– UM HOMEM, DOIS SÉCULOS
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A partir do meio-dia de hoje, 22 de fevereiro de 2026, e durante toda a tarde, o trabalho, a simplicidade, a honestidade, a amizade, encarnadas em uma só pessoa, serão alvo de homenagens em casa de eventos em Imperatriz, Maranhão. Pelo menos, 250 convidados de norte a sul do país, sobretudo filhos, familiares, autoridades de alto escalão da Política e da Administração Pública estadual e federal, e os necessários e valorosos amigos de jornada, todos estarão abraçando e aplaudindo a força, a resistência, o valor e o exemplo de um grande homem de imensos CEM ANOS de idade, que se completam exatamente neste último domingo do segundo mês do vigésimo sétimo ano da Era 2000. Trata-se de LUÍS ANTÔNIO MADEIRA, o LUÍS ALEIXO, que, sem ligar para estatísticas ou nem saber da existência delas, ultrapassa – com boa saúde, notável lucidez e uma certa galhardia cabocla – a marca forte, simbólica mas sobretudo real, de um século de existência, vivido e vencido na labuta pesada de pequeno produtor rural, na formação, fixação e ampliação, com a esposa, dona Elizabeth Torres Madeira, de uma família de nove filhos (seis vivos), filhos estudiosos, inteligentes, dedicados ao trabalho e à causa pública, três médicos, uma advogada, uma assistente social, um administrador – todos gerados, gestados e geridos em um lar cujos pais, sem maior formação escolar, foram e, com a permanência de seu Luís, continuam sendo os professores mais respeitados, mais devotados, os únicos insubstituíveis, pois que titulares das disciplinas que não são abraçadas pelas escolas: Fé, Bom Comportamento, Valor, Exemplo, e outras, cujo aprendizado se veem no temor a Deus, obediência aos pais, cuidado com os irmãos, respeito aos mais velhos, dedicação aos estudos, contribuição com trabalho dentro de casa e na roça...
Sobre esse homem, algumas memórias com ele e filhos dele, esta talvez um bom modo de falar de um pai, que é dizer de seus (bons) filhos.
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“– Então, é você quem vai fazer meu cadastro?”
“– Sim, seu Luís, fazer, refazer, renovar todos os anos, com a graça de Deus!”
À minha frente, em pé (e logo o convidei a sentar-se), estava Luís Antônio Madeira, o seu Luís Aleixo, como era conhecido, pois seu avô paterno chamava-se Aleixo Antônio Madeira. E foi mais ou menos esse o diálogo inicial com aquele pequeno produtor rural que há décadas pelejava em sua terrinha no povoado Tanque, em Buritirana, município de 820 km2 e 13 mil habitantes, próximo a Imperatriz, no Oeste maranhense.
Estávamos ali, no pavimento superior da agência do Banco do Nordeste, na avenida Getúlio Vargas, centro de Imperatriz. Não sei bem se eram os finais da década de 1970 ou os meados dos anos 1980; o certo é que, em relação ao seu Luís Antônio, a Graça divina lhe foi renovando o contrato com a vida e eu, renovando o cadastro para os financiamentos bancários em favor daquele operoso trabalhador.
E não é que, quase cinco décadas depois, neste 22 de fevereiro de 2026, ele, Luís Antônio Madeira, completa um século de vida!... Essa contagem, menos de 40 mil homens e mulheres a atingiram neste Brasilzão de cerca de 215 milhões de habitantes. Fazendo as contas, calculando o percentual, 40 mil correspondem, no total de 215 milhões, a 0,02% – ou seja, dois centésimos percentuais. É quase nada, e por isso é muuuuito!
E essa glória se amplia ainda mais em termos de população da Terra. Quando seu Luís estiver soprando as três velinhas com o número “100”, e o povo todo cantando “Parabéns” para ele, o total de gente viva no planeta, pelos algarismos crescentes do conhecido e reconhecido “site” Worldometer, deverá estar aí por volta de 8 bilhões e 280 milhões de seres humanos... Destes, apenas uns poucos milésimos – ou exatamente 0,007%, em 2023 – estarão com 100 anos ou mais (em 2024, eram 588 mil centenários vivos neste mundo, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas – ONU). Que nome, que qualificativo se deve aplicar a quem atinge essa marca verdadeiramente miraculosa? Para seu Luís, o adjetivo é um só: merecido.
