
O substantivo “cidade” e o adjetivo “maravilhosa” parecem que nasceram um para outro. Em Língua Portuguesa, essas duas palavras “nasceram” no século XIII, segundo datação de acreditados dicionários, como o “Houaiss”.
Já o título “Cidade Maravilhosa”, com que se identifica a cidade do Rio de Janeiro, tem, em publicações brasileiras e até que se documente assento anterior, registro desde 1904, em um verso que era parte de uma matéria do “O País” (na grafia da época, “O Payz”), jornal matutino que se publicava na capital carioca, à época Distrito Federal, ou seja, capital do Brasil.
O jornal, de muita influência, teve início em 1º de outubro de 1884 e fim de circulação em 18 de novembro de 1934. Mas, referindo-se ao Rio de Janeiro, a expressão “cidade maravilhosa”, segundo Alexei Bueno, escritor e editor carioca, diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro e membro do Conselho Estadual de Tombamento, o autor do primeiro registro (pelo menos até agora) é o militar e escritor italiano Edmundo De Amicis (1846-1908), que documentou a expressão em 1902, em artigo no suplemento “La Lettura”, do jornal “Corriere della Sera”, de Milão.
Em italiano, “cittá meravigliosa” é expressão comum, por óbvio, e integra títulos de livros como “Torino. Una città meravigliosa”, de P. Abrate, M. Centini e outros autores, obra publicada pela editora Ligurpress em dezembro de 2008. Mas antes, bem antes, em viagem que fez a Constantinopla (atual Istambul, Turquia), o escritor italiano Giovanni Battista Casti (1724-1803), também conhecido por Giambattista Casti, admirado com as belezas da cidade dos quatro impérios (romano, bizantino, latino, otomano), adjetivou a cidade de Constantino de “cittá meravigliosa” (“cidade maravilhosa”). Está em seu livro “Relazione di un viaggio a Costantinopoli”.
Edmondo de Amicis também esteve (muito depois de Casti) em Constantinopla, quando capital otomana, e em seu livro “Constantinopoli”, de 1877, igualmente a chamou de “la città meravigliosa e inaspettata” (“a cidade maravilhosa e inesperada”). Diga-se, sobre esse livro, que seu título original em italiano é “Costantinopoli, Milano, Treves”. Na tradução para o português (de Portugal), o título foi reduzido para "Constantinopla", obra publicada pela editora Tinta da China, de Lisboa, em 2017.
Em 1905, a escritora italiana Grazia Deledda, laureada com o Prêmio Nobel, escreveu sobre a capital de seu país: “[...] Roma, la capitale, la città meravigliosa, senza nebbie, piena di sole e di fiori” (“Roma, a capital, a cidade maravilhosa, sem neblina, cheia de sol e flores”. Está em “Nostalgie”, um dos romances que ela escreveu e publicou (editora Nuova Antologia, 1905).

Em 1950, foi a vez de outro italiano, B. Bernini, publicar sua obra “Una città meravigliosa”, pela editora Edizioni Gioventù Nuova, de Roma. Provavelmente o título se refira à cidade de Bolonha (Bologna), pelo que arrisco a presumir do título da obra em que Bernini foi referenciado: “Pionieri a Bologna” (Pioneiros em Bolonha), publicado, em 2015, pela editora Hit Studio.
A artista plástica contemporânea Emmanuelle Levesque pinta Paris e uma de suas obras se chama “Une ville merveilleuse” (“Uma cidade maravilhosa”).
Pois é... Como (en)cantou Gal Costa: “Tudo é divino, tudo é maravilhoso...”
Em 1913, a escritora francesa Jane Catulle Mendès publica “La Ville Merveilleuse”, com uma espécie de subtítulo: “Rio de Janeiro”. É a obra a quem se credita majoritariamente a autoria do epíteto “Cidade Maravilhosa” para a cidade, município e capital Rio de Janeiro. Mas, como o comprovam diversos registros, a francesa não criou o ajuntamento substantivo e adjetivo “ville merveilleuse” / “cidade maravilhosa”.
Em 1920, o escritor chileno Francisco Contreras Valenzuela (1877-1933) lança, em Paris, obra cujo título não tem a ver com Rio de Janeiro, publicado sete anos antes: “La Ville Merveilleuse”, com o subtítulo “Roman de la Vie Hispano-Américaine” (“romance da vida hispano-americana”). A editora francesa Hachette publicou, em 2018, a terceira edição dessa obra, em francês, como parte de uma “política de preservação do patrimônio literário francês implementada em parceria com a Biblioteca Nacional da França (BNF)”.
