
À mulher de hoje não mais lhe basta ser apenas a poesia da vida – até porque a vida não é só poesia.
Nas intenções e pulsões de um homem, a mulher até pode ser um ser dos nossos sonhos. Mas a melhor parte da vida vive-se acordado.
Portanto, a mulher é um ser da realidade. E ela sabe que amor rima com flor e também com dor.
Que inocência faz verso com consciência, mas seu reverso pode ser violência.
Que a prostituta que pariu a rima conduta muito antes ficou grávida da rima luta.
À mulher de hoje não basta rimar coração com emoção: também existe a palavra ação.
Tudo isso, e muito mais, porque a mulher quer ter orgulho e prazer de (re)construir o mundo – e fazer História – ao lado da maior obra que ela gerou: o homem.
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A MULHER, NA HISTÓRIA E NO SENTIMENTO
– De modo geral, Lei, Polícia e Justiça só são femininas enquanto palavras...
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“Pode-se graduar a civilização de um povo pela atenção, decência e consideração com que as mulheres são educadas, tratadas e protegidas”.
Quem disse isso há um século e meio foi um senador e escritor brasileiro, Mariano José Pereira da Fonseca, mais conhecido por seu título de Marquês de Maricá.
É de lamentar que as pré-condições de reconhecimento da civilização de um povo, estabelecidas por esse ilustre brasileiro, ainda não tenham sido de todo observadas no seu próprio país.
Estatísticas confirmam que, nesse aspecto, o gênero humano, pelo seu lado masculino, apenas refinou, em muitos casos, as primitivas violências que vitimavam suas parceiras.
Como está em frase de episódio da série norte-americana "Criminal Minds": "Achar novas maneiras de magoar uns aos outros é nossa especialidade".
Talvez tenha sido por constatar isso que outro escritor, Maurice Donnay, tenha resumido – e, ao mesmo tempo, generalizado –, cruel e cruamente:
“Todos os homens batem nas mulheres: os do povo, com os punhos; os burgueses, com as leis”.
Há muito tempo, as mulheres vêm sofrendo: individualmente, pela lei do mais forte; e, coletivamente, pela fraqueza da Lei – uma Lei que, em relação à condição feminina, de maiúscula só tem a letra inicial, e ainda se apequena e se acachapa ante o peso social da cultura dita machista.
De modo geral, e na sensação da maioria, Lei, Polícia e Justiça só são femininas enquanto palavras...
E é, sobretudo, por essa fraqueza da Lei (ou de seu cumprimento) que se reproduzem cotidianamente, diuturnamente, nos jornais, rádios e televisões os depoimentos tristes, vergonhosos, de mulheres espancadas, barbarizadas, estupradas, mortas, sujeitadas, enfim, a toda sorte de violências e outras ilegalidades.
A essas violências respondem providências policiais poucas e condenações na Justiça raríssimas. Isso só no campo penal. Vai-se ver, e teremos nas demais partições do Direito – como, por exemplo, o Trabalhista – iguais desmandos, mesmos desatinos, idênticos vexames, semelhantes desrespeitos senão violências, como a que deu origem ao Dia Internacional da Mulher, 8 de março.
Foram as mulheres – e não os homens – quem primeiro fez greve geral em nosso país. Talvez por influência das greves femininas russas de março de 1917, em junho deste mesmo ano o estopim da paciência se acendeu e a bomba explodiu: centenas de mulheres, trabalhadoras em indústrias têxteis, em São Paulo, paralisaram por 30 dias as máquinas e o trabalho, foram às ruas com seus enormes vestidos da época e gritaram e reivindicaram por carga horária menor e não desumana.
Brigaram por respeito e contra o assédio sexual dos homens supervisores (chamados contramestres).
Reivindicaram a libertação de colegas do movimento que foram presos.
Houve tiros da Polícia e houve morte.
E a morte fortaleceu o movimento, que se espalhou por todo o Estado de São Paulo (a capital parou, dizem os pesquisadores).
