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Abril, 22 – Dia Mundial da Terra*

UM CANTO DE AMOR, REFLEXÃO E DOR PARA A HUMANIDADE

–  Leia. Encante-se. Impressione-se. Reflita.

* * * *

– Cientificamente, não há como negar: somos todos irmãos. E mais: você, que me lê neste instante, tem, em seu corpo, parte do universo. Tem partículas que eram do corpo de Cristo – e também do solado dos pés de Judas. Seu corpo tem um algo de Teresa de Calcutá – e também de Adolf Hitler.

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Há, na “internet”, um vídeo – de conteúdo ou inspiração nazista – que é um entre aqueles que mais me tocam. Me dilaceram. Um desses que me deixam atarantado, sem alternativa sobre o que fazer – e, assim, torno-me um ser líquido e incerto. E choro...

O vídeo(*) mostra pessoas inteiramente nuas, inclusive diversos idosos e crianças, todos colocados em uma espécie de carro-forte. Depois de trancadas aquelas pessoas, um homem acopla uma mangueira que vai do cano de escapamento a um buraco na parte traseira do veículo. Com o carro andando em círculo, a fumaça inunda e preenche toda a carroceria, sufocando e, enfim, matando as pessoas. Antes, ouvem-se gritos desesperados, terríveis, lancinantes, dolorosos... até o silêncio final. Horror dos horrores. O carro é um campo de concentração ambulante.

*

Desde 1970, existe uma data chamada Dia da Terra, ou, oficialmente, Dia Internacional da Mãe Terra, uma data mundial (22 de abril) reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Dezenas de anos depois da criação desse dia simbólico, o que estamos fazendo com o único (até agora) planeta que nos oferece as mais perfeitas (ou as menos imperfeitas) condições de sobrevivência? Também, o que estamos fazendo-nos a nós mesmos, uns COM os outros e uns CONTRA os outros?

No geral, vivemos uma vida sem maiores – e melhores – reflexões. Vivemos para comer, beber, dormir, trabalhar, divertir-se e copular – e, no mais das vezes, fazemos mal tudo isso...

Para fazer só isso, Deus não precisava criar os seres humanos. Bastaria parar a Criação nos porcos.

Ora, se entre todos os elementos da Natureza, o Ser Humano é o único que tem ciência de si mesmo, que sabe de sua finitude e do fim de tudo (vem aí o Big Crunch, que destruirá a Terra), se, com toda essa sabença, o Ser Humano comporta-se tão autodestrutivamente, qual a razão de ele existir?

Essa e algumas outras são das principais das questões até hoje não respondidas pela Humanidade. Nem cientistas, nem filósofos, nem religiosos... – ninguém tem a resposta “completa”, conciliadora, atenuadora, pacificadora das dúvidas e inquietudes que ainda assolam os que se dão ao “luxo” de pensar(-se) criticamente.

O Dia da Terra só faz sentido para o Ser Humano, que o criou e que da Terra deve(ria) fazer o melhor uso. Pensar nos rumos que estamos tomando. Nas coisas ruins que estamos fazendo. No bem que deixamos de fazer.

É claro, não se está querendo ou sugerindo aqui que passemos, todos nós, a ser uma multidão de ascetas, um magote de exegetas, uma ruma de eremitas, uma turma de ermitões, de sábios, de pensadores. Uns 15 minutos diários – ou UM POR CENTO dos 1.440 minutos por dia que temos –, se fossem dedicados à reflexão, meditação, leitura, conversa “séria”, talvez bastassem para nós e nosso mundo melhorarmos, a partir da melhoria de nossas reflexões e ações. Se toda ação gera uma consequência, toda inação também...

Há tantos universos no universo de nosso planeta... Veja o ponto sobre a letra “i” nesta frase. Pois nesse pingo, e apenas nele, quando impresso, estão contidos uns 500 BILHÕES – repita-se: QUINHENTOS BILHÕES – de prótons, que é uma das partículas essenciais na constituição da matéria (nosso corpo, por exemplo). Apesar de nossa mania de grandeza, nós seres humanos somos feitos de miudezas, de miuçalhas. Não é de estranhar que, embora as grandes e boas emoções, ações e realizações, sejamos tão aptos a cometer as mais minúsculas das decisões, os mais gigantescos dos absurdos.

Vivemos permanentemente sobre o fio – amolado – da navalha...

Nossa vida, nosso planeta dependem de milésimos percentuais. Asseguram os cientistas: se parte do hidrogênio, exatamente 0,007% (SETE MILÉSIMOS percentuais), não se convertesse no elemento químico hélio, nem a vida, nem nós, nem a Terra, nem o Universo existiriam.

Se essa conversão de hidrogênio em hélio fosse da ordem de 0,006% (SEIS MILÉSIMOS percentuais) não ocorreria qualquer transformação e o Cosmos seria só hidrogênio e mais nada. Se, alternativamente, fossem convertidos 0,008% (OITO MILÉSIMOS percentuais) do hidrogênio em hélio, já o hidrogênio teria se acabado.

QUEM e COMO se fez essa “dosagem” exata de 0,007%?

Dependemos do que é infinitamente pequeno. Somos pequenos.

