antônio Leite Andrade recebendo homenagem da Associação do Ministério Público do Estado do Maranhão (Ampem). A camisa polo desabotoada, o sorriso meio maroto... é o Antônio Leite, ali postado entre autoridades com seus escuros e vetustos ternos.

Com Antônio Leite não morrem suas realizações, patrimônio, pegadas – isso está por aí, visível.

Com a morte de Antônio Leite, morre um jeito simples e alegre de ser, um camarada para como amigo se ter; morrem sonhos – que eles os tinha ainda, e muitos.

O poeta tem razão: os sinos não repicam, não dobram por aquele que morreu para nós.

Os sinos dobram para o que em nós morreu com ele.

Descanse em Paz, meu Amigo Antônio Leite.

* EDMILSON SANCHES

O deputado federal Juscelino Filho (DEM-MA) se reuniu nesta quarta-feira (12), com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Na ocasião, recebeu uma ótima notícia para Imperatriz (MA): a liberação de R$ 1,8 milhão para a aquisição do terreno no qual será instalado o aterro sanitário da cidade. Trata-se da primeira parte de uma emenda da bancada do Maranhão no Congresso Nacional, no valor de R$ 21 milhões.

“Já estive algumas vezes com o prefeito Assis Ramos, em audiências no Ministério e na Caixa, tratando desse assunto. E hoje o ministro Salles nos garantiu a liberação do recurso para iniciarmos a implantação do aterro. Acabar com o lixão e dar o destino adequado aos resíduos sólidos não é apenas questão de meio ambiente, mas também de saúde e qualidade de vida para toda a população. É uma prioridade”, afirmou o deputado Juscelino Filho.

Segundo Ricardo Salles, a atuação da bancada maranhense foi de extrema importância para garantir os recursos. “A iniciativa integra o programa Lixão Zero, do presidente Jair Bolsonaro, que tem avançado em todo o território nacional para acabar com esse grave problema dos lixões. Espero que o prefeito de Imperatriz tenha a possibilidade de fazer de forma rápida a construção do aterro”, disse o ministro.

Agenda em Imperatriz

Nesta quinta-feira (13), o deputado federal Juscelino Filho estará em Imperatriz, onde vai participar do evento em que será dada a ordem de serviço da construção do Anel Viário, que vai interligar a Avenida Pedro Neiva de Santana à BR-010. Em 16 de julho, data em que o município completou 168 anos, o parlamentar anunciou a destinação de R$ 4 milhões, por meio da Codevasf, para as obras.

(Fonte: Assessoria de comunicação)

Juíza Lavínia Coelho

Apesar das mulheres serem a maioria da população brasileira (52%), a representatividade feminina na política ainda é muito baixa. Como se não bastasse essa realidade, muitas mulheres também estão sendo usadas como “candidatas-laranjas”, com registros de candidaturas apenas para cumprir a cota de 30% de participação feminina.

É sobre essas questões que o projeto Inspire e Comunique, idealizado pelas jornalistas Franci Monteles e Yndara Vasques, da Inspirar Comunicação, também quer estimular o debate e promover reflexões em conversa com a juíza Lavínia Helena Macedo Coelho, integrante da Corte Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão (TRE-MA). A “live” será às 19h30, com transmissão pelo Instagram de Franci Monteles (@franci_monteles).

A juíza Lavínia Coelho é também coordenadora da Comissão Permanente de Políticas de Gênero e Cidadania (TRE Mulheres. Em junho deste ano, o TRE-MA também lançou uma campanha, por meio de um vídeo, com a participação voluntária de autoridades, educadores, artistas e influenciadores digitais, para incentivar a participação de mulheres na política maranhense. O vídeo está no canal da instituição no YouTube.

No âmbito nacional, vários movimentos da sociedade civil organizada e o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também desenvolvem ações e campanhas para estimular a participação, de forma efetiva, da mulher na política brasileira. A campanha mais recente do TSE tem como mensagem “Mais mulheres na política: a gente pode, o Brasil precisa”. A ideia é inspirar mulheres a ocuparem cargos políticos e mostrar que o aumento de lideranças femininas é bom para toda a sociedade.

Jornalista Franci Monteles

Representatividade feminina na política

Na Câmara dos Deputados em Brasília, as mulheres ocupam, apenas, 15% das cadeiras do parlamento de acordo com dados das últimas eleições (2018). No Maranhão, das 47 cadeiras da Assembleia Legislativa, apenas nove mulheres têm acento (incluindo a deputada Ana do Gás que está de licença médica). Na Câmara Municipal de São Luís, o número é ainda menor, com apenas três vereadoras que conseguiram eleger-se em 2016. Com as eleições municiais se aproximando, há uma chance de mudança para esse quadro.

De acordo com dados estatísticos das Eleições Municipais de 2016, de cada 10 candidatos “sem votos” em todo o país, nove eram mulheres – que não tiveram nem o próprio voto. As informações são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), levantados logo após as eleições, obtidos pela então ministra Luciana Lóssio, na época integrante da Corte, e que passou a observar o fenômeno de candidatura de “mulheres-laranjas” na política brasileira.

Serviço – Inspire e Comunique
“Live”: A participação efetiva e a representatividade da mulher na política
Com quem: juíza Lavínia Coelho (TRE-MA)
Quando: 12/8/2020
Hora: 19h30
Onde: Instagram @franci_monteles

(Fonte: Assessoria de comunicação)

A quarta-feira chegou... E, com ela, os textos literários – produção de escritores maranhenses... O BLOG DO PAUTAR incentiva, por meio do projeto LITERATURA MARANHENSE, a leitura de bons textos... Aproveite! Bom “apetite”!

