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Estudantes do Pedro II são premiados em olimpíada internacional

Na semana em que o Brasil recebeu o mais importante evento mundial da matemática, o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2018, na sigla em inglês), com a entrega dos principais prêmios da área e da Medalha Fields, considerada o "Prêmio Nobel” da matemática, um grupo de 220 estudantes brasileiros cruzava o globo terrestre em direção a Bangcoc, na Tailândia, para representar o país na “Asia International Mathematical Olympiad” (Aimo).

Segundo a Rede do Programa de Olimpíadas de Conhecimento (POC), 110 estudantes brasileiros foram premiados na Aimo, a maior competição internacional de matemática, que reúne 2 mil estudantes do ensino fundamental e médio de 14 países. Os colégios são convidados a participar de acordo com o resultado na Olimpíada Internacional Matemática Sem Fronteiras, a edição brasileira da “Mathématiques Sans Frontières”, criada na França em 1989.

No Rio de Janeiro, uma delegação se destacou: a do Colégio Pedro II, uma instituição pública federal. Foram 29 estudantes de 13 a 18 anos, todos premiados, dos “campi” Centro, Humaitá II, São Cristóvão III e Tijuca II, que trouxeram na bagagem oito menções de honra ao mérito, 14 medalhas de bronze, cinco de prata e duas de ouro, entre as três conseguidas pelo Brasil. A melhor prova entre os brasileiros foi de Marlon Fagundes Pereira Júnior, do “campus” Tijuca II, que ganhou o prêmio “Star of Brazil”. O grupo de estudantes e de professores da instituição retornou na quarta-feira (8) ao Brasil.

Oportunidade

Em entrevista à Agência Brasil, alunos e professores disseram que foi uma experiência única e que as premiações superaram muito a expectativa. Eles citaram dificuldades, como a ansiedade, a dificuldade com o idioma, já que a prova foi em inglês, e a falta de esperança de bons resultados.

Aos 14 anos, Marlon, do 9º ano, já tinha ido para a Índia, no ano passado, participar de uma competição de matemática, mas não obteve o ótimo resultado alcançado agora. “Essas viagens, além de estudos, também servem pra gente aprender mais sobre a cultura, especialmente no caso dos países da Ásia, e são uma experiência que podemos levar para toda a vida”, diz Marlon, que pensa em seguir carreira na pesquisa em matemática. “Todo mundo que queira seguir a carreira de matemática, que vá em frente, porque é uma área muito bonita. É preciso não ver a matemática como um bicho de sete cabeças, mas como algo com que você pode se divertir”.

Sobre o prêmio pela melhor pontuação do país, o jovem afirma que não esperava nem ganhar medalha. “Eu dizia para um amigo, ‘acho que não vou ganhar nada, porque há muita gente que se preparou a vida toda para essa olimpíada’. Nessa hora, apareceu meu nome no telão e saí correndo, com o professor atrás com a bandeira. Foi uma grande surpresa, uma mistura de confusão e felicidade, serve como grande estímulo”.

Marina Sargineto Jucá, do 2º ano da Tijuca, levou um trabalho em grupo e trouxe o bronze da Tailândia. “A competição tem duas horas, em inglês, toda discursiva. A prova é um nível acima. O inglês acrescenta mais um desafio, porque, além da matemática e do tempo, há o inglês e o nervosismo atrapalham. Ir em grupo ajuda na confiança, a gente estudou em grupo também, fazendo as provas antigas.

Segundo Thamires Nascimento Monteiro, do 1º ano de São Cristóvão, a turma não estava com esperança de ter bons resultados na prova. “A gente acreditava que não ia passar, porque todo mundo sabe que os asiáticos estudam bastante, são muito focados, estávamos com muito medo. Depois da prova a gente achava que não tinha ido muito bem, mas, quando o resultado saiu, vimos que foi o contrário do que imaginávamos”.