Com a morte de uma pessoa, o movimento ganhou mais vida e avançou por diversos estados brasileiros. Até os ditos patrões negociarem e a greve acabar.
Mas o passado não é suficiente em termos das muitas – muuuuuuuuuitas – lutas que as mulheres todo dia travam. Ainda há muito em que avançar nos dias de hoje, tanto nas relações da vida social, política, cultural, econômico-profissional e familiar quanto nas questões conjugais, de relacionamentos e término deles, da sexualidade e da natalidade etc.
Nesses grandes campos, mostra-se, como ponta de iceberg, a violência da pobreza e dos abusos do tipo casamentos forçados, exploração sexual, circuncisão feminina (infibulação), seleção pré-natal por sexo (como na China), violência doméstica, subemprego ou sub-remuneração, criminalização do aborto e outras formas de violência, material ou não, contra as quais mulheres e homens de vergonha se opõem em todo o mundo.
Corre por aí a história de que Deus fez a mulher após o homem porque todo criador, ao se preparar para produzir sua obra-prima, faz antes um borrão...
Assim, só mesmo Freud para explicar se seria essa a raiz e a razão para tantas agressões (físicas ou não) do masculino contra o feminino. “Por trás da insistência na superioridade masculina há uma inveja imemorial das mulheres”, escreveu Erik Erikson, psicólogo, psiquiatra e psicanalista alemão-americano.
E isso não deveria acontecer. Afinal, a mulher é a morada do homem: como mãe, ela o acolheu no ventre; como companheira, ela o abriga no coração.
O homem, na verdade (e até a Ciência confirma), é o ser frágil. Tanto que, como já se disse, de um tigre faminto e de uma mulher carinhosa nenhum homem escapa.
Vamos combater a constatação do escritor Maurice Donay com o postulado do senador Mariano Fonseca, pois é no respeito à mulher que cresce o conceito do homem.
Desta forma, para quem quiser, proponho a seguinte frase de ordem:
Ame a mulher de um jeito diferente: respeite-a.
Ou, se for o caso:
Respeite a mulher de um jeito diferente: ame-a.
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MULHERES E ESTRELAS
Há algo de diferente, muito diferente, no espírito feminino.
As mulheres têm uma capacidade de suportação, de resignação e resistência que transcende a imaginação e a perplexidade do homem.
As mulheres merecem mais, muito mais: mais poder, mais participação, mais reconhecimento. As mulheres são melhores.
Tem algo de múltiplo e vário na singeleza da mulher,
de arrebatador em sua beleza,
de premonitório em seu olhar,
de indecifrável no seu ser,
de irresistível em sua sedução.
Talvez porque não haja um homem que, no íntimo, não se quede ante esse poder invisível, invejável, de que foi dotada, às escondidas, a mulher. O poder e a resistência, a sedução e o encantamento femininos – ante os quais impérios ruíram e também se alevantaram,
vidas se ergueram e igualmente tombaram,
fracos se fortaleceram e heróis se acovardaram...
Sim... Seja à frente de reinados ou nos bastidores de residências, sentadas em tronos como rainhas reais ou em pé em casa como rainhas domésticas, as mulheres têm, escondido ou explícito, um poder diferente,
uma força indescrita,
um segredo não revelado,
um mistério indecifrado.
Mulher. Mar pouco navegado.
Território pouco desbravado.
Alma quase nunca compreendida.
Sentimentos quase sempre pouco correspondidos.
Desejos simples contrafeitos.
Vontades abissais insatisfeitas.
Uma mulher não é só um corpo, embora, mesmo quando acompanhada, seja uma alma só.
Sozinha.
Solitária.
Mulher – usada e ousada.
Mulher – cifrada e indecifrada.
Mulher – que acomoda e incomoda.
Mulher – citação e excitação.
Se o homem veio do barro, as mulheres vieram do pó.
Pó de estrelas.
Por isso brilham.
Por isso luzem.
Por isso ofuscam.
Por isso reinam.
Por isso voam.
... E também por isso nós homens as amamos.
* EDMILSON SANCHES