Mas foi a partir do escritor maranhense Henrique Maximiano Coelho Netto (1864-1934), nascido em Caxias, que se iniciou a popularização do epíteto "Cidade Maravilhosa" para o município do Rio de Janeiro, hoje capital do Estado de mesmo nome. Ele escreveu um livro com o título "A Cidade Maravilhosa". O poeta pernambucano Olegário Mariano anos antes do maranhense escrevera “Cidade Maravilhosa”, livro de poemas. (Tenho exemplar de ambos os livros).

Coelho Netto exercia, digamos assim, uma certa influência no Rio de Janeiro e até no Brasil todo, pela força de sua literatura. Por ser, à época, o mais lido escritor do país, superior mesmo a Machado de Assis. Por ser indicado ao Prêmio Nobel. Pelo fato de ser deputado federal de voz ouvida e respeitada. Por ser grande e apaixonado desportista e defendido o futebol brasileiro, chegando a entrar em brigas – literárias... – com escritores que eram contra o esporte. Por ser o introdutor do cinema seriado no Brasil, que deu origem às novelas e às séries de TV nacionais. Por ser defensor da capoeira e ser ele próprio um grande praticante de capoeira, o que foi decisivo para que a Polícia deixasse de desfazer rodas de capoeiras e deixasse de perseguir capoeiristas, passando a capoeira, por real influência de Coelho Netto, a ser admitida e praticada sem receio em todo o Brasil. Por não ter medo de se posicionar até mesmo em momentos polêmicos, às vezes sozinho, como no caso da revolta ou levante dos 18 do Forte (de Copacabana), como ficou conhecido o movimento de militares do Exército Brasileiro que se manifestaram contra Epitácio Pessoa, presidente do Brasil à época. Esse movimento deu-se na primeira semana de julho de 1922. Coelho Netto escreveu artigo para a edição do “Jornal do Brasil” do dia 9 de julho de 1922. Foi censurado. Mas nem por isso Coelho Netto deixou de se manifestar. No texto censurado (“Arrancada radiante”), exalta Coelho Netto: “Que povo não se orgulharia de possuir na raça tais leões?”
Cite-se, por oportuno, que, comprovadamente, é de Coelho Netto a expressão “Cidade Verde”, com que a capital do Piauí, Teresina, é conhecida e de cujo epíteto qual se regozija. Dessa expressão coelho-nettiana derivam o nome de vários empreendimentos públicos e privados no território teresinense.
Também se atribui a Coelho Netto (eu ainda não comprovei essa atribuição) o título de “Veneza Brasileira” à cidade de Recife, onde as ilhas, as pontes e o encontro dos rios Beberibe e Capibaribe trazem à capital pernambucana alguma semelhança com a fluvial Veneza italiana e suas ilhas, suas pontes e seus rios Piave e Po, este o maior rio da Itália.
Não há dúvida no fato de que, se não foi o autor do epíteto “Cidade Maravilhosa”, o caxiense nascido na antiga Rua da Palma (que depois recebeu seu nome) foi o responsável principal por sua divulgação. O livro ao qual se atribui, indevidamente, a origem do título, "La Ville Merveilleuse" (“A Cidade Maravilhosa”), de 1913, de autoria da francesa Jane Catulle Mendès, até este março de 2026 não foi traduzido para o português, embora a língua francesa fosse uma espécie de segundo idioma para os membros da elite carioca daquelas décadas iniciais do século XX.
Entretanto, se a escritora francesa não foi a primeira a usar a expressão "Cidade Maravilhosa" em relação ao Rio de Janeiro, ela foi a primeira a utilizar a expressão (em francês) como título de livro (veja-se cronologia mais abaixo).

Repetindo: as pesquisas mostram que, até provas em contrário, a expressão “Cidade Maravilhosa” foi criada ou primeiramente usada, por publicação brasileira, pelo jornal diário "O País", do Rio de Janeiro. Em uma edição no período de Carnaval de 1904 (dois anos após o texto do italiano De Amicis), uma reportagem trazia texto em versos septassilábicos onde, em um deles, lia-se:
"Terra sempre em polvorosa
Bem igual no mundo inteiro
Cidade maravilhosa
Salve o Rio de Janeiro”.
Esses versos eram parte de uma reportagem sobre os protestos contra as carrocinhas que pegavam os cachorros.
Numa rápida cronologia, é mais ou menos assim o percurso da expressão “Cidade Maravilhosa”, relacionada à antiga capital do Brasil:
– 1902 – Neste ano, o militar e escritor italiano Edmundo De Amicis (1846-1908) publica artigo no “La Lettura”, suplemento, do jornal “Corriere della Sera”, de Milão.