Olimpíadas de conhecimento

A trajetória desses estudantes até a Aimo passa pelas olimpíadas de conhecimento, principalmente a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), a Canguru e a Matemática sem Fronteiras. A coordenadora-geral do Departamento de Matemática do Colégio Pedro II, Maria Helena Baccar, explica que todos os “campi” são estimulados a participar de todas as olimpíadas possíveis.

“Em cada ‘campi’ temos um ou dois professores responsáveis por cuidar disso. É um trabalho muito grande e dura o ano todo. Obmep, Omerj, Canguru, Matemática Sem Fronteiras, que organiza essa internacional, a OBM, que está dentro da Obmep, tem a Tubarão e da Unicamp, a Omif, dos institutos federais para os ‘campi’ que têm ensino médio integrado ao técnico”.

Lavínia Ponso e Vasconcelos, do 2º ano de Humaitá, diz que a medalha de bronze fez com que acredite que a matemática é um caminho a ser seguido profissionalmente. “O significado disso para mim é imenso. Me inspirei muito com essa medalha, essa viagem, essa olímpiada, a acreditar que vale a pena”.

Outro ouro da turma, Francisco José Martins de Lima, do 3º ano de São Cristóvão, participa de olimpíadas de matemática e coleciona medalhas desde 2013. “A Obmep me despertou mais para ver o quanto a matemática é incrível. Quando ganhei a medalha da Obmep, vi esse mundo se abrindo e, agora, cheguei a um nível que jamais esperava alcançar”, afirma ele, que teve na viagem a Bangcoc sua primeira experiência internacional. Francisco diz que gostaria de voltar para o colégio como professor de matemática.

Responsável pelo Programa de Iniciação Científica em matemática no “campus” Centro, Josimar Silva destaca que, em 25 anos de carreira, é possível notar a contribuição que as olimpíadas trazem para os alunos e para a quebra do estigma que a matemática tem.

“A gente vai conseguir reverter essa coisa de a matemática ser uma disciplina chata, dura, ruim, e tentar trazer o caráter lúdico que a matéria tem naturalmente. Matemática é um barato e a gente acredita que, com isso, essa coisa vai reverberar e a gente acabará divulgando a matemática mais bacana, mais prazerosa, mais lúdica mesmo”.

A coordenadora das olimpíadas no “campus” Centro, Ana Patrícia Trajano de Souza, lembra que, além de despertar o interesse para as matérias, as competições conectam mais os jovens à escola. “Alguns vão ser depois monitores, acabam se integrando também a outras coisas no colégio, passam a ser referência dentro da sala, os colegas se juntam, pedem mais ajuda, porque, às vezes, o diálogo com outros alunos ajuda”.

Luiza Costa Pacheco, do 3º ano da Tijuca, prata na Aimo, diz que os colegas achavam “surreal” alguém gostar de matemática. “Eu tenho ajudado e, depois que eles aprendem, percebem que dá pra entender matemática e se tiver um esforço, é até tranquilo. Pararam de ver a matéria como algo estranho”.

Thales Araújo de França, do 3º ano do Centro, só se arrepende de não ter começado antes a participar das olimpíadas, já que fez a primeira prova em 2016, ganhando um bronze na Obmep. “Ganhei medalha de prata agora, queria fazer a Aimo de novo no ano que vem, mas o 3º ano bateu à porta, então essa coisa de chegar mais tarde na matemática complicou agora. Mas tudo bem, a faculdade está aí, pretendo fazer engenharia mecânica ou matemática. Vou aproveitar as olimpíadas que ainda vão ocorrer, como a Unicamp, Obmep, Omerj, e vamos ver no que vai dar”.

Ensino público

A professora Maria Helena explica que o colégio garantiu a verba para a viagem dos estudantes e o departamento oferece aulas preparatórias. “A aula que a gente dá já é uma preparação, mas para os alunos que têm interesse, também fornecemos aulas preparatórias, dependendo do “campus”. Estamos dando condições para os alunos, com aquela educação pública que a gente acredita ser de qualidade”.