Apesar de sua área de 510 MILHÕES E 100 MIL quilômetros quadrados e de seu peso (massa) de 5,9 SEXTILHÕES de toneladas (ou 5.972.000.000.000.000.000.000), nosso planeta Terra é quase um nada, um cisco, um grão de poeira, um “pálido ponto azul” (Carl Sagan) na imensidão do Universo conhecido – que tem o tamanho, por enquanto, de astronômicos 1,6 SEPTILHÃO de quilômetros de diâmetro. Em algarismos: 1.600.000.000.000.000.000.000.000.

Nesse meio é que viceja nosso planeta e nossa galáxia, a Via Láctea, que é uma entre, estimativamente, outros 140 BILHÕES de sistemas estelares isolados, que podem conter uns 400 BILHÕES de estrelas como o nosso Sol, sem falar em um número infindável de planetas. (Vale lembrar que “estrela”, cientificamente, não é aquele ponto brilhante que, em geral, vemos à noite; “estrela” é aquele corpo celeste que produz e que emite energia – como o faz, a 149 MILHÕES E 600 MIL quilômetros de distância, o nosso Sol, sem o qual a vida não existiria na Terra, pelo menos não do jeito que a conhecemos...).

As estrelas têm muitos mistérios... Só podemos, a olho nu, ver, no máximo, SEIS MIL delas. Precisaríamos de um binóculo para ampliar o campo de visão para algo em torno de 50 MIL. E telescópios maiores e melhores para vermos, maior e melhormente, mais estrelas, astros, planetas, cometas, asteroides...

As estrelas e seus mistérios... Nossa lógica comum quase sempre rejeita ou não aceita o que a Ciência já tem como certo.

Por exemplo, no caso da estrela de nêutrons (que é outra das partículas do núcleo atômico), se você pudesse tirar apenas uma colher da matéria que está no centro dessa estrela, essa simples colherada teria o peso de 90 MILHÕES de toneladas, ou 90 BILHÕES de quilogramas!

Quase nada sabemos do que aconteceu há 4 BILHÕES E 600 MILHÕES de anos, quando se formaram uns 24 BILHÕES de quilômetros de diâmetros de gás e poeira (vindos de onde? feitos de quê, por quê e por quem?). Desse e das “coisas” que aconteceram com esse “material” viemos nós...

Nós... Somos feitos dos mesmos átomos que estão e um dia estiveram no espaço infinito, no Cosmos, no Universo, nos Céus... Mais de 100 BILHÕES (100.000.000.000) de seres humanos já existiram/viveram na Terra. Para cada um de nós que ainda estamos vivos, outros 16 morreram.

Nosso corpo é constituído de 10 QUATRILHÕES de células (10.000.000.000.000.000), resultado de 47 duplicações a partir da primeira, quando a célula inicial se dividiu em duas e, com as novas duplicações, terminaram sendo o que você é, o que nós somos. E em praticamente todas as células que formam nosso corpo, em cada uma delas, tem DOIS METROS de DNA, o ácido que armazena e transmite as informações genéticas.

Em cada ser humano, bem embrulhadinho, existem mais ou menos 20 MILHÕES de quilômetros de DNA, extensão correspondente a 26 viagens ida e volta da Terra à Lua. Os 3 BILHÕES E 200 MILHÕES de letras de codificação de apenas uma extensão de DNA permitem tantas combinações que, para escrevermos em números, este teria de ter o algarismo 1 acompanhado de mais de TRÊS BILHÕES de zeros...

Que maravilha de maravilha é um corpo humano!...

Além dos nossos 10 QUATRILHÕES de células, um corpo humano tem outros 100 QUATRILHÕES de células, pertencentes a outros seres vivos, microscópicos, que carregamos juntos, para onde quer que vamos. Nós, os seres inteligentes, somos meros dependentes e hospedeiros das bactérias; não podemos viver sem elas... (Pasme: sozinha, uma célula bacteriana gera quase TREZENTOS BILHÕES de outras... em apenas um dia...).

Nosso corpo é feito de SETE OCTILHÕES (ou 7.000.000.000.000.000.000.000.000.000) de átomos. Cientificamente, matematicamente, fisicamente, quimicamente, biologicamente, geneticamente, não há como negar: somos todos irmãos – no mínimo, parentes. Uma família só.

E mais: você, que me lê neste instante, tem em seu corpo parte do Universo, o brilho das estrelas. Tem partículas que eram do corpo de Cristo – e também do solado dos pés de Judas. Seu corpo tem um algo químico-físico de Teresa de Calcutá – e também de Adolf Hitler...

No instante em que você se coça, que rola pela cama ou rede ou tapete, no momento em que beija apaixonadamente ou quando chora solitariamente, no instante em que aspira com fervor ou espirra com ardor, algo em você é ou deixou de ser santo e pecador, sonso ou safado; algo veio para ou algo saiu de você, algo que já esteve em um grande homem ou uma grande mulher da História ou em uma pessoa anônima, invisível, que ajudou a construir ou destruir, a tornar melhor ou pior o espaço em que vive e o que vive no Espaço.

