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Você sabe do que é feita a calabresa? (Sim, a linguiça).

Em geral, a linguiça calabresa é feita de duas partes dos suínos – o lombo e a paleta. “Paleta” (do italiano “paletta”, pequena pá) é o nome que se dá à espádua ou escápula, omoplata ou, no popular, ombro do porco e outros animais. Misturada a uma gordurinha e a uma pimentinha, basicamente compõe-se assim uma das mais famosas tripas recheadas.

Dois tipos de linguiça sobressaem-se: a portuguesa e a dita calabresa – esta praticamente um sinônimo dessa carne moída e temperada. Além da carne suína, também fazem-se linguiças de outras carnes, entre estas a de boi e a de frango.

A linguiça calabresa, por óbvio, tem origem na Calábria, antiga região do sul da Itália, bem no bico da “bota” – para quem não sabe, o mapa da Itália é mesmo muito parecido com uma perna com bota “chutando” uma “bola” quase triangular, que é a ilha da Sicília.

Pois bem. Das várias etimologias que se dão para o nome “Calábria”, fiquemos com aquela que diz significar o topônimo “terra fértil”, uma interpretação dos elementos gregos “kállos-” e “-brúo”, que trazem a noção de “beleza” e “crescimento”. Portanto, a Calábria era uma terra onde a pastagem crescia belamente, apropriada para o pastoreio de animais, neste caso, dos porcos que ali há muito são criados e, após abatidos, vão terminar como embutidos – as linguiças.

O mundo deve o adjetivo “calabresa” e a diferenciada e picante linguiça à Calábria. Mas esta região italiana de mais de 15 mil quilômetros quadrados e 2 milhões de habitantes exportou para o mundo não somente seu produto suíno como também os produtores dele, ou seus descendentes, familiares.

Como se sabe, em língua italiana – mas não apenas nela – muitos nomes de pessoas (os antropônimos – prenomes, sobrenomes) têm origem no tipo de profissão ou atividade com que se ocupavam os trabalhadores ítalos. Nesse processo de formação dos nomes, surgiu, por exemplo, “Ferraro”, dado originalmente à pessoa que trabalhava com ferro, o ferreiro. Também “Scarparo”, para sapateiros. E “Carbonaro”, para carvoeiros. E vai por aí.  Nos três exemplos acima, a terminação “-aro” vem do sufixo latino “-arius”, que indica, além de profissão ou trabalho, o ajuntamento de objetos, plantas, animais (porcos, por exemplo) e, ainda, serve para designar habitantes de uma localidade.

Nesse rumo, parece natural que, para quem fosse criador de porcos, ou alguém que trabalhasse na criação deles, o nome dado era “Porcaro”. Tal é a “influência” dos porcos naquele sul da Itália que até um apreciado cogumelo comestível, cientificamente chamado “Boletus edulis”, é conhecido como “fungo porcino”, isto é, "cogumelo de porco", e ainda lembra um termo da antiga Roma, “suilli”, que, nitidamente, tem a ver com “sus” (“suíno”). Entre as razões da conexão do nome do fungo com os suínos, está na natural habilidade dos porcos, por meio do faro, localizar e gostar de comer esses cogumelos.

(Aqui, um parêntese em consideração aos estudiosos: a língua italiana tem duas palavras para designar os animais da família dos suídeos – “porcus”, para o porco novo ou leitão, e “sus” (origem de “suíno” em português), para o porco já grande, adulto. Como admitem alguns etimologistas (os especialistas em origem das palavras), em algum momento houve uma “confusão lexical” e terminou o substantivo “porco” nominando de modo geral o suíno de qualquer idade, ainda que permanecendo (como em língua portuguesa) as designações de “leitão”, “bacorinho”, “porquinho”, para porco novo; “varrão”, para porco reprodutor etc. Diga-se que essa diferenciação linguística não ocorria/não ocorre em italiano e latim apenas com o termo “porco”: a ovelha novinha chama-se “agnus”; a adulta, “ovis”. O boi novo tem o nome de “vitulus” (bezerro, boizinho, garrote, novilho, vitelo) e o boi adulto, “bos”. E há outros exemplos.).