–1904, 16 de fevereiro, terça-feira de Carnaval – O jornal "O País" escreve: "Terra sempre em polvorosa / Bem igual no mundo inteiro / Cidade maravilhosa / Salve o Rio de Janeiro”.
– 1904, 4 de maio – O jornal “O País” escreve matéria, de título “No Palácio Monroe”: “Está ainda na lembrança de todos os habitantes desta cidade maravilhosa [...]”.
– 1907, 22 de maio – Nessa data, o jornal “A Notícia” (1894-1916), do Rio de Janeiro, traz reportagem onde consta a expressão “[...] os habitantes desta cidade maravilhosa [...]”.
– 1908, 29/30 de outubro – Jornal “A Notícia” publica a crônica “Os Sertanejos”, do escritor maranhense (residente no Rio) Coelho Netto. No contexto da Exposição Nacional, ele escreve a expressão "Cidade Maravilhosa". De um modo geral, a Imprensa daquela época utilizava os termos "cidade maravilhosa" ou "cidade maravilha". O nome oficial do evento era Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil. Ocorreu de 11 de agosto a 15 de novembro de 1908, no palácio da antiga Escola Militar da Praia Vermelha, bairro da Urca, Rio de Janeiro.
– 1909, 6/7 de julho – Nessa data, o jornal “A Notícia”, do Rio de Janeiro, em trecho da matéria “Dez Annos Atrás”, está: “[...] habitando uma nova cidade maravilhosa e salubre [...]”. A expressão “cidade maravilhosa” aparece também no mesmo jornal, em edições tanto de 1909 quanto de 1910.
– 1911, 20 de setembro a 6 de dezembro – Jane Catulle Mendès (1867-1955), escritora francesa, visita o Rio de Janeiro (capital).
– 1911, 21 de setembro – Edição dessa data do jornal “A Imprensa” traz entrevista com Jane Catulle Mendès, onde ela diz sobre o Rio de Janeiro, em francês: “est une ville merveilleuse” (“é uma cidade maravilhosa”). Jane estava no Brasil a convite, para fazer três palestras: “O heroísmo da mulher francesa”, “A parisiense” e “As mulheres de letras francesas”.
– 1913, 20 de março – Nessa data, o jornal “A Notícia”, do Rio de Janeiro, publica um artigo sobre as belezas da capital fluminense com o título inteiramente em maiúsculas: “A CIDADE MARAVILHOSA”. No texto, replica-se: “Cidade Maravilhosa! É a exclamação de todos que nos visitam.” E, no fim de parágrafo, com a ortografia de 1913: “[...] ilhas encantadoras de sua refulgente bahia e o mar se encher de elegantes yachts, como hoje as avenidas se enchem de automoveis, então ella poderá desafiar as que mais bellas o forem. Ella já é a cidade maravilhosa".
– 1913 – Jane Catulle Mendès (nome de solteira: Jeane Mette) publica na França, pela editora E. Sansot & Cie., seu livro "La Ville Merveilleuse – Rio de Janeiro" (214 páginas), uma coletânea com 33 poemas sobre a capital fluminense.
– 1922 – É publicada, pela editora carioca Pimenta de Mello, a primeira edição da obra “Cidade Maravilhosa”, livro de poemas de Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958), escritor e diplomata nascido em Recife (PE), primo do poeta Manuel Bandeira. A segunda edição sai em 1930, aumentada, pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo.
– 1928 – O escritor caxiense Coelho Netto publica o livro de contos "A Cidade Maravilhosa", pela Companhia Melhoramentos de São Paulo.
– 1930 – Realizada a exposição “Cidade Maravilhosa”, com pinturas de paisagens do Rio de Janeiro, de Manuel Faria Guimarães (1895-1980), pintor e desenhista nascido na capital carioca.
– 1933, 1º de setembro – Série de textos intitulada “Crônicas da Cidade Ma-ra-vi-lho-sa” passa a ser lida em programa do locutor César Rocha Brito Ladeira (1910-1969), na Rádio Mayrink Veiga. César Ladeira nasceu em Campinas (SP) mas atuava no Rio de Janeiro. Os textos das “Crônicas da Cidade Maravilhosa” (nome anterior: “Crônicas da Cidade Gozada”, que foi mudado), “ eram escritos por seu amigo Genolino Amado (1902-1989), escritor, jornalista e professor sergipano, que em 1973 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Os textos foram publicados em coluna da revista “O Malho” (1902-1954), do Rio de Janeiro.
