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SEU RAIMUNDO*

(Raimundo Alves de Sousa, 24/11/1953-13/5/2026)

*

A primeira vez que vi Seu Raimundo foi no apartamento em que eu morava, em Imperatriz, maior cidade do Maranhão depois da capital. Ele subira a escada, apertara a campainha, uma pessoa que me auxiliava em casa abriu a porta, e ele entrou.

Entrou e, me vendo, já foi falando: “– Eu vim aqui para dizer que quero lhe apoiar nas suas candidaturas. Por causa da sua honestidade, do seu conhecimento, da sua competência”.

Foi desse jeito. Aqui e acolá, ele repetia isso, nos momentos difíceis da campanha, como a reforçar que eu poderia continuar contando com ele, chovesse ou fizesse sol, independentemente de questões relacionadas a dinheiro (que não havia) ou a êxito eleitoral (difícil de obter, tendo em vista as chamadas candidaturas “fortes”, de gente endinheirada, possuidoras de fazendas, indústrias, comércios, ou detentora de bases eleitorais tidas como consolidadas – pejorativamente, os “currais”).

Mas, naquele dia, eu não estava ganhando um apoiador. Estava ganhando um amigo. Apoiadores vêm e (se) vão. Amigos, chegam e ficam. Estabelecem-se na mente e no coração da gente. Viram referência. Às vezes, tornam-se necessidade.

Seu Raimundo era amigo. Dos bons. Aliás, dos melhores. Simples. Humilde. Trabalhador – era serralheiro. Uma outra saudável qualidade: era bem-humorado. Ríamos muito, ele e eu. Ríamos de quase chorar. Éramos bestas para rir... Nunca tivemos um desentendimento. Nunca ficamos “de mal”.

Durante a campanha, o acesso aos locais (bairros, povoados) das centenas de reuniões na maioria das vezes era feito com seu automóvel, de uma cor cinza-escuro. Automóvel que nem o dono: simples, pequeno, já puxado nos anos... mas onde nos acomodávamos bem, sem nem reparar nessas coisas, pois já saíamos de bom-humor, contando histórias, conversando sobre os ontens, os hojes e os amanhãs do embate político-eleitoral daqueles tempos idos.

Entre as diversas qualidades de Seu Raimundo, que eu sempre reconhecia em alto e bom som para ele, era o excepcional conhecimento de praticamente todo o município de Imperatriz, seus bairros e povoados. Na sede, na cidade, não me recordo de Seu Raimundo ter dito que não sabia onde se localizava determinado logradouro, entre os milhares – praça, rua, avenida, travessa, viela, beco... Não apenas conhecia; ele sabia descrever as características do local, a forma de acesso e o ponto exato de destino; dizia onde era, se era perto disto ou daquilo...

Em geral, Seu Raimundo tinha amigos e conhecidos em quase todos os lugares. Por esse domínio topográfico, por suas relações de amizades, seu conhecimento município adentro e afora, em pelo menos uma vez, como me contou, rindo, tentaram contratá-lo para outras campanhas ou candidaturas. Mas Seu Raimundo não estava atrás de dinheiro ou poder: ele queria mudança – mudança, como ele dizia, “com honestidade, conhecimento, competência”.

Desportista, era apreciador de futebol, sobretudo do futebol praticado nos campinhos, nas várzeas, nos cantos e recantos da cidade e do interior. Em geral, quando podia, colaborava doando bolas e até vestuário (camisas para as equipes, os times). Estimulava o esporte e a esportividade sobretudo entre os mais jovens.

Atendia em sua pequena serralheria seus fieis clientes. Havia comprado um terreno em novo loteamento para mudar sua industriazinha de local. (Como saí antes de Imperatriz, não sei se chegou a fazer a transferência de local.)

Seu Raimundo me falava das cidades e lugares do Maranhão onde vivera. Sabia falar das distâncias entre essas cidades e lugarejos. Coincidentemente, em uma das sempre agradáveis conversas que mantivemos, descobrimos que ele chegou a conhecer um familiar meu, no à época povoado Livramento, do município de Peritoró. Creio que eu o chamava esse parente de tio Elesbão, de quem tenho uma das lembranças mais remotas de minha infância: eu ainda criança pequena e minha mãe me acolhendo no colo, dentro da boleia do caminhão de propriedade de e dirigido por esse meu tio. Foi uma senhora coincidência!