É da região da Calábria, terra boa para a criação de porcos e exportação da linguiça de porco, que veio para o Brasil, especificamente para Minas Gerais, o senhor Michele Porcaro, nascido em 1884. Casou-se em 1920 com a brasileira Laurita Damas Sampaio. Dessa união, nasceu o filho Serafim de Paula, que recebeu o sobrenome “Porcaro” modificado para “Vorcaro”, supostamente para evitar eventual e maldosa associação: “Porcaro”... “porco”... “porcaria”.

Por sua vez, o senhor Serafim transmitiu “Vorcaro” para seu filho Henrique, nascido em 1964, que legou o sobrenome para seu filho Daniel Vorcaro, nascido em outubro de 1984, em Belo Horizonte.

Sim, esse Daniel Vorcaro é ele mesmo, o ex-banqueiro e nome que ocupa nacionalmente a atenção dos mundos da Imprensa/Mídia, Economia/Bancos, Política/Poderes, Justiça/Lei, Polícia/Crimes, no mais rumoroso caso de desvio, primeiro, de caráter, e consequente desvio(s) de dinheiro. Se brincar, chegará à décima parte de um trilhão de reais (ou cem bilhões) a soma de valores envolvidos e ainda não devolvidos...

Foi a região da antiga Calábria que, primeiramente, abrigou o nome que seria dado a todo o país – Itália. A Calábria é, por assim dizer, a pátria toponímica da Repubblica Italiana, a designação oficial da Itália, nome que procederia de antigo nome (“Italós”/”Italói”) com significado de “touro”, pois ali, na fértil terra calabresa, onde também se criavam porcos tipo exportação, se viam bovinos aos montes ou manadas.

Nenhum criador calabrês de porcos tem nada a ver com as alterações de caráter e de nome dos “oriundi” descendentes de família calabresa Porcaro.

Ao mudar o nome de Porcaro para Vorcaro, o avô Serafim queria evitar que, por meio do nome ancestral, uns e outros fizessem associações maldosas com seus descendentes. Não podia seu Serafim prever que, anos mais tarde, descendentes seus (pelo menos um filho e um de seus netos, entre outros familiares) pudessem sujar tanto o nome que ele, exatamente, cuidou de vacinar contra males... “morais” (ops!).

Como fatídica e lamentavelmente se vê, não é a alteração de um nome que o impede de ele se tornar sujo...

Ao escolher – voluntária, consciente e ardilosamente – o caminho da fraude, da corrupção, do crime, Daniel Bueno Vorcaro negou o esforço de seu avô e novamente associou o nome da família àquilo que, “mutatis mutandis”, vovô Serafim queria impedir. Daniel sujou Vorcaro. Jogou-o na lama. Desrespeitou-o.

Lama é algo de que porcos gostam.

E respeito é o que outras famílias Porcaro e Vorcaro merecem...

*

Ao, pressurosamente, bem intencionadamente, alterar o nome Porcaro para Vorcaro, seu Serafim queria evitar que outros “emporcalhassem” o nome de família. Ele não poderia imaginar que as nódoas indeléveis no sobrenome viriam de alguém do grupo familiar...

Que não se envergonhem os menos de três mil habitantes da cidadezinha italiana de Rovito, na Calábria, de onde vieram os Vorcaro.

Nem toda maçã podre contamina todo o cesto.

Nem toda ovelha ruim põe a perder todo o rebanho.

Nem todo porco desviado desvia toda a porcada.

Nem sempre o cocho onde alguns porcos comem é o cocho onde todos os porcos comem.

Linguisticamente, o nome Vorcaro tem algo de porco.

Mas, decididamente, não foi o porco que “manchou” o nome Vorcaro.

Foi o Vorcaro quem sujou o nome dos porcos...