(Apresentação ao livro “Da ‘Revolta Cidadã’ à Utopia Brasil”, do advogado e pensador Ulisses de Azevedo Braga, membro – “in memoriam” – da Academia Imperatrizense de Letras. A obra, de 228 páginas, foi publicada há 21 anos, em 1999, pela Ética Editora, Imperatriz-MA)

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Caro Destinatário desta “Carta Urgente”:

Há pessoas que acham que sonhos vêm do sono, de um estado de letargia, e que o espaço para eles se circunscreve à mente. Não; os sonhos provêm da realidade, de uma situação de vigília, e para ela retornam, “materializados”, com as alterações/adequações, positivas ou não, a que forem submetidos pelas influências e desvios do meio.

Sonhos não são o contrário da realidade; são parte dela. Assim como o espírito dá vida ao corpo e a ele se integra, os sonhos é que animam (isto é, dão alma) à realidade e a ela se incorpora. Dois-em-um. Indivíduo – ou seja, o dois que não se divide, o DUO (dois) que é UNO (um), o par irrepartível, casal inseparável, dupla indivisível.

À Luther King, Ulisses de Azevedo Braga tem um sonho, do qual também não se separa, embora reparta com outros. (Vantagem comum a sonhos, amor e conhecimento: quanto mais se divide, mais se multiplica).

O sonho de Ulisses é pulso, pulsão, pulsação. Pulso forte, social. Pulsão consciente, cidadã. Pulsação enérgica, energética, espiritual. Pulso, não impulso; pulsão, não compulsão. Um sonho que é materialidade gráfica neste livro. E que poderia (deveria) ser realidade sociopolítica neste país.

Nesta sociedade de espinhos, ninguém poderá dizer que alguém não falou de flores. Ulisses Braga não só fala de flores: ele prepara o buquê, ele entrega a “corbeille”.

Esta “Carta Urgente” bem que merece um “AR”, o Aviso de Recebimento. Porque o que deve ser urgente, mesmo, não é a Carta, mas a resposta a ela.

Ulisses é nosso “filósofo sociopolítico” mais carnal, espiritual e social: pensa/a/dor, vivencia/a/dor e soluciona/a/dor. Este livro demonstra isso; não é um produto tão-somente de um esforço intelectual, mas de uma prática político-social, de uma angústia espiritual, um sofrimento pessoal. Não é só obra de reflexão, mas de “reflexação”, ação refletida, reflexão e reflexo da ação.

Ulisses prega, ou prevê, o fim do Poder, do Poder como está sendo exercido, onde (quando) a Pátria comunal, nacional, vira patrimônio pessoal ou, no máximo, grupal. A Pátria é o patrimônio formado pelos muitos pobres e afanado pelos poucos ricos. A Política é o veículo do Poder, pelo Poder, para o Poder, que, no porta-malas, leva assistencialismo material e escravismo mental. Junto com a comida para o estômago, com o dinheiro para o bolso, o remédio para a doença, vai a anestesia para a alma, o modelador de vontades, o anulador de opções.

Este livro traz um novo modelo de Cidade e de Estado. Sugere regras, um Credo, crenças, práticas. A Utopia não é o não lugar, é o lugar pensado e possível, feito a partir das mesmas gentes e mesmos agentes hoje (sobre)viventes.

Ulisses Braga escreve a fórmula geral, desenha a forma ideal, molda a forma final. O livro é quase um “tool book”, um livro-ferramenta: vai além do pensar e mostra os passos para a realização. O que Ulisses não pode fazer é o que cada um deve fazer, indivíduo-socialmente, sócio-individualmente: avaliar a proposta, agregar-lhe outros valores e, sobretudo, mobilizar-se rumo à prática que leve à construção solidária, cooperativa, da nova realidade política, social, econômica, jurídica, cultural e filosófica – a Democracia Participativa.

Um “novo” “ethos”, uma “nova” “práxis”, um “novo” ser; um “novo” ser, uma “nova” “pólis”, um “novo” Estado, um “novo” Cosmos. Ulisses executou um trabalho de Hércules. Fez uma obra de gênio (“gênio”, aqui, o homem excepcionalmente dotado de força criadora e criativa).

Mas – já o disseram – o mal dos gênios é que quase nunca são devidamente reconhecidos em sua época. Quantos mestres de obra, quantas obras de mestre, meu Deus, lançaram fundamentos e fundações!... O Éden, da Bíblia; Canaã, a terra santa prometida a Abraão; a República, de Platão; a Utopia, de Morus; a Cocanha, dos franceses; a Luilekkerland, dos holandeses; a Schlaraffenland, dos alemães; o reino de Panicone, dos italianos; a Terra de Dilmun, do povo mesopotâmico; a Cidade do Sol, de Campanella; a Nova Atlândida, de Bacon; o Novo Mundo Industrial e Societário, de Fourier; a terra de Eusébia e a terra dos Méropes, de Teopompo de Quios; as Ilhas Afortunadas, de Iâmbulo; a Idade de Ouro, de Virgílio, Ovídio e outros; a Ilha dos Bem-Aventurados, de Hesíodo, Luciano “et alii” ; a ilha de Bran e o Tír na n-Og, o país da juventude, dos celtas; o Walhala, dos escandinavos; a Terra Sem Mal, dos tupis-guaranis; a “yvy-nomi mbyré”, a “terra onde se esconde” dos índios nandevas; a São Saruê, dos nordestinos; a Pasárgada, de Bandeira...

São cidades dos sonhos e sonhos de cidades. Pensadas como espaço pessoal ou comunitário, onde a vida e a convivência são prazerosas, de amores e louvores, sem preocupação com trabalho, alimentação, saúde... ou planejadas com regras, para seus habitantes desfrutarem do direito à participação, à expressão, à construção coletiva do seu próprio “locus”.

