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Uma reflexão para o ano 2091*

A LÃ VERMELHA

– Segunda-feira, 27 de abril de 2026: Academia Imperatrizense de Letras, 35 anos

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Na parte ocidental da África, os pastores utilizavam um interessante sistema para contar suas ovelhas.

Cada pastor agrupava seu rebanho e, em fila, os animais iam passando, um a um. A cada ovelha que passava, uma concha era enfiada em uma lã branca. Quando chegava a dez, suspendia-se a contagem, tiravam-se todas as conchas da lã branca e colocava-se uma delas em outra lã, de cor azul.

Reiniciava-se a contagem e, a cada grupo de dez conchas na lã branca, correspondia a uma nova concha enfiada na lã azul. Quando esta, por sua vez, contasse dez conchas, à maneira do que acontecia na lã branca, também tinha todas as suas conchas retiradas e uma nova lã, agora de cor vermelha, recebia uma concha.

Parece claro que a primeira lã, a branca, reunia as conchas das unidades; a azul, a das dezenas; e a vermelha, a das centenas. Se a quantidade total de um rebanho fosse, por exemplo, 532 ovelhas, o pastor deveria ter cinco conchas enfiadas na lã vermelha, três na azul e duas na branca. A lã azul, portanto, era múltiplo de dez da lã branca e a vermelha, múltiplo de dez da azul. Não há registro do que vinha após a lã vermelha – talvez outra lã vermelha, ou talvez não houvesse, por justiça social, nem um pastor com mais de mil ovelhas…

No rebanho das eras, a Academia Imperatrizense de Letras (AIL) completa seus 35 anos neste dia 27 de abril de 2026 (mas a solenidade festiva de comemoração foi antecipada para o sábado, 25/4/2026). Se, em 2021, ao se completarem 30 anos, a AIL estava toda (de) azul, nesta segunda ela volta, de modo ampliado, a cobrir-se mais uma vez de céu e nuvem, ao ter cinco conchas na lã azul e três conchas na lã branca.

Trinta e cinco anos até pode não ser muito, mas já é representativo – dir-se-ia, já é suficiente para comprovar que Academias, quando com propósitos (bons propósitos), e trabalho (muito trabalho), são sim úteis e necessárias a uma sociedade.

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Desde o final da década de 1970 ou início dos anos 1980, no século e milênio passados (soa estranho isso), eu tencionava reunir um grupo de humanistas para desenvolver ações relacionadas à cultura de Imperatriz. Neste aspecto, a cidade permanecia sem um referencial mais consistente, institucionalizado, embora o município já contasse, em sua história, quase 140 anos, na data em que fundei a Academia Imperatrizense de Letras (27 de abril de 1991).

Eu procedia de Caxias, onde a cultura, sobretudo a cultura literária, assenta-se em bancos de praça, mina de rios e riachos, brota de brotos de flores, é recitada no farfalhar das folhas pinadas das palmeiras e gorjeia em cantos de sabiás… Com a alma impregnada disso tudo, estranhava que, sendo uma terra de também tantas riquezas, Imperatriz ainda não tivesse um símbolo de tradição que representasse uma delas – sua cultura literária. A Academia é esse –- embora não único – símbolo cultural.

Mas, inicialmente, antes de eu criar a Academia Imperatrizense em 1991, contatei pessoas e juntei alguns de seus escritos e lancei, doze anos antes, em 1979, o "Safra – Jornal de Literatura", de muitas intenções e poucas edições. Depois, na universidade, curso de Letras, criei, organizei e lancei a "1ª Antologia Literária dos Universitários de Imperatriz" em 1981, durante o Congresso Universitário que, pela primeira vez, era realizado em Imperatriz, por proposição minha defendida no Congresso anterior, em São Luís, onde defendi a interiorização dos congressos universitários, proposta vencedora, embora alguns votos contrários até mesmo de uma minoria imperatrizense.

Em ambos os casos – a edição do jornal e a publicação de antologia –, embora tenham existido e tenham documentado produção literária, nenhuma dessas ações persistiu nos anos seguintes, ao menos o suficiente para encher de conchas a primeira lã.

Mas, à medida que a Vida enfiava sua concha de anos na lã do Tempo, diversas outras ações culturais e comunitárias, individuais e coletivas, foram se somando no meu fazer cultural e social no município de Imperatriz. Hoje, para contar uma a uma essas tantas ações, a lã da História teria de ter outra cor, que não é nem branca, nem azul, nem vermelha.

No conjunto desses (a)fazeres, a Academia Imperatrizense de Letras é símbolo, é marca, é ação – e, com 35 anos, firma-se, senão como tradição, ao menos como a mais luzidia referência, o mais orgânico e organizado dos elementos do “sistema” cultural não oficial do município e mesmo da região, senão de todo o interior do Estado. Uma dessas ações luzidias, reluzentes, é o Salão do Livro de Imperatriz, o Salimp, que criei em 2003, em minha segunda gestão (“Envolver para Desenvolver”) como presidente da Academia. Inicialmente, na lista de projetos, distribuída para cada membro da Academia, o Salão tinha o nome de “Feira de Livros Semanal”, evoluiu para “Semana Imperatrizense do Livro” (semana de dez dias…), até passar para “Salão do Livro de Imperatriz, nome que se mantém.

Como agregado de literatos e humanistas em geral, mas, antes disso, como uma reunião de pessoas cientes e conscientes, a Academia não para na letra, não limita a linha de seu verso e sempre aumenta pontos contando mais que contos – constrói realidade(s), pois que é em uma Realidade maior que ela atua e da qual é ao mesmo tempo agente e usuária. Assim, a Academia envolve-se em assuntos e desenvolve ações para além do espectro tradicional a que muitas entidades do gênero se circunscrevem. Porque, à maneira freiriana, antes de ler os livros é preciso ler o mundo. Antes de falar ÀS pessoas impõe-se falar COM elas.

Neste 27 de abril de 2026, a Academia veste-se novamente de azul e branco. O branco é da celulose (papel) que, sedenta, se deixa penetrar pelo líquido (tinta) da criação (literária). E o azul deve ser azul de metileno, que é aquele que, como ensina a Química, protege contra ataque de certos pequenos seres, funciona como antídoto contra envenenamentos e, ô, Glória!, ainda pode indicar que, embora as décadas, estamos menos enferrujados (a Química chama de oxirredução…).

Assim, a Academia distancia-se dos anos de experimentos e os consolida em três décadas e mais cinco anos de experiência(s), afirmando-se como tradição na História mas pensando a contradição do quotidiano.

É assim, centenariamente jovem, que a Academia Imperatrizense de Letras deve chegar à lã vermelha, quando completar um século, em 2091.

Porque velho não é o que nasce na centúria passada. Velho… é o que não vive o presente.

Porque velho não é ter nascido há anos.

Velho é não renascer a todo instante. Agora.

Chegaremos à terceira lã.

  • EDMILSON SANCHES

Fotos:
O prédio-sede da AIL, no centro histórico de Imperatriz, e Edmilson Sanches: criatura e criador.