Nos últimos anos, Seu Raimundo e eu nos telefonávamos. Ele estava em Goiânia, Goiás, em casa de familiares, fazendo exames e tratamento de saúde. Nunca ouvi dele uma manifestação de raiva, inconformismo, chateação... Ao contrário, o bom-humor, a risada... Disse que queria vir aonde eu estava para conversar mais e, se fosse o caso, até para ficar presencialmente comigo na campanha eleitoral de que eu novamente decidisse participar.

Seu Raimundo era de um desprendimento tal que nunca reclamou se demoravam ou não as reuniões para as quais, quase sempre, somente eu, em sua companhia, era convidado, nos bairros e povoados. Uma vez, no povoado Petrolina, convidados pelos times de futebol do local, chegamos às 7h da manhã, para a reunião marcada para as 8h, no campo de futebol. Um dos responsáveis pelo encontro, que praticamente acordamos em sua residência, ficou surpreso por estarmos cumprindo o horário: “– Os outros candidatos que convidamos, só chegavam perto de meio-dia, ficavam quinze minutos e já diziam que tinham outros compromissos; não debatiam, não respondiam a perguntas... E vocês estão aqui antes do horário!...”

Era assim. Entre tantas coisas em relação às quais Seu Raimundo e eu concordávamos, era o respeito ao tempo dos outros, o cumprimento da palavra dada, do compromisso acordado...

Certa feita, moradores do Riacho do Meio nos convidaram para uma reunião com eles em um domingo à tarde. O Riacho do Meio é o último povoado de Imperatriz, há algumas dezenas de metros da Rodovia Belém-Brasília, no sentido Belém. Fiquei sabendo que fui o único candidato convidado para fazer campanha (reunião) lá. A reunião estava prevista para começar às 16h de um domingo de sol agradável. Seu Raimundo e eu chegamos às 15h – eu queria conhecer pessoas, perscrutar o lugar, saber quem eram os moradores mais antigos do povoado, como a história começou ali, a razão do nome do lugar... Havia um bom campo de futebol ali perto, com uma “arquibancada” que arrodeava o campo, feita de troncos e tábuas fixadas sobre eles. Ali se acomodou grande parte das mais ou menos duzentas pessoas que moravam no Riacho do Meio. E conversa vai... e conversa vem... Pedi que fizessem todas as perguntas, expusessem todas as curiosidades, mesmo as chateações e indignações acerca do mundo político, sobre Câmaras Municipais, as Prefeituras, os vereadores e prefeitos, as “altas” esferas do Poder (Governos estaduais e Governo Federal, Congresso Nacional).

Os cidadãos e cidadãs do Riacho do Meio ficaram interessados. Até porque alguém “de fora” do povoado como eu, com aquele compartilhamento de informações, de conhecimentos, de reflexões, era quase um “acontecimento” por ali. Pensou que não, já era boca da noite e, em peso, a comunidade pediu que ficássemos para o jantar, que não aceitavam “não” como resposta... E partilhamos a boa comida interiorana, galinha ao molho pardo (ou galinha de cabidela), frangos fritos... E, de sobremesa, além dos sucos, mais conversa no campinho de futebol, eu falando e respondendo, a comunidade escutando e questionando. Já passava das 20h quando nos “deixaram” voltar para a cidade. Seu Raimundo adorou, primeiro porque, nas palavras dele, ele gostava de me ouvir e de aprender com o que eu falava; segundo, porque ele gostava de conhecer pessoas, fazer novas amizades...

Uma vez, no bairro Parque São José, em Imperatriz, uma moradora que se tornou amiga nossa, convidou-nos para uma reunião em sua casa. Na verdade, como a casa era bem recuada, o encontro dava-se no espaçoso terreno antes da casa, tudo cercado por alto muro. Era novamente um domingo. Vizinhos foram convidados. Começaram a chegar. Sentaram-se em forma de “U”. Foi uma das mais longas reuniões, sempre a pedido dos moradores, dos ouvintes, que pediam que nos demorássemos. Um dos moradores, Seu Binô, observou: “Seu Sanches, os outros candidatos vêm aqui e, cinco minutos depois, já estão olhando o relógio e dizendo que têm outras reuniões. O senhor, não: começamos esta reunião sete da noite, já terminou o ‘Fantástico’ da TV Globo [após as 22h, naquele tempo], as mulheres estão aqui com seus filhos dormindo no colo... e ninguém saiu da reunião, porque o senhor cativa e convence. Vemos sinceridade nas suas palavras”.