A partir da experiência cidadã de uma cidade, Ulisses Braga, arquiteto do futuro, desenha uma planta para uma comunidade municipal e também para a comum unidade nacional – brasileira, no caso. Não é tarefa fácil – senão não seria trabalho para Ulisses, desde a mitologia grega um símbolo da capacidade humana de superar as adversidades.

A teoria dos “Grandes Homens”, de Thomas Carlyle, credita o progresso humano aos esforços de indivíduos excepcionais. Para ele, “a história do mundo nada mais é que a biografia dos homens notáveis”.

Ulisses de Azevedo Braga é um homem notável. Construiu uma obra cujas intenções, honestas, exequíveis, certamente merecerá a compreensão, as atenções e as ações, senão dos seus contemporâneos, ao menos dos seus pósteros.

Pois essa parece ser a sina dos seres e das obras onde há gênio. A origem grega já advertia: “gênio” significa “Ter nascido, vir a ser”.

Ulisses Braga nos oferta um belo presente.

O futuro te manda lembranças, Ulisses.

* EDMILSON SANCHES

O Tribunal de Justiça (TJ) do Rio de Janeiro confirmou a proibição do reinício das aulas em todas as escolas do Estado. A decisão suspendeu o decreto do prefeito Marcelo Crivella que autorizava a reabertura das escolas privadas para o 4º, 5º, 8º e 9º anos.

O presidente do TJ, desembargador Claudio de Mello Tavares, indeferiu o recurso apresentado pelo município. Ele destacou que “a gravidade da situação vivenciada exige a tomada de medidas coordenadas e voltadas ao bem comum”.

Estados e municípios têm competência concorrente para a adoção de medidas de combate à pandemia da covid-19, decidiu o desembargador. Segundo ele, esses devem atuar de forma articulada no movimento de retomada das atividades econômicas e sociais. De acordo com o desembargador, o município não comprovou ter atuado neste sentido, já que as aulas presenciais estão suspensas em todo o Estado.

A prefeitura informou que vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) da decisão que suspendeu as aulas presenciais nas escolas particulares. Segundo nota divulgada, “é papel do município atestar que os estabelecimentos têm condições sanitárias para reabrirem, caso desejem, seguindo as regras de ouro”.

Em relação aos cursos privados, a prefeitura informou que segue o plano de retomada construído pelo Comitê Científico e a Vigilância Sanitária, que liberou a retomada dos cursos e demais atividades extracurriculares na Fase 5, conforme publicado no Diário Oficial do Município do dia 31 de agosto.

(Fonte: Agência Brasil)

Em sua sexta edição, o prêmio da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) 2020 está com as inscrições abertas até sábado (15). O prêmio avalia iniciativas que contribuem para a segurança hídrica, gestão racional de recursos e soluções sustentáveis para o Brasil.

Dividido em oito categorias, o Prêmio ANA 2020 procura soluções inovadoras em diferentes áreas, de gestão pública à educação, e conta com uma categoria especial de reconhecimento de produções jornalísticas de destaque sobre o tema. Reportagens veiculadas a partir de 1º de julho de 2017 poderão concorrer. As demais áreas de premiação são: Governo, Empresas de Micro ou de Pequeno Porte, Empresas de Médio ou de Grande Porte, Educação; Pesquisa e Inovação Tecnológica, Organizações Civis, Comunicação e Entes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (Singreh).

Estudantes, professores, entidades de educação e ensino não formais, como museus, centros culturais, bibliotecas, jardins e planetários também podem participar em uma nova categoria, reorganizada em 2020, para apresentar esses projetos: a categoria Educação.

Outra novidade foi a inclusão da categoria Entes do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, adicionada para valorizar as ações de órgãos gestores de recursos hídricos, conselhos de recursos hídricos, comitês de bacias hidrográficas, agências de água e entidades delegatárias das funções de agências de água.

Avaliação

A Comissão Julgadora selecionará três iniciativas finalistas e a vencedora de cada uma das oito categorias com base nos seguintes critérios de avaliação: efetividade, inovação, impacto social e ambiental, potencial de difusão, sustentabilidade e adesão social. Para a categoria Comunicação, o critério de sustentabilidade não será aplicado.

Os vencedores serão conhecidos em data e local a serem definidos. Para receber o Prêmio ANA 2020, o participante deverá comprovar estar regularizado no poder concedente, quando couber, no caso de regiões em que o sistema de regulação do uso de recursos hídricos esteja instalado.

Inscrições

As inscrições devem ser feitas apenas por meio virtual e não serão aceitos materiais em meio físico, já que a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico adota uma política de papel zero.

Cada participante pode inscrever mais de uma iniciativa. Além disso, poderão ser apresentados trabalhos indicados por terceiros, desde que acompanhados de declaração assinada pelo autor, concordando com a indicação e com o regulamento da premiação. As inscrições podem ser feitas pelo “site” da premiação.

(Fonte: Agência Brasil)

A professora Mariana Gonçalves, que dá aulas de idiomas em uma escola particular de São Paulo (SP), conta que viveu meses turbulentos até se adaptar às aulas remotas, depois do início da quarentena em todo o país. Segundo ela, foi uma mudança brusca, praticamente da noite para o dia.

"Os alunos da série até tinham ‘e-book’, ‘e-mail’, mas toda a metodologia e os materiais sempre foram muito pensados para a aula presencial. Por causa disso, minha demanda de trabalho aumentou muito até a gente entrar no ritmo de organização da aula, com formato, quantidade. A gente testou muita coisa", relata. Mariana chegou a trabalhar em jornadas que começavam às 7h e terminavam perto das 22h, montando todo o cronograma do dia seguinte.