* EDMILSON SANCHES

Imagens:

Vorcaro e os porcos: nas ruas, a faixa; no banco, só fachada...

Médicos chegam ao local de prova para a segunda etapa do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira (Revalida) 2020, em Brasília.

Os candidatos da segunda etapa do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira 2025/2 (Revalida) já podem consultar o Cartão de Confirmação da Inscrição.

O documento confirma o endereço do local de prova prática, as datas e os horários e o número de inscrição. Nele consta, ainda, se o participante contará com atendimento especializado ou tratamento por nome social.

O Revalida tem o objetivo de verificar a aquisição de conhecimentos, habilidades e competências necessárias para o exercício profissional no Brasil.

Consulta

O Cartão de Confirmação da Inscrição foi disponibilizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nesta segunda-feira (11) e pode ser acessado na página do Participante, no Sistema Revalida. É preciso fazer o login com a conta da plataforma Gov.br.

Apesar de não ser obrigatório, o Inep recomenda levar o Cartão de Confirmação da Inscrição nos dias do exame.

Provas

Farão a prova prática os candidatos inscritos aprovados na primeira etapa do exame Revalida do segundo semestre de 2025.

De acordo com o edital do Revalida 2025/2, o Inep realizará esta fase prática do exame no próximo sábado (16) e domingo (17). 

O processo seletivo é voltado aos aprovados na prova objetiva realizada em outubro do ano passado. 

No dia do exame, o participante percorrerá dez estações, cinco por dia, fazendo tarefas específicas das áreas de:

  • clínica médica,
  • cirurgia,
  • ginecologia e obstetrícia,
  • pediatria,
  • medicina de família e comunidade e,
  • de maneira interdisciplinar, o participante também terá avaliado seus conhecimentos nas áreas de saúde coletiva e saúde mental.

Revalida

O Revalida é composto por duas etapas de avaliação, a teórica e a prática. O processo organizado pelos ministérios da Educação e da Saúde serve para dar validade aos diplomas de médicos brasileiros e estrangeiros formados no exterior que desejam atuar no Brasil.

O exame não se configura como um concurso público. A aprovação no exame atesta que o documento emitido no exterior é compatível com as exigências de formação das universidades brasileiras.

A revalidação de diplomas médicos é feita por instituições públicas de educação superior que aderiram ao Revalida.

As referências exigidas no Brasil são os atendimentos no contexto de atenção primária, ambulatorial, hospitalar, de urgência, de emergência e comunitária, com base na Diretriz Curricular Nacional do Curso de Medicina, nas normativas associadas e na legislação profissional.

(Fonte: Agência Brasil)

Festival de circo nas unidades do Sesc em São Paulo - YÉ – ÁGUA CIRCUS BAOBAB. Foto: Metlili.net/ SescSP

A atividade circense é reconhecida oficialmente, a partir desta segunda-feira (11), como manifestação da cultura e da arte popular em todo o território nacional.

A Lei nº 15.405, que prevê a medida, está publicada na edição de hoje do Diário Oficial da União.

De acordo com o texto, o reconhecimento vale para todas as formas de expressão circense desenvolvidas no país, como malabarismo, acrobacias, equilíbrio (corda bamba, perna de pau) e palhaçaria.

A norma reforça o papel histórico e cultural do circo na formação artística e na identidade cultural brasileira.

Com o reconhecimento oficial da atividade, o setor circense passa a ter maior respaldo institucional como patrimônio cultural, o que contribui para políticas públicas voltadas à valorização e à preservação dessa expressão artística tradicional.

(Fonte: Agência Brasil)

São Paulo (SP), 09/11/2025 - Estudantes no primeiro dia de provas do ENEM na UNIP Vergueiro em São Paulo. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

O prazo para que o estudante de ensino superior pré-selecionado para as vagas remanescentes do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), referente ao primeiro semestre de 2026, valide as informações declaradas no momento da inscrição se encerra nesta segunda-feira (11).