Luís Antônio Madeira nasceu em 22 de fevereiro de 1926. Era uma segunda-feira, início de semana. Nasceu como quem já queria trabalhar, pois descanso era para a mãe... Naquele mesmo ano nasceu a atriz Marilyn Monroe (morreu com 36 anos, em 1962). Também em 1926, Pablo Neruda, notável escritor chileno, lançou dois livros com sugestivos títulos: “O Habitante e Sua Esperança” e “Tentativa do Homem Infinito”. Neruda (1904-1973) morreu aos 69 anos. Dos “famosos” nascidos em 1926, dois tentaram ir na mesma toada de seu Luís, mas não o alcançaram nesta longa estrada da vida – mudaram de existência aos 91 anos: o comediante norte-americano Jerry Lewis e a atriz brasileira Beatriz Segall.
Mas seu Luís não é artista; no máximo, deve ter sido arteiro, quando menino, na cidade onde nasceu – Passagem Franca, filha de Pastos Bons e neta de minha terra natal, Caxias. (Até sua autonomia político-administrativa, Pastos Bons era parte de Caxias. Embora Passagem Franca, como distrito, seja de 08 de maio de 1835, somente cem anos depois, em 03 de junho de 1935, é que teve seu ato definitivo de elevação à categoria de município, após reveses na sua autonomia política. Portanto, de certo modo, sendo de 1926, seu Luís Aleixo nasceu antes de o seu município nascer...).
Nas fotos mais recentes de seu Luís (re)vejo o rosto com os mesmo traços de bondade, gentileza, amabilidade... Uma afetividade natural e não circunstancial, sentimento espontâneo que, de tanto ser, não é mais expressão de um momento, mas, sim, marca e modo permanente, estampado no rosto.
Naqueles idos dos anos 1980, às vezes, eu visitava seu Luís e família na Avenida Bernardo Sayão. em uma casa bem simples, cujo terreno, parece-me, pertencia ao filho Sebastião em sociedade com um nosso amigo comum, empresário. Recordo-me de um peitoril onde eu me sentava e conversava com alguns dos filhos, em especial com o Luís, mais novo dos homens. Falávamos sobre o futuro que pulsava nele, pois queria ser médico também, a partir do exemplo do primeiro irmão. E o Luís tornou-se o que queria ser: formou-se em Medicina na Universidade Federal do Maranhão, especializou-se em Oftalmologia e há mais de vinte anos mora em Marabá, onde é titular de clínica de referência na sua especialidade.
Conversava com a Terezinha, mulher trabalhadora; parecia ter herdado o sorriso do pai. Seu irmão Sebastião certa feita, ali nos anos 1980, me disse que a Terezinha iria montar e dirigir um amplo e agradável estabelecimento, tipo bar com petiscos e refeições ligeiras, na Rua Sergipe, em frente ao portão da garagem do Banco do Nordeste, no valorizadíssimo centro imperatrizense. O terreno era do Sebastião e ele me pediu sugestão de um nome para o futuro local de descontração e encontro com amigos. Não demorei e sugeri: “Chopp Center”. Curto. Locacional. Dizia o produto (chope, cerveja, bebidas) e dava o rumo (o centro da cidade). O grande terreno foi cimentado, ergueu-se a obra, preservaram-se as altas e frutíferas mangueiras, instalaram-se os equipamentos, pôs-se o mobiliário, e a onipresente Terezinha deu aulas de bom atendimento, com o sorriso herdado do rosto e bom humor paternos. Anos depois, Terezinha Madeira, advogada, passou a dirigir seu próprio escritório de advocacia em Imperatriz.