Tudo que é ou está, tudo o que neste instante faz você (pele, pelo, carne, ossos, músculos, nervos etc.), é algo que já foi parte de galáxias, estrelas, algo que já foi ou esteve em outro ser humano, é algo que o será em um novo corpo... Inútil negar.

“Não há nada de novo sob o Sol” – diziam os latinos, repetindo o Eclesiastes bíblico. Não há nada de novo sob o Sol... nem sobre, nem dentro, nem ao redor dele.

Sem nenhuma novidade, continuamos arrasando nosso planeta. Poluímos a água, empesteamos o ar, contaminamos a terra, infectamos nosso corpo.

No nosso Planeta, temos à nossa disposição menos de um por cento (1%) de água potável do total de UM SEXTILHÃO E DUZENTOS E SESSENTA QUINTILHÕES (1.260.000.000.000.000.000.000) de litros de água existente no planeta – e o que estamos fazendo?

Temos CINCO QUATRILHÕES E DUZENTOS TRILHÕES (5.200.000.000.000.000) de toneladas de ar – e o que fazemos?

E há uma santíssima trindade de três 3:

sem ar, não passamos dos TRÊS MINUTOS;

sem água, dificilmente duramos TRÊS DIAS;

e sem alimento, não resistimos TRÊS SEMANAS.

Portanto, os dois elementos mais urgentes e essenciais – ar e água, nesta ordem – foram naturalmente (e divinamente) nos dado DE GRAÇA... e não sabemos valorizar, conservar, proteger o que de graça nos foi dado e sem o que não podemos existir – exceto como pó, como átomos, mortos...

Dos QUATRO BILHÕES E SEISCENTOS MILHÕES de anos de existência da Terra, segundo a Ciência, existe vida (vegetal / animal / fúngica) há TRÊS BILHÕES E SETECENTOS MILHÕES de anos.

As espécies vivas, vegetais e animais sobretudo, chegam a bilhões (TRINTA BILHÕES) ou a trilhões (QUATRO TRILHÕES).

Dos seres unicelulares ou multicelulares, cada forma de vida tinha/tem um papel, uma função. Mas a imensa maioria já foi extinta e 99,9% dela ainda não tiveram descoberto um registro de sua passagem por aqui.

*

A vida é um milagre – a do planeta Terra e a nossa. Se você acha que viver é uma aventura, se você acha que viver é uma luta, pare um pouco pra pensar: viver pode não ser tão fácil, mas nascer, ser gerado e expulso do ventre materno, é que são elas.

Para começo de conversa, viver é praticamente uma impossibilidade matemática – tal é a chance de VOCÊ estar vivo, isto é, ser você o ser que nasceu.

Afinal, a Ciência estima que havia, pelo menos, outros TREZENTOS A QUATROCENTOS MILHÕES de seres humanos potenciais, prontos para se tornarem gente (estudos científicos dão um número de 40 milhões a 400 milhões de espermatozoides ou microgametas em uma ejaculação). Qualquer uma dessas células reprodutoras masculinas – e até mais de uma, no caso de gêmeos – poderia ter chegado ao óvulo e, nove meses depois, ter nascido já bebê feito. Poderia ser outra criança, outro recém-nascido... mas nasceu você.

Ante tantas possibilidades de 40 MILHÕES a 400 MILHÕES, logo eu ou você termos nascidos é quase uma irracionalidade, é quase impossível.

E como celebramos essa “impossibilidade”, a vida... a NOSSA vida?

Não há moral, não há ética na Natureza. Isso tem de ser criado por seres humanos – nós. Quanto “melhor” for essa “ética”, quando mais “respeitosa”, tolerante, não predadora for essa “moral”, tanto melhor para nós, para nosso planeta – que, vamos estimar, completou em 22 de abril de 2024, uma segunda-feira, QUATRO BILHÕES, SEISCENTOS MILHÕES E SETE ANOS.

Dê um bom presente para o seu, o nosso planeta. Aliás, SEJA um bom presente para ele.

Lembre-se: você precisa da Terra. A Terra, sob qualquer hipótese, não precisa de nós.

Nós...

Na vastidão do Universo, nós, humanos...

... – arrogantes – e, ao mesmo tempo, maravilhosos...

... – sociais – e, ao mesmo tempo, solitários seres...

Nós.

Sós.

Pós.

* EDMILSON SANCHES

OBS.: A maior parte dos números deste texto está em “Breve História de Quase Tudo”, de Bill Bryson (Companhia das Letras, 541 páginas, 2005). Alguns cálculos foram feitos por Edmilson Sanches.

(*) O vídeo mencionado no início deste texto é o curta-metragem “The World of Glory” (Mundo de Glória), do diretor sueco Roy Andersson, lançado em 1991. Não é mera coincidência qualquer semelhança com os 2 milhões e 700 mil judeus que foram mortos por gás venenoso e fuzilamento pela Alemanha nazista. Sob a alegação de que deveriam tomar banho e que receberiam roupas limpas, os judeus eram aprisionados nus em grandes galpões, após o que se ligava o gás venenoso e matavam-se por asfixia centenas e centenas de milhares de homens, mulheres e crianças absolutamente indefesos.