"A impressão que eu tinha até a pandemia era de trabalhar oito horar por dia. Agora, tenho a impressão que trabalho as 24 horas", desabafa Lia Rodrigues Lessa, professora bilíngue de educação infantil em uma escola privada de Mossoró (RN). A sobrecarga de trabalho é apenas a face mais visível dos problemas e desafios que os professores do ensino básico no Brasil vêm enfrentando nesse período de crise, mas há outros que nem sempre são aparentes, entre eles o abalo psicológico.

"A maioria dos professores não tinha uma experiência anterior de ensino remoto. Com isso, ficaram muito inseguros, porque, além do desafio técnico, tinha a pressão. Junto com o aluno, estavam também os pais e responsáveis acompanhando", avalia a pedagoga Virgínia Garcia, diretora de produto da International School, uma empresa que atua com programas bilíngues em mais de 340 escolas por todo o país.

"O bom professor tem essa questão de querer que o aluno aprenda, e isso não estava funcionando no começo. Às vezes, os alunos não apareciam na aula virtual. Existem alunos excelentes em sala de aula, mas que, na aula a distância, não rendem tanto. Tudo isso deixa a gente muito angustiada", afirma Mariana Gonçalves.

Uma pesquisa do Instituto Península, realizada com 7.734 professores e professoras de todo o Brasil, entre os dias 13 de abril e 14 de maio deste ano, mostrou que 83% ainda se sentem pouco ou nada preparados para o ensino remoto, e 50% indicaram que estão preocupados com a saúde mental. E não são apenas os desafios pedagógicos que abalam a categoria. Os efeitos colaterais da pandemia também mexem com a parte psicológica. "Muitos pais tiveram o orçamento fragilizado, houve muitos cancelamentos de matrícula. Daí, a gente vai dormir e acorda com essa incerteza sobre até quando a escola vai conseguir segurar o nosso emprego", diz Lia Lessa.

De olho no agravamento desse cenário, a International School passou a oferecer apoio emocional especializado para cerca de 1.600 professores e coordenadores das escolas parceiras do seu programa bilíngue, por meio da plataforma Zenklub. O benefício é mensal e dá direito a duas consultas “on-line” gratuitas, durante três meses, que começaram no último dia 6 de agosto.

"Criamos essa parceria com o Zenklub para que os professores possam ter esse apoio emocional, seja por meio de sessões com psicólogos, seja por meio de meditação ou ioga. Eles vão escolher o meio pelo qual querem ter esse apoio. A ansiedade causa impacto na motivação, e sem motivação o processo de ensino e aprendizagem não se sustenta. Tem que ser uma motivação sustentada", afirma Virgínia Garcia.

"Muitos professores não podem contar com esse suporte emocional e, agora, terão essa oportunidade. Isso é importante", afirma a professora Lia Lessa, de Mossoró (RN), que diz já ter lidado com depressão e saber a importância do apoio terapêutico.

Na pesquisa do Instituto Península com docentes, cerca de 55% deles declararam que gostariam de suporte emocional e psicológico neste momento. Por causa disso, o instituto, organização social que atua com educação, também fechou parceria com 24 Estados para oferecer apoio emocional aos professores da rede pública durante o ensino remoto na pandemia. A parceria é feita por meio do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed) e promete disponibilizar, com a plataforma Vivescer , cursos certificados e gratuitos que ajudam professores e professoras a desenvolverem técnicas de equilíbrio da mente, do corpo e das emoções. Além disso, há uma comunidade de suporte na qual os docentes podem trocar experiências e material.

Retorno incerto

Por enquanto, o "novo normal" na educação é o ensino remoto. O Mapa de Retorno das Atividades Educacionais presenciais no Brasil, elaborado, diariamente, pela Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), mostra que, até essa segunda-feira (10), havia no país, apenas, dois Estados (Maranhão e Amazonas) com a reabertura das escolas autorizada. Mesmo assim, no caso do Maranhão, apenas a rede particular voltou. No caso da rede pública, cujo retorno presencial seria a partir do dia 10 de agosto, o governador Flávio Dino decidiu suspender a volta das aulas presenciais, após uma pesquisa com estudantes e responsáveis revelar que 58% das famílias e quase 43% dos alunos não consideram viável o retorno às aulas na data estipulada.

A maioria dos Estados, 17 no total, continua sem data de retorno prevista, e mais oito unidades da Federação apresentaram proposta de data de reabertura parcial das escolas. "Para ser seguro, teria que ter vacina, esse seria o melhor cenário, mas não vai acontecer agora. Mesmo com protocolos, há contato, a gente tem medo desse contato em um possível retorno, e fazer a infecção progredir", afirma Mariana Gonçalves. Com tanto tempo em outro modelo de ensino, algumas mudanças vieram para ficar. É o que diz Virgínia Garcia, da International School.

"Essa crise trouxe também uma oportunidade, que é a da educação 4.0 finalmente sair do papel e funcionar. Não acredito que vamos voltar ao modelo antigo de forma confortável. Eu acredito que o próximo passo na educação é desenvolver esse modelo híbrido para atender a diferentes formas de aprendizagem", comenta.

"A questão das famílias descobrirem novas formas de comunicação com a escola foi importante. No futuro, espero que a gente faça as reuniões de pais e filhos remotas, com maior participação", afirma Lia Lessa.

(Fonte: Agência Brasil)

Samuel de Sá Barreto (Pedreiras-MA, 8/10/1968 – Pedreiras-MA, 13/7/2020).