Para validação, o estudante deve procurar a Comissão Permanente de Supervisão e Acompanhamento da instituição de ensino superior privada onde foi pré-selecionado, no horário de funcionamento dela.

A documentação exigida pode ser entregue no formato físico ou digital, conforme definido pela faculdade privada.

O Fies financia a graduação de estudantes matriculados em cursos presenciais não gratuitos em faculdades privadas e com avaliação positiva do Ministério da Educação.

Consulta dos pré-selecionados

Os nomes dos pré-selecionados na chamada única podem ser consultados na página do programa no Portal Único de Acesso ao Ensino Superior, com a senha da plataforma Gov.br.  O Ministério da Educação (MEC) divulgou o resultado das vagas remanescentes do Fies 2026, na última quinta-feira (7).

Validação do banco

Depois da validação das informações, ocorrerá a validação das informações pelo banco (agente financeiro) responsável pelo financiamento, conforme previsto no edital público.

O prazo para essa última validação é até dez dias, contados a partir do terceiro dia útil, logo após a data da validação da inscrição pela faculdade privada, para a qual o estudante foi selecionado.

Fies Social

O pré-selecionado na vaga do Fies Social com renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa tem a situação distinta.  Neste caso, o estudante não precisa comprovar a renda familiar na Comissão Permanente de Supervisão e Acompanhamento (CPSA) da instituição privada.

No entanto, o estudante deverá comparecer à comissão para validar as demais informações no mesmo prazo, de 8 a 11 de maio.

Lista de espera

Os candidatos que não foram pré-selecionados na chamada única serão incluídos automaticamente na lista de espera do Fies 2026.

A convocação dos candidatos desta lista ocorrerá no período de 15 a 29 de maio.

A classificação seguirá a ordem decrescente das notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com prioridade para candidatos:

· sem ensino superior que nunca foram beneficiados pelo Fies;

· sem ensino superior que quitaram financiamentos anteriores;

· com ensino superior que nunca foram beneficiados pelo Fies;

· candidatos com ensino superior que quitaram financiamentos anteriores.

Fies

O Fies é destinado prioritariamente a estudantes que não tenham concluído o e não tenham sido beneficiados por outro financiamento estudantil.

O programa realiza anualmente dois processos seletivos regulares, um para o primeiro semestre e outro para o segundo semestre de cada ano letivo, além de processos seletivos para vagas remanescentes.

Se ainda tiver dúvidas, o interessado pode entrar em contato com o MEC pelo telefone 0800-616161.

(Fonte: Agência Brasil)

– 10 de maio, pouco depois do meio-dia. Tiros no centro da cidade... Da vida de Josimo, só sua morte foi nossa.

– Uma terra que nasceu SAGRADA (pelas mãos de um frei) e que continuou SANGRADA (por mãos de pistoleiros e más administrações).

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Domingo, 10 de maio de 2026. A morte do padre Josimo Tavares Morais completou 40 anos.

Josimo não era de Imperatriz. Sua paróquia e sua igreja também não. Territorialmente, sua luta e sua causa não incluía nosso município. Seu assassino não era daqui. Os mandantes, também não.

Da vida de Josimo, só sua morte foi nossa.

E foi isso que ficou e (re)marcou a cidade de Imperatriz, fundada por um religioso e manchada por criminosos. Cidade que se iniciou sagrada e que continua sangrada – sangrada ainda por alguns e (in)certos malandros com ou sem revólver, com ou sem Poder, com ou sem dinheiro. Bandidos e malandros que se vestem de roupas escuras ou com colarinhos brancos.

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Puxando pela memória, eu me lembro, razoavelmente, daquele 10 de maio de 1986. Era um sábado. Eu morava em Imperatriz (MA) e me levantara lá pelas cinco horas da madrugada. Cedinho, fui ao vizinho município de João Lisboa, onde participei do lançamento de um programa de crédito agrícola para pequenos produtores rurais (“Programa São Vicente”). Éramos o gerente do Banco do Nordeste e eu, explicando a “coisa” a esperançosos agricultores joão-lisboenses.