Seu Raimundo e eu nunca esquecemos de Seu Binô do Parque São José, da análise nua e da verdade crua que os cidadãos simples, da chamada periferia urbana, fazem e expõem para seus pares cidadãos em uma reunião política. Ah! se os políticos tivessem tempo para verdadeiramente ouvir o povo...

Essas lembranças – algumas, de milhares – são parte das vivências e convivência de anos e anos, na saudável amizade com Raimundo Alves de Sousa, chamado por alguns de “Baixinho”, acerca de quem recebi notícia de sua morte, em Imperatriz, no dia 13 de maio deste 2026. Estou fora de Imperatriz há anos e neste momento, em viagem, bem distante do Maranhão. Mas a surpresa e dor ante a morte de um amigo não demora para nos alcançar, mesmo em razão de distâncias. Porque amigos estão do modo mais perto possível, um em relação ao outro: amigos, conta-se e canta-se, guardam-se “do lado esquerdo do peito”, são preservados na mente, nas lembranças. Acessar um amigo nem sempre é estar fisicamente ao lado dele – é também, consciente e respeitosamente, não esquecer-se dele... É lembrar-se de um rosto, um gesto, uma atitude, um sorriso, de cada um deles quando a palavra “amigo” for dita... Bendita palavra...

Seu Raimundo é um desses rostos amigos – não são muitos – que a palavra “amigo” me traz. Nascido em 24 de novembro de 1953, Seu Raimundo viveu 72 anos, 5 meses e 19 dias. Era filho de José Alves e dona Rosa Alves de Sousa. Pai de cinco filhos, um deles falecido (lembro dos choros e dos soluços do pai despedaçado pela morte do jovem filho). Morava em Imperatriz, na Vila Lobão. Não faz muito tempo, Seu Raimundo encontrou por acaso meu irmão Carlos Magno no centro de Imperatriz. Quis saber meu número de telefone, que lhe foi anotado e entregue em papel (ele não tinha muita prática em cadastrar dados). Disse ter mudado de aparelho ou de número e que depois faria contato comigo. Com isso justificava-se o silêncio de nossas ligações nos últimos dois meses. Minha mensagem mais recente fora em março deste 2026. A dele, um mês antes, em 15 de fevereiro, depois do meio-dia. Bem-humorado, perguntava-me: “E aí, gente boa, como é que tu tá, rapaz? Diga como estão as coisas por aí; está tudo bem? Eu aqui estou naquela mesma pendenga daquele tratamento daquele problema que surgiu em mim há dois, três anos atrás. Atrapalhou todos os meus planos.” A voz era firme. Em nenhum momento se fazia de vítima. Era um cabra bom...

Seu Raimundo, com sua amizade, seu bom-humor, seu desprendimento, sua crença em meus ideais, sua dedicação às nossas causas, seu compartilhamento de minhas lutas políticas, no seu jeito de ser, reforçava em mim o quanto constância de propósitos é importante, e, sobretudo, o quanto, na Política e na vida, é indispensável não se tornar (mais um) bandido...

Que a bondade e humildade de Seu Raimundo aqui na Terra possa em algo ter valido a pena, como exemplo para nós que o conhecemos e que ainda resistimos neste lado de cá da Vida.

Se os portões dos Céus estiverem com algum problema, precisando de manutenção ou reparo, eis que está chegando um profissional do ramo para consertar. Depois, pelas virtudes desse serralheiro, deixem-no entrar na Morada do Pai e, mesmo que humildemente um pouco recuado, deixem-no ficar postado ao lado direito de Deus Todo-Poderoso... Amém.

Paz e Luz, Seu Raimundo...

... meu Amigo.

* EDMILSON SANCHES