Com o filho Sebastião Torres Madeira as conversas foram mais constantes. Lembro-me de que, nos anos 1980, ele me abordou na Avenida Getúlio Vargas e perguntou-me se eu era membro do Círculo do Livro, empresa do grupo da Editora Abril, que vendia livros em boas edições para quem era afiliado ao clube. Respondi positivamente ao jovem médico urologista (graduado em Fortaleza, especializado no Rio de Janeiro). Ele me disse, em contrapartida, que também era membro. A partir daí, além de cliente da agência bancária em que eu trabalhava e o atendia (nos tempos em que ter “cheque especial” era algo economicamente e pessoalmente meritório e socialmente relevante), a partir dali conheci um dos mais qualificados leitores de livro. Tanto em quantidade mas sobretudo em qualidade, Sebastião – que, como eu, não era filho de pais consumidores de literatura – formou silenciosamente, tão silenciosamente como quem lê em silêncio, um patrimônio de muitas leituras, leitura de grandes obras. Se ia pegar o avião e nele passar horas na poltrona da aeronave em voo ou na poltrona dos aeroportos em espera, por que não iniciar logo o voo e a viagem nas asas da imaginação e do conhecimento, a partir daquele diálogo mudo dos olhos com as páginas? Por que não? Sim, em centenas, senão milhares, de horas de voo, Sebastião observou e absorveu conteúdos, conhecimento(s), história(s); viu com olhos mentais personagens de ficção e personalidades da vida real; ouviu mudamente sons de amores, ais de dores; acompanhou protagonistas e coadjuvantes em seus pensares, penares, pesares; testemunhou casos e acasos; pousou e repousou nas folhas brancas e no papel pólen pintados de textos formados de letras de “A” a “Z”, de algarismos de zero a dez e até de outros caracteres, além de imagens. Quando presidente da Associação Médica de Imperatriz, liderou a revolta de milhares de imperatrizenses inconformados com o assassinato de seu colega médico e nosso amigo comum José Itamar Santos Guará, em 12 de dezembro de 1990. A partir desse movimento, começaram a ver no médico intimorato que foi menino no povoado Tanque uma consistente opção para outras lutas, a partir da política. Por conta disso, em meio a uma conversa sobre futuro político e outras coisas, em frente à sua clínica na Avenida Dorgival Pinheiro de Sousa, sugeri ao moço Sebastião que tirasse do braço esquerdo um relojão pesado, de ouro, e retirasse do rosto aqueles óculos muito grandes e muito escuros, que não lhe deixavam ver os olhos, as olheiras e o olhar... Inteligente, sensível, Sebastião ponderou e seguiu a recomendação – que ele, vez ou outra, me relembrava e agradecia. A sugestão deve ter contribuído para uma mais franca, mais direta interação com o povo, com os eleitores – sem barreiras nem detalhes vistosos, ostentosos. Foi eleito e reeleito: quatro vezes deputado federal, duas vezes prefeito de Imperatriz, a maior cidade maranhense, após a capital.
Com o filho Levi Torres Madeira as conversas são, até hoje, emolduradas pela satisfação do (re)ver-se, (re)encontrar-se, em Imperatriz e em Fortaleza, para onde o médico oftalmologista mudou-se e onde se destaca com a excelência de sua técnica médico-cirúrgica e a decência de seu atendimento pessoal e profissional. Além de cirurgião de mãos hábeis, Levi é poeta de mão cheia. Cordelista de primeira, tem dezenas de trabalhos publicados, seja em suporte impresso ou virtual, em espaços na Internet. Rotariano de elevado senso de servir, de “dar de si antes de pensar em si”, Levi e eu integramos o mesmo clube de Rotary em Imperatriz, do qual ele foi presidente, com uma administração inovadora, motivadora, realizadora. É claro, levou a competência médica e a capacidade administrativa para Fortaleza, onde reside há décadas, mas mantendo as atividades de consultas e cirurgias em Imperatriz, aliás, cidade onde tudo começou, no seu ofício de médico dos olhos.
O Irismar é uma figura!... Administrador, sabe de muita coisa, pois que deu aulas de autoaprendizagem e altos aprendizados nas atividades diversas que empreendeu ao longo da vida, nas divers setores da Economia – entre os quais Indústria e Serviços. Às vezes, eu me demorava em conversas com ele. Procurava saber de seu Luís e esposa, dona Elizabeth (falecida em setembro de 2020). Com o Sebastião nas andanças e atividades políticas e político-administrativas, o Levi e o Luís fazendo os outros enxergar melhor o mundo, os demais irmãos em ocupações profissionais e domésticas, era o Irismar quem mais eu via, aqui e acolá pelas ruas e em seu local de trabalho (“parking”, administração de estacionamento). Deu um dia de, por horas, ele deixar o estacionamento aos provisórios cuidados meus e de seu pai, que chegara depois, e lá foi o Irismar resolver assuntos de negócio nas redondezas. Nada de importante aconteceu, e as horas foram poucas para as conversas e risadas que seu Luís e eu deixávamos fluir. Quase que seu Luís perdia a hora de buscar dona Elisabeth onde, apalavradamente, ele se comprometera em ir ao encontro dela...