Na manhã de 24 de agosto de 1951, o jornal “O Combate”, de São Luís, dirigido por Nascimento Moraes e secretariado por Erasmo Dias, estampava em manchete: “Morreu o poeta Corrêa de Araújo, o último guriatã de Atenas!”

Graças a Deus, não seria o último, porque só em Pedreiras, onde nasceu Corrêa de Araújo, que mais tarde viria a ser “O Príncipe dos Poetas Maranhenses”, nessa época atravessavam a primeira infância João do Vale, Kleber Lago, Anely Guimarães Kalil, Raimundo Fontenele e Nagib Jorge Neto, como também, por lá já viviam, encantados pela magia da ‘Princesa do Mearim, os poetas José Chagas, chegado de Piancó na Paraíba, e Manuel Lopes, vindo de Dom Pedro.

I – Quis a destinação de Deus, que uma década e meia depois do falecimento do autor de “Harpa de fogo”, em Pedreiras, nascesse o poeta Samuel Barreto, que agora nos honra escrever estas breves linhas sobre seus “Versos Cinzentos”, livro em que imprime o colorido de um azul de primavera, apesar de o cinza, ou “gris poético” nele evocado, sob o olhar da poetisa e escritora Ana Néres Pessoa Lima Goes, no prefácio do livro, serem “ verídicos, brancos, rimados, em suma: Cinzentos versos. Cinzentos! Porque das cinzas é o mais belo e lúdico renascimento, como nos encena a Fênix! Cinzentos para poderem renascer à luz de cada olhar lançado sobre eles, de cada compreensão leitora, dos desejos dos quais cada alma necessita.

Na contracapa do livro, Samuel Barreto evoca sua “Primeira canção de saudade” [in “Cadernos de Passagem”, EDUFMA,2013]. Deixamo-lo contar ou cantar: “Fui refazendo alguns passos da minha distante infância e senti minhas pequenas mãos roçarem em uma espinhenta e carinhosa barba ainda por fazer, enquanto minha Mãe preparava o café para todos, e não éramos poucos, além da gente, a casa sempre abrigava mais, e é assim a vida inteira... Tive a sensação de ouvir aquela melodiosa voz cantando uma das muitas canções que ele sempre entoava, mostrando-nos um caminho para o bom gosto genuinamente brasileiro. Voltei para o espelho que continuava ali como se me esperasse, e entre lágrimas vi o rosto de meu Pai refletido no meu”.

Abro, aleatoriamente, os originais e me deparo com Zeus ou Baco, o mesmo deus do vinho que reina no Olimpo; o primeiro romano e o outro grego; o certo que o poeta lhe faz esta homenagem em “Benditos olhos”: “Benditos os olhos de Zeus / que no Olimpo tem nome, / rezando pelos ateus / nessas vielas da fome”. [...] “Nessas vielas da fome / já ouço o nome de Deus, / alguém gritou seu nome, / querendo pão para os seus”. [...] “Um pão de pouca migalha / que pela boca se some / a dor no peito se espalha / daquele que nunca come”. Para finalizar: “A morte que nunca falha / pelo vazio um pronome /a dor do fogo de palha / Com a crua cara da fome”.

Pouco adiante, Samuel Barreto maneja a forma fixa com maestria, e a sentimentalizar as quatorze linhas clássicas entrecruzadas, ele nos revela nesta “Colheita” a pujança do soneto: “Todo silêncio está exposto na palavra / cala o mundo, se contemplo o horizonte, / rabisco frases na colheita dessa lavra, / mato a sede, sem beber água da fonte. / Calo meu calo com a força dessa pena / danço o baile quando vem o anoitecer, / minguada hora, é a dor que me condena, / espero um tempo; é um novo fenecer! / Nada importa esse fogo sem caminho / vivo o jogo, equilibro o som do pinho / na calmaria grito a minha explosão. / Eu sou gota na grandeza do teu mar / Desenho a vida aveludo um navegar / amo sozinho sem saber se é em vão”.

Adiante, em “Telhados”, em vez de goteiras ou limos, encontro estas belas imagens, enquanto um gato se alonga: “Gosto das horas / mortas do silêncio da noite, / parece que o vento conversa pelas ruas... / Ao longe, ouço um choro de criança, / e um vigia cochila ao som do seu rádio de pilha. / E os gatos silenciam nos telhados...” E Samuel Barreto arremata: “Não olhei para lua, sinto só a poesia do seu brilho, / nunca quis ser o Sol, prefiro as cinzas da solidão, / carrego comigo a estranha sensação das palavras / que nunca se cansam de bailar dentro de mim / quisera saber o canto de amor dos telhados!”

Samuel Barreto, apesar de jovem, é um poeta maduro, inteiro, que extrai de sua fina sensibilidade a essência imagística e a coloca nas palavras, manuseando-as em galopes bem aprumados. Sintamo-lo nesta “A voz do silêncio”: “O silêncio que se deita nas paragens do proibido / parece delatar minha vontade de ficar mudo. / Não engano as minhas sinceras volúpias, apenas tento / contê-las para não ter que afastar de mim o que quero / e que nem mesmo sabe dos meus profundos desejos. / (coisas de um poeta que sonha com a musa de versos).

Calíope e Euterpe, deusas da poesia e da eloquência, acalantam-no por derradeiro, e o poeta lhes pede o sonho: “Às vezes uma frase dita antes do tempo, pode soar igual / a uma simples conquista desses vulneráveis caçadores, / só que lhe garanto que em mim não habita tal sentimento, / conheço as tangentes do meu universo de emoções. / E posso afirmar que tudo agora é novo, embora no infindo Silêncio da palavra que teima em emudecer”.