Ainda de manhã, quando voltei para Imperatriz, fui direto para o chamado salão nobre do Juçara Clube, no bairro do mesmo nome, ligado ao centro de Imperatriz. Eu colaborava com o "Jornal de Imperatriz", publicação que eu ajudara a criar com seu proprietário, o Zé Maria Quariguasi (Gráfica Líder). Era o primeiro jornal diário da cidade impresso em sistema "offset".

Naqueles dias, eu também substituía o jornalista Jurivê de Macedo (falecido em 17/5/2010), que viajara para o Goiás (hoje Tocantins) em nova visita a familiares. (Parênteses: Sabe do que tratava a manchete da edição número 1 do "Jornal de Imperatriz"? Ela mesma, a violência: “VIOLÊNCIA PREOCUPA SARNEY”, dizia a manchete de letras brancas sobre tarja preta, dia 1º de dezembro de 1985, um domingo).

Como jornalista, fui entrando no salão do Juçara Clube e fui logo assuntando e anotando o que era que estava acontecendo no grande salão nobre do à época mais sofisticado clube social de Imperatriz e região: era a criação de uma “filial” imperatrizense da falada União Democrática Ruralista (UDR).

Houve doações e leilões de gado e outros animais. (Não sei como, mas um manuscrito da ata – ou de anotações para ela – consta dos meus arquivos de tudo).

Eu estava acompanhando o frenesi da reunião, para preparar a coluna de página inteira e outras matérias do jornal, quando o repórter Carlos Henrique Gaby Rocha, aí perto de 1 hora da tarde, me avisou que desconhecidos tinham acabado de dar tiros em um padre.

Pois bem: saí do Juçara Clube e fui para o local do crime – a escada (veja a foto) que levava aos altos do prédio onde se localizavam escritórios de advogados e de entidades religiosas, além das instalações da Rádio Imperatriz, ali, na Avenida Dorgival Pinheiro de Sousa, esquina com a Rua Godofredo Viana. É claro que, àquela altura, o corpo já tinha sido levado para um hospital, na tentativa de ver o que podiam fazer pelo padre de 33 anos, paraense nascido em Marabá.

A partir desse dia e nos dias seguintes, o Coriolano (Coló) Filho, que ficara na edição do jornal, e eu virávamos noites na redação do "Jornal de Imperatriz", colhendo as informações mais recentes e consistentes e dando assistência a um mundo de jornalistas de todo canto do país que nos procuravam para alguma ajuda, inclusive na questão de laboratório fotográfico para revelação.

As manchetes daquelas edições diárias de maio de 1986 diziam muito do clima reinante. E foi nesse mesmo clima – poucos dias após o atentado fatal ao padre que viera do outro lado do rio – que escrevi o artigo “PACIÊNCIA TAMBÉM TEM LIMITE”, reproduzido abaixo.

Infelizmente para a cidade de Imperatriz, muita coisa do artigo ainda continua tristemente atual. (O artigo foi publicado originalmente no "Jornal de Imperatriz", edição de 14 de maio de 1986).

Anos depois, como diretor da sucursal do jornal "O Imparcial", dos Diários Associados, entrei pela madrugada no salão do Fórum da Justiça Estadual de Imperatriz, cobrindo o julgamento e noticiando a sentença que o juiz e meu conhecido Raimundo Licyano de Carvalho (falecido em 23/4/2018) proferiria, condenando o pistoleiro Geraldo à prisão. O caso nunca foi de todo resolvido.

Eis a íntegra do artigo, que foi reproduzido em jornais de outros pontos do país:

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PACIÊNCIA TAMBÉM TEM LIMITE

“DE VIOLÊNCIA ESTÁ CHEIA A NOSSA PACIÊNCIA. UM DIA, ELA EXPLODIRÁ”

Mais uma vez Imperatriz volta a ser assunto nacional, matéria de jornal. Pintou de novo, para todo o povo. Nas ondas sonoras, na tela de tevê, no papel-jornal. E, mais uma vez, esta cidade é vista pelo seu lado escuro.

