
Conheci/ouvi “Summer’68” na adolescência. Quando foi originalmente lançada, em outubro de 1970, pela banda britânica Pink Floyd no álbum “Atom Heart Mother”, eu tinha 12 anos; mas, quando o álbum chegou ao Brasil, em 1972, eu o adquiri, adolescente, pois já ganhava meu dinheirinho – tinha sido o único aprovado, ainda com 13 anos, em um concurso seletivo do Banco do Brasil (BB), por meio do qual tornei-me o primeiro menor estagiário (ou menor aprendiz) do BB em Caxias (MA). Nessa época, também fui eleito diretor da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), o clube social, recreativo, dos funcionários daquela instituição financeira do governo federal.
Mas, antes de conhecer diretamente a música em seu álbum, eu já a ouvia – é claro, sem saber sua origem. A música era trilha sonora de uma publicidade do Banco Nacional, que era de propriedade daquele advogado, economista, banqueiro e político Magalhães Pinto, José de Magalhães Pinto (1909-1996), que, enganado ou não, eu o vi como um mineiro (falecido no Rio de Janeiro) com cara de bom avô.
Magalhães Pinto fundara o Banco Nacional em plena Guerra Mundial, 1944, e resistiu até 1995, quando foi vendido para o Unibanco, dos pobrezinhos dos Moreira Salles, em 2010 engolido pelo ou fundido ao Itaú. E em algum tempo do meio século de existência do Nacional, mais exatamente a partir de 1969, ele bancou o patrocínio da produção que se tornou o principal programa da Rede Globo de Televisão e o maior telenoticiário do Brasil, o “Jornal Nacional” – que nasceu naquele ano, em 1º de setembro, e não coincidentemente adotou o nome do banco mineiro. Toda noite, seis dias por semana, estava ali a “wrighteana” “Summer’68” sendo tocada antes da exposição das notícias – e eu confesso que não desgostava.... Lembro-me mais ou menos do locutor, em “off”, dizendo, com a música ao fundo: “Com prestígio do Banco Nacional e das empresas do Grupo Nacional, mais uma edição do seu ‘Jornal Nacional’”.
Quando em 1972 ou 1973, comprei o álbum “Atom Heart Mother”, o quinto do Pink Floyd, quase que eu “furava” a segunda faixa do “side two” – “Summer’68” –, de tanto que eu a escutava, com a agulha do toca-discos rangendo, chiando, fritando pelos microssulcos do vinil preto estéreo e seu selo circular central verde e amarelo, da EMI-Harvest. Menos de cinco minutos e meio de música... mas que música!... (Nem precisa responder ao “How do you feel?” da letra.)
Na época, já havia, na escola, uns colegas que “encaravam” ouvir o “progressive rock” do Pink. Eu, omnívoro, devorava todo tipo de som. Quanto ao Floyd, se eu já escutara “Ummagumma”, por que não encararia seu sucessor – e sucesso, número 1 em vendas no Reino Unido – “Atom Heart Mother” e o sucessor deste, “Meddle”, com “Echoes”, e "Shine on You Crazy Diamond", do álbum conceitual “Wish You Were Here”, de 1975?
É... Melhor parar de escrever e voltar a reouvir essas músicas, esses discos todos... A propósito, tive a sorte de comprar “Atom Heart Mother”, o LP (“long-playing”) da música “Summer’68”, com a capa original, sem nome da banda, sem título do álbum, sem mais nada... apenas a foto de uma vaca malhada, de nome Lulubelle 3ª, posando em verdes pastos em um campo de uma cidadezinha (Potters Bar) de menos de 20 mil habitantes na época, a uns 20 quilômetros de Londres... Chamávamos “disco da capa da vaca”. Era a simplicidade desejada, uma vaca, que teria sido inspirada em peça artística – e igualmente bovina – de Andy Warhol, que admitiu ter se baseado em ideia do negociante de arte Ivan C. Karp e de um livro do escritor Edwin Shepherd Harrison... Como se lê, neste universo não há nada de novo no “front”... Neste mundo, à maneira de Lavoisier, nada se cria, tudo se adapta, tudo se (re)transforma...
Ouça essa música de verão (“Summer’68”) neste “link”:
*EDMILSON SANCHES
Ilustração:
No recorte, a capa do disco "Atom Heart Mother", com a música "Summer'68", da banda inglesa Pink Floyd, lançado originalmente em 1970 e, no Brasil, em 1972.