***

II – Deixemos um pouco a poesia e o poeta Samuel Barreto, que todos nós conhecemos, e passemos para o homem Samuel de Sá Barreto, esse filho ilustre de Pedreiras, nascido na outra margem do Mearim, hoje Trizidela do Vale, em 8 de outubro de 1968, filho de João de Sá Barreto e de Ceci Ana de Jesus, que estudou no Colégio Santo Antônio de Pádua e que se graduou em Licenciatura Plena em Letras pela Faculdade de Educação São Francisco (Faesf) e pós-graduado em Letras pela Faculdade Latino-Americana de Educação (Flated), e que cursou História na Uema [Programa Darcy Ribeiro] e que era professor universitário.

Samuel, esse nosso profeta da poesia e da generosidade, foi envolvido desde cedo em atividades culturais relacionadas à literatura e à arte, produzindo um considerável trabalho em prosa e verso, onde também se incluem letras para músicas, recebendo diversos prêmios em festivais e outros eventos. Sua estreia foi em 1997, com o livro “SOS Libertação”.

Em Pedreiras, venceu a XXI Poemara – Festival Maranhense de Poesia, com o poema “Águas Barrentas”; em 2007, venceu o Plano Editorial Gonçalves Dias, categoria Crônicas, da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, com o livro “A Rua da Golada e Sua Identidade”, em 2009.

Participou de todas as Antologias e Coletâneas Poéticas de Pedreiras, além de publicar em jornais e revistas; publicou pela Laborarte, de 2007 a 2011, “O Testamento de Judas”, em parceria com Nelson Brito, Zeca Tocantins, Imira Brito e Edvaldo Santos. Teve publicado cinco poemas na Antologia “Mil Poemas para Gonçalves Dias”, lançada em São Luis, pelo IHGM.

Em Pedreiras, lançou o 1º Cordel Beneficente da Região, com o poema “A Peleja de Luis Bico de Agulha com o Guaxinin Cagão”, de parceria com Edvaldo Santos.

Publicou, em 2013, o livro de poesias “Caderno de Passagem” pela EDUFMA e, em 2014, venceu o Edital II de Literatura da Fundação Amparo à Pesquisa (Fapema) com estes “Versos Cinzentos”.

O poeta, cronista, compositor e produtor musical Samuel Barreto foi integrante do projeto cultural “Da Golada Pro Brasil”; membro fundador da Associação dos Escritores e Poetas de Pedreiras (Apoesp); membro fundador da Academia Pedreirense de Letras (APL), onde ocupou a Cadeira nº 8, patroneada por Corrêa de Araújo. Figura entre os pedreirenses condecorados com a Comenda Corrêa de Araújo – honraria que é concedida pela Câmara Municipal de Pedreiras àqueles que tenham, relevantes serviços à educação e à cultura do município.

***

E Samuel Barreto, falecido em 13 de julho de 2020, em sua cidade natal, não sei se premunindo sua passagem meteórica entre nós, deixou, em “Versos Cinzentos”, este canto “Até breve”, como se despedindo: “Despedida deixa-me um vazio sem fim, / no duelo das palavras, cala-se de seca a língua, / o brilho da Lua parece sangrar de solidão... / Junto as cinzas da saudade e choro imensamente, tudo ficou turvo nas últimas linhas escritas”. [...] “Estou indo por aí e não vou pensar na volta, / pois volta e meia sinto-me partido ao meio, / prefiro imaginar a felicidade por onde passo, / apresso o passo indo cada vez mais longe, / para quem sabe, não sonhar com o regresso...”

E nós todos respondemos-lhe acenando os lenços: Adeus, Poeta!

* Fernando Braga in “Apontamentos para o livro ‘Versos Cinzentos’ do escritor e poeta Samuel Barreto, 2015, com modificações naturais, em virtude do falecimento do poeta; originais in “Conversas Vadias” [toda prosa], antologia de textos do autor.

GONÇALVES DIAS E EU

(Registros públicos de lembranças particulares)

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“Conto as coisas como foram, Não como deviam ser”.
(GONÇALVES DIAS, "Sextilhas")

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DIA DE GONÇALVES DIAS – Há 197 anos, em 10 de agosto de 1823, nascia, em Caxias (MA), o escritor, advogado, poeta, etnógrafo, tupinólogo, dramaturgo Antônio Gonçalves Dias, que escreveu aqueles versos que praticamente todo brasileiro, de agora e de outrora, conhece:

“Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá”.

Sou da mesma cidade (Caxias, Maranhão) e nela morei na mesma rua daquele ilustre brasileiro. Mais: o primeiro livro que li – “História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França” – também foi o primeiro livro lido por Gonçalves Dias na sua infância.

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Hotel Serra Azul, em Gramado, Rio Grande do Sul, década de 1980.

Náutico Clube, Fortaleza, Ceará, início dos anos 1990.

Colégio Rio Branco, Bairro Higienópolis, São Paulo.

Auditório Petrônio Portela, Senado Federal, Brasília.

Montes Claros e Belo Horizonte, Minas Gerais.

Mossoró e Baraúnas, Rio Grande do Norte.

Campina Grande, Paraíba. Arapiraca, Alagoas. Parauapebas, Pará.

Rio de Janeiro, Maceió, Recife, Curitiba...

Onde quer que eu esteja, em 19 Estados brasileiros e na Europa e Estados Unidos, Caxias é presença e referência permanente. Caxias e, claro, seu maior poeta e sua melhor rima – Gonçalves Dias.

Caxias, terra e rima de Gonçalves Dias.

Qualquer que seja o espaço, qualquer que seja o tempo, a mesma constatação: Gonçalves Dias vive.