Tá certo: a Imprensa é a menos culpada nisso, se é que cabe algum ônus a ela – como costuma pensar e falar, aqui, os que não são jornalistas. A Imprensa não está aqui pela cidade, nem pela sua violência. Está aqui pela notícia. E isso é indescartável.

O que aconteceu no dia 10 de maio foi só MAIS UM ato de violência. Nem o fato de Ter sido praticado ao meio-dia, no centro da cidade, e pelas costas, o tornou incomum. A diferença é que a vítima vestia batina; e, aos 33 anos e à traição, o padre morreu do jeito e com a idade em que morrem os santos homens.

O padre do Tocantins não subiu aos céus visivelmente, mas a sua morte fez ressuscitar (ou reavivar) aqui na terra, a questão da violência, inclusive agrária. Isso tudo, por força e influência da Igreja, que já deu provas do que pode fazer. "Je vous salue, Église!"

Esta cidade merece os crimes e os castigos que tem. Porque sua gente, seu empresariado, suas forças produtivas, suas entidades de classe, não sabem a força que têm. Deixam-se ferrar, escalpelar, tirar o couro, mesmo. Deixam-se matar. Povo-boi. Os crimes, as injustiças, a violência, são tantos que a tranquilidade, aqui, é que é a exceção. Manchete de jornal, rádio e televisão.

Questionamos muito pouco nossa realidade. É preciso, sempre, que haja uma próxima morte, uma nova violência, para se reviver o assunto. Ficamos cheios de indignação e vazios de respostas. Aí, nada mais havendo a tratar, é a vez de o assunto morrer também.

Dizem: os crimes são de competência da Polícia. Dizem: a Polícia é de competência do Governo. Mas o Governo é de nossa competência. Os políticos são nossos servidores – e não patrões. Dirão: Ah! Isso é idealismo, coisa de sociologia, política, filosofia; precisamos de respostas, agora. Quais, então? Armar-se? Incitar à rebelião civil, à prática de Lynch? Constituir organizações paramilitares? Botar o Exército, a Polícia Militar nas ruas (sem esquecer de deixar os policiais criminosos na cadeia)? Aparelhar melhor a Polícia? Pagar-lhe melhores salários?

E onde estão aqueles moços que o povo botamos nas Câmaras, nas Prefeituras, nas Assembleias, no Senado, enfim, no Poder? Onde eles? É quase regra: Eles só vivem, só fazem, só agem pensando na eleição seguinte. Entretanto, POLÍTICA e POLÍCIA, além da proximidade gráfica, têm, para o povo, o mesmo objetivo geral: defender os seus interesses, isto é, os interesses do povo.

E o que ocorre é que estes políticos de cá não tão nem aí, aliás, a maioria deles não tá nem aqui. Para estes, “política é a arte de governar com o máximo de promessas e o mínimo de realizações”. Estas, quando vêm, e a presença deles, quando é, estão acompanhadas da necessidade de “aparecer”, fazer figura. Outros preocupam-se mais com “acertos”, conchavos, manipulações, negociações (negociatas, inclusive).

Acham que isso é política. Têm uma história de praticar a “fidelidade partidária”... ao mesmo tempo em que cometem adultério contra o povo. Enganam o povo. Esquecem o povo. E o nosso povo, besta, não esquece eles. Porque a política é a arte de enrolar as pessoas. A linguagem política – diz Orwell – é destinada a fazer com que as mentiras soem como verdade. E para certos políticos, o que é a verdade senão uma mentira muito repetida?

Essa prática política tão miúda, tão interesseira, tão vil (quando não servil), é outra das violências que sofre este povo. Talvez a pior, porque, pela frente, dá-nos tapinhas nas costas e, por trás, socos na cara.

A violência em Imperatriz é