Com Aparecida, a assistente social, tive menos interações. Discreta, víamo-nos e falávamo-nos vez ou outra no banco, na casa do Sebastião ou no sítio dos pais Elisabeth e Luís – que tiveram outros três filhos, falecidos: Dinária, José de Arimateia e Maria José, todos ao lado mãe, nos Céus, de onde zelam e pedem a Deus pelos seis filhos e irmãos que ainda existem e resistem neste lado de cá da Vida.
Pelos frutos se conhece a árvore: os seis filhos que cá embaixo estão e os três que lá em cima oram com a mãe são partes e páginas do livro da vida que teve e das vidas que Luís Antônio Madeira (conce)deu ao mundo, vasto mundo. Deve ser grande contentamento e sadio orgulho para um pai testificar, em vida terrena, os méritos, as vitórias, o valor dos filhos, aos quais pai e mãe dedicaram tanto tempo, tanto esforço, tanta dor, tanto amor...
De outra parte, da parte de amigos e conhecidos, resta dizer que toda vida, mesmo a de eremitas e ermitões, é resultado do contato com outras vidas. Efêmeros ou permanentes, transitórios ou passageiros, ralos ou intensos, pessoais e profissionais, sociais e que tais, esses contatos vão tomando corpo, como as partículas que formam átomos, que formam células, que formam tecidos, que formam moléculas, que formam órgãos, que compõem sistemas que formam tudo em nós e no Universo. A partir mesmo da concepção, uma vida é a soma de outras vidas, não importa o quão pouco ou muito houve de interação – pois, consciente ou inconscientemente, todas as vidas permanecem em cada vida. Os cem anos de vida de seu Luís Antônio Madeira levam à reflexão de quantas pessoas na vida foram tocadas, diretamente por ele, por sua esposa e por seus filhos, em gestos, palavras, atos, pensamentos, orações...
“Madeira”, o sobrenome da família de seu Luís e dona Elisabeth, é palavra que vem do Latim “materia”, nome que antigamente se dava ao tronco da árvore, passando a significar coisa palpável, substância sólida e, por extensão, aquilo que se pode pegar, segurar, ter e reter. Seu Luís é tronco, lenho forte e raiz profunda. Se os filhos lhe seguirem o palpável, contável, exemplo etário, o futuro terá outras comemorações centenárias. Amém.
“Subi ao monte, e trazei madeira, e edificai a casa”. A Bíblia, no Velho Testamento, traz essa lição simbólica de esforço, humildade, humanidade e reconhecimento da própria fragilidade. Seu Luís Antônio, o Luís Aleixo, subiu e desceu montes reais e simbólicos. Lavrou terra e madeira. Na rocha, edificou a casa. Constituiu e, mais que isso, fez permanecer unida a família, com laços espirituais que chegam aos Céus, em conexão com os familiares que lá estão.
Cem anos são para poucos, pouquíssimos. Para somente dois centésimos dos brasileiros. Para apenas sete milésimos da população mundial.
Seu Luís Madeira é mais que um homem de cem anos. É um ser de dois séculos: viveu três quartos do total de sua vida no século XX e já ultrapassou a quarta parte neste século XXI. Tornou-se membro de um clube exclusivíssimo, aquele das pessoas que têm cem anos ou mais e sabem que têm cem anos ou mais. Lucidez, como a de seu Luís, nessa idade, é condição abençoada, rara.
Às vezes, para se fazer algo, nem é preciso preocupação. É a tal história, na frase de Jean Cocteau: Não sabendo que era impossível fazer, foi lá... e fez. Nunca disseram ao seu Luís Aleixo que completar cem anos é quase uma impossibilidade matemática, tal o percentual minúsculo, microscópico, dos que chegam a um século de vida, embora a qualidade dos alimentos e medicamentos, da Medicina e seus procedimentos.
Sem tomar ciência das estatísticas, seu Luís apenas foi vivendo – e vai vivendo – a sua vida.
Neste 22 de fevereiro de 2026, fica meio sem sentido desejar para ele muitos anos de vida. Isso ele já tem.
Resta dizer, pedir que a Graça divina e os cuidados terrenos o conduzam com saúde, com paz e afetividade para os dias e anos que hão de vir – e que ele, Luís Antônio Madeira, os haverá de bem viver.
Grande abraço, seu Luís.
* EDMILSON SANCHES
Foto:
Seu Luís Antônio Madeira, à frente, com filhos, nos 99 anos, em cadeira de rodas utilizada preventivamente, pois ele mantém adequada mobilidade para a idade.