– 1934 – Antônio André de Sá Filho compõe a marchinha "Cidade Maravilhosa". A música, a partir da década de 1960, foi oficializada como hino do Estado da Guanabara e tornada hino oficial do município do Rio de Janeiro em agosto de 2003, por lei da Câmara Municipal. André Filho era ator e músico (violinista, bandolinista, banjoísta, violonista, pianista, compositor e cantor). O arranjo da música de André Filho foi feito por Silva Sobreira para o carnaval de 1935. Ainda em 1934 a cantora e atriz Aurora Miranda (1915-2005), irmã de Carmen Miranda, grava pela Odeon a música “Cidade Maravilhosa”, com participação do autor da música, André Filho. A marchinha tornou-se grande sucesso até os dias atuais, com um estribilho que quase todo brasileiro conhece:
“Cidade Maravilhosa
Cheia de encantos mil...
Cidade maravilhosa,
Coração do meu Brasil!”
Da década de 1950 até 2008, a música “Cidade Maravilhosa” foi cantada, interpretada e gravada pelo menos 50 vezes por cantores e cantoras, maestros e orquestras, conjuntos e bandas, coros e corais, solistas (pianistas, saxofonistas...), brasileiros e internacionais, entre os quais Guerra Peixe, Radamés Ganattali, Maria Bethânia, As Melindrosas, Ray Coniff, Bily Eckstine, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Tião Macalé, Leo Gandelman, Daniela Mercury, Caetano Veloso, Detonautas...
– 1935, 6 de janeiro – Estreia no Teatro Recreio, com Aracy Côrtes, o espetáculo teatral musical “Cidade Maravilhosa”, inspirado nas “Crônicas da Cidade Maravilhosa”, escrito por César Ladeira e o compositor, caricaturista e desenhista carioca Antônio Gabriel Nássara (1910-1996). Aracy Côrtes era o nome artístico da cantora carioca Zilda de Carvalho Espínola (1904-1985).
– 1935 – Lançado o filme “Alô, Alô, Brasil”, com participação de Aurora Miranda, cantando “Cidade Maravilhosa”.
– 1954 – Lançado o “Rio - Cidade Maravilhosa”, álbum musical de estúdio, da gravadora Continental, com participação de cantores e cantoras como Maysa, Luely Figueiró, Nelly Martins, Jamelão, Os Cariocas, Ted Moreno, Albertinho Fortuna, Risadinha, Coral de Severino Filho. Foi relançado em 1960.
– 1960 – A marchinha “Cidade Maravilhosa”, de André Filho, é adotada como hino oficial do antigo Estado da Guanabara (veja no ano 1934, acima). O Estado da Guanabara existiu de 1960 a 1975 e seu território era o mesmo do atual município do Rio de Janeiro, que era a capital do Estado guanabarino.
– 1966 – Decreto do governo do Estado do Rio de Janeiro dá o nome “Catulle Mendès” a uma praça no Bairro de Campo Grande, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.
– 1987 – Realizado o filme “Alice na Cidade Maravilhosa”, de Alvarina de Souza Silva, nascida em Ceres (GO), em 18 de outubro de 1955.
– 1996, 27 de janeiro a 8 de março – Realizada a Taça Cidade Maravilhosa, competição de futebol entre times do município do Rio de Janeiro.
– 1998 – Realizado o I Open Cidade Maravilhosa, torneio de tênis no Rio de Janeiro.
– 1999, 22 de outubro – Data da Lei 2.904, da Prefeitura do Rio de Janeiro, denominando como Rua André Filho, compositor da música “Cidade Maravilhosa”, a antiga Rua Rachel Carson, e, ainda, denominando “Largo da Cidade Maravilhosa” ao “logradouro situado na confluência da Avenida Brás de Pina, Estrada da Água Grande e Rua Itapera”, no atual bairro Vista Alegre, Zona Leopoldina, norte do Rio.
– 2003, 12 de agosto – A Câmara Municipal do Rio de Janeiro, pela Lei nº 3611, oficializa a música “Cidade Maravilhosa” como hino oficial do município do Rio de Janeiro.
– 2012 – Realizado torneio de tênis Taça Cidade Maravilhosa Internacional.
– 2012, 13 a 18 de novembro – Realizado o torneio de futebol de praia Taça Internacional Cidade Maravilhosa de Beach Soccer, competição também conhecida como Taça Intercontinental Cidade Maravilhosa de Beach Soccer, Torneio Internacional Cidade Maravilhosa de Beach Soccer ou ainda Torneio Intercontinental Cidade Maravilhosa de Beach Soccer.
– 2016, 30 de julho – Lançado, na França, o filme "Rio de Janeiro, Ville Merveilleuse", de Pascal Cuissot.
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* EDMILSON SANCHES
Imagens:
Autores e os livros com o epíteto "Cidade Maravilhosa": a escritora francesa Jane Catulle Mendès e o caxiense Coelho Netto.