Em todos os lugares acima, e muitos outros mais, em momentos internacionais,

em conferências nacionais,

em encontros regionais,

em palestras locais,

em discursos ocasionais,

em eventos formais,

em “provocações” casuais

ou em bate-papos triviais,

dou um jeito de fazer um “teste”: crio um pretexto dentro do contexto e digo, falsamente desafiador, o primeiro verso da “Canção do Exílio” (“Minha terra tem palmeiras”)... somente para, logo em seguida, perceber/receber os sorrisos cúmplices da plateia de ouvintes não maranhenses, o que denuncia que todos estavam continuando mentalmente – quando não recitando audivelmente – o verso seguinte: “Onde canta o sabiá”.

Daí em diante, fica fácil puxar ou esticar conversa acerca de literatura, de Cultura, dos “verdadeiros valores” da pessoa e das comunidades humanas. Dizer da permanência do que tem valor e da finitude do que tem preço. Preço, dá-se a coisas. Valor, dá-se a pessoas.

Os versos gonçalvinos entram como exemplo de um “valor” que se sobrepõe a muitas “coisas”. Embora a fragilidade do papel, os versos foram mais resistentes que as grandes construções de pedra e cimento, como as fábricas de tecido. Estas, aparência; aqueles, essência – e por aí podem ir as obviedades, quase platitudes.

Escritos em julho de 1843, quando Gonçalves Dias ainda não completara 20 anos, os versos da “Canção do Exílio” atravessam gerações e se depositam e se (re)transmitem quase como que por hereditariedade. Parece não mais ser essa fixação resultado da leitura, mas produto de um código genético, uma informação cromossômica que se repassa no intercurso sexual e se vai instalando na mente de cada novo ser.

Seja em gente da antiga, seja no jovem de hoje, a poesia cometida em Coimbra está inscrita na memória das várias gerações de brasileiros dos últimos 176 anos. Embora, ressalve-se, em grande número de vezes, nunca esteja o poema inteiro, de 24 versos, 5 estrofes, 113 palavras, 487 letras.

Mas aqueles dois primeiros versos, quando não toda a primeira estrofe, não há negar: está na cabeça, melhor, está na alma do brasileiro.

Caxias continua a nos relembrar, a nós conterrâneos e contemporâneos, a importância de ser a cidade onde, mais que um poeta, nasceu uma expressão de maranhensidade e de brasilidade.

Muito da obra de Gonçalves Dias mostra de peito aberto o amor, o orgulho, o sentimento de pertença ("ownership") que o poeta tinha e desenvolvia pela sua própria terra.

Quantos, hoje, manifestamente, denunciam assim orgulhosa e escancaradamente essa emoção telúrica, essa querença pátria?

Fora a conterraneidade, tenho outras “aproximações”, bem particulares, com Gonçalves Dias. Uma delas, o primeiro livro que um e outro lemos: “História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França”. Gonçalves Dias o leu aos dez anos, em 1833, aos 10 anos de idade, enquanto ajudava na casa comercial paterna, ali na Rua do Cisco (depois Rua Benedito Leite, atualmente Rua Fauze Simão), para onde seus pais, João Manuel e Vicência Ferreira, haviam se mudado, oito anos antes (1825).

De minha parte, aos cinco, seis anos de idade já havia “ouvido” e lido a "História de Carlos Magno e os Doze Pares de França", ali na Rua da Palmeirinha – onde as casas tinham, como fundo de quintal, o Rio Itapecuru.

Explico o porquê do “ouvido” o livro. No mesmo lado da Rua da Palmeirinha onde eu morava, algumas casas adiante da minha, morava o casal “seu” Miguel e dona Corina, e um ajudante deles, Seu João, homem forte, que aqui e acolá carregava seu Miguel, que era paraplégico.

Dona Corina, naqueles idos, vivia de lavar e passar roupa. Sustentava a casa. “Seu” Miguel, paraplégico, ficava como que sentado em uma rede, um pano cobrindo as pernas macérrimas pendentes, e lia, lia muito. Usava um cachimbo, cujas baforadas recendiam em toda a casa. Más línguas diziam que era diamba, tirada de algumas mudas que, diziam, eram bem cuidadas no seu quintal, para a produção das endiabradas folhas e sua transformação em trescalante fumo.

Acostumei-me a visitar o “seu” Miguel. Ele gostava da minha atenção; eu gostava das suas histórias. Ouvia a leitura de capítulos e capítulos e, às vezes, o resumo de “romances” – que era o nome que também se dava aos folhetos de literatura de cordel.

Um dia, "seu" Miguel me emprestou um livro que eu já “ouvira”. Era a história do imperador Carlos Magno. Na obra, além do magno imperador, estavam Roldão, Oliveiros, Ferrabraz e tantos personagens mais... Lembro que eu li todo o livro e que pedi explicações sobre o motivo da morte e posterior “reaparecimento” de alguns personagens após a “parte” da morte. Claro que eu estranhava aquela minha primeira leitura “séria”: naquela idade, os textos a que estava acostumado eram os de cartilhas escolares, bastante fáceis para mim, demasiado, por assim dizer, lineares, sem recursos nem estilos mais elaborados.

Em Caxias, da Rua da Palmeirinha mudei-me para a Rua da Galiana (coincidentemente, mesmo nome da mulher do imperador Carlos Magno). Tempos depois, nasceu um irmão meu... e chama-se Carlos Magno (depois veio Julio Cesar Sanches, outro irmão “imperador” na família). Décadas mais tarde, consegui, em um sebo do Rio de Janeiro, um exemplar igual ao que me fora emprestado pelo “seu” Miguel: capa em tecido e sem o nome do autor (Vasco de Lobeira). Reli os dez capítulos da obra e revi(vi)-me criança. (Uma curiosidade: Meu irmão Carlos Magno, depois que aprendeu a ler e escrever, não se fez de rogado: pegou o raro e caro livro, empunhou uma esferográfica e, nas folhas de rosto, onde houvesse o nome do imperador, um sobrenome – “Sanches” – foi acrescentado...).