Para o professor Josimar, há 15 anos no Pedro II, é importante ver oportunidades como a viagem à Tailândia como um investimento em educação, e não um gasto para o erário. “O investimento que é feito, muitas vezes é visto como custo, mas, na verdade, é um investimento, e a gente não consegue dimensionar o valor disso. Porque o impacto que vai causar nas crianças que estão vendo tudo isso acontecer, a maneira como vão olhar o ensino da matemática, como esses jovens que estão aqui agora vão lidar com o ensino dos seus filhos, isso não tem como calcular”.

O professor Luís Amorim Duarte, da Tijuca, explica que vários projetos são criados por vontade e persistência do próprio corpo docente. “Existem aptidões, as pessoas se envolvem mais com áreas afins. Você poder oferecer a cada um, que vai se tornar um cidadão, que quer estudar matemática a fundo, ou estudar mais ciências sociais, isso é importante. A gente tem a oportunidade de sair um pouco do currículo básico”.

O professor Wallace Salgueiro, da Tijuca, diz que os bons resultados dos estudantes estimulam também os docentes a continuar com os projetos. “A gente fica extremamente estimulado, tanto que, no próximo ano, vamos ter três professores dando aulas de aprofundamento para olimpíadas, hoje é só um”.

De acordo com ele, outras disciplinas também começaram a incentivar os estudantes a participar das olimpíadas, como ciências, química, física, história, filosofia, levando a um ciclo virtuoso que estimula o aprendizado no ensino público. “De fato, é importante mostrar que o ensino público no Brasil tem ótimas referências. A gente mostra que é possível, é a prova cabal de que tem solução sim o ensino público de qualidade para o país”.

Maria Luisa Mendes, do 8º ano do Centro, diz que começou a fazer as olimpíadas com o objetivo de treinar para uma seleção para outra escola. “Eu ficava muito nervosa ao fazer prova. Minha mãe sugeriu que eu fizesse para treinar. Vi que foi dando frutos, que ia passando de fase mesmo sem estudar, então pensei ‘talvez eu deva continuar fazendo isso’.

Veja a lista dos estudantes do Colégio Pedro II na Aimo:
“Campus” Centro:

• Daniel Iorio Alves (honra ao mérito)
• Gustavo Santos Gonçalves (prata)
• Lucas de Melo Brito (bronze)
• Maria Eduarda Pureza Guimarães (honra ao mérito)
• Maria Luiza Imenes Nobre de Almeida (honra ao mérito)
• Mariana Paixão Batista (honra ao mérito)
• Sophia Lay (prata)
• Thales Araújo de França (prata)

“Campus” Humaitá II:
• Ernesto Rui Alpes Gurgel do Amaral (bronze)
• João Vitor Leal de Souza (bronze)
• Lavínia Ponso e Vasconcelos (bronze)
• Lucas Rodrigues de Miranda (bronze)
• Pedro Miguel Moraes Vilella da Costa Braga Santiago (honra ao mérito)
• Tárik Haddad (honra ao mérito)
• Yan Gabriel Inagaki de Souza (bronze)

“Campu”s São Cristóvão III:
• Aline Alvarenga Sanches (prata)
• Ana Clara de Oliveira Campos (bronze)
• Davi Silvério Mascarenhas (bronze)
• Francisco José Martins de Lima (ouro)
• Ícaro Gabriel Moura Dias (honra ao mérito)
• Lucas de Lyra Monteiro (bronze)
• Thamires Nascimento S. Monteiro (bronze)

“Campus” Tijuca II:
• Carlos Eduardo Farias da Costa (bronze)
• Felipe de Faria Teixeira (bronze)
• Guilherme Scorza da Silva (bronze)
• Luiza Costa Pacheco (prata)
• Marina Sangineto Jucá (bronze)
• Marlon Fagundes Pereira Júnior (ouro, melhor prova do Brasil, prêmio Star of Brazil)
• Polyana Ferreira Freire (honra ao mérito)

(Fonte: Agência Brasil)