Outra “aproximação” com o autor d’“Os Timbiras”: Mudei-me para a Rua do Cisco, número 1.000, próximo à “casa onde morou o poeta Gonçalves Dias” (era assim que registrava uma placa acobreada e quase despercebida). Eu estava aí por volta dos 15 anos e, diariamente, subia e descia quase toda a extensão da rua, para trabalhar no Banco do Brasil, menor estagiário. Invariavelmente, passava pela casa. Ali mora(va) a família de dona Labibe e do seu Fauze Elouf Simão, que foi vereador e presidente da Câmara Municipal. Um dos filhos, Jamil Gedeon, hoje desembargador em São Luís, e eu fomos colega de turma em todo o 2º grau (ensino médio), no Colégio São José, o “colégio das Irmãs” (missionárias capuchinhas). Ali fui presidente do Grêmio Santa Joana d’Arc durante três anos (Roldão – Roldão Ribeiro Barbosa –, coincidentemente nome de personagem do livro sobre Carlos Magno, ganhara a presidência no primeiro ano e renunciara meses depois; eu assumi, como o segundo mais votado). O ex-secretário de Cultura Renato Meneses (e novamente presidente da Academia Caxiense de Letras) e o ex-presidente da Fundação Vítor Gonçalves Neto, Jorge Bastiani, também estudavam ali, nós todos sob o tacão da querida Irmã Clemens (Maria Gemma de Jesus Carvalho).

Pois foi o colega secundarista Jamil quem me disse, ainda no colégio, que encontrara “moedas e papéis” antigos em alguns pontos da casa de Gonçalves Dias.

Mas as referências à casa da Rua do Cisco não terminam aí. Dona Labibe, mãe do Jamil, foi secretária de Educação de Caxias, na administração de José Ferreira de Castro. Ali pelos bares do Artur Cunha e do Herval, no Largo de São Benedito, contava-se a história de que a secretária Labibe, pretendendo morar numa casa melhor e não querendo derrubar a “casa onde morou o poeta”, se esforçou junto ao seu superior, instando para que ele, como prefeito, adquirisse a casa e a tombasse como patrimônio histórico. Conta-se que a resposta do prefeito foi pouco cavalheiresca e fazia comparação entre comprar a casa onde Gonçalves Dias “morou” e tombar o riacho do Ponte, onde ele, o poeta, lavava as partes, digamos, pudendas.

Pode não ser verdade o fato, mas era verdadeiro o boato – e, pelo menos este, se cuida de preservar aqui. Resumo da ópera: a casa de Gonçalves Dias foi destruída e, no seu lugar, ergueu-se uma residência de feições modernas, “combinando” com o prédio da outra esquina, que abrigava as instalações de uma companhia de telecomunicações.

No mesmo ano da derrubada da casa, como réquiem à memória de Gonçalves Dias, escarafunchei o arquivo do fotógrafo Sinésio Santos (falecido), que ficava ali próximo ao Banco do Brasil, e consegui localizar negativos da residência. Pedi que fossem feitas cópias daquelas e de outras “vistas” de Caxias. Separei uma foto da ex-morada de Gonçalves Dias e a enviei, junto com um breve texto, para a Rede Globo de Televisão (Rio de Janeiro). Foi menos por denúncia e mais por sentimento de perda. Disseram-me que saiu um rápido registro no jornal do meio-dia ("Jornal Hoje"). Não confirmei.

Gonçalves Dias, sabemos, morreria com 41 anos, no dia 3 de novembro de 1864, afogado nas águas marítimas da baía próxima do município de Guimarães (MA), após o naufrágio do "Ville de Boulogne", o navio que trazia o caxiense, muito doente, de volta à sua terra.

Deus havia atendido o Poeta, que, na "Canção do Exílio", suplicara, 21 anos antes, em julho de 1843, que não morresse sem que visse de novo sua terra.

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Estas anotações, com algo de confessional, são uma episódica e epidérmica contribuição ao trabalho dos caxienses de todas as idades que teimam cuidar do que Gonçalves Dias merece (memória) na cidade que há 197 anos o viu nascer (História).

Parabéns, Caxias! Viva Gonçalves Dias!

* EDMILSON SANCHES

Fotos:
1) O poeta Gonçalves Dias (pintura).
2) Casa de sobrado onde morou o escritor, em Caxias, e, na esquina, a mercearia do seu pai.
3) A mesma casa, sem o sobrado, pouco antes de ser demolida.
4) Baixio dos Atins, região no município de Guimarães (MA), em cujo litoral Gonçalves Dias faleceu, como única vítima, por afogamento, do navio "Ville de Boulogne" (Cidade de Bolonha) em 3/11/1864.
5, 6 e 7) A Praça Gonçalves Dias, no Centro de Caxias, dia e noite, com a estátua do poeta.
8, 9 e 10) Edmilson Sanches, com outros estudiosos, em visita a Guimarães. Veem-se o escritor, pesquisador e engenheiro Raimundo Nonato Medeiros da Silva, ex-presidente da Academia Caxiense de Letras (falecido em 31/8/2019); a psicóloga, professora e escritora Dilercy Aragão Adler, presidente da Sociedade de Cultura Latina do Brasil; e o professor e escritor Weberson Grizoste, que fez mestrado e doutorado sobre Gonçalves Dias em Coimbra (Portugal), mesma universidade onde o poeta caxiense estudou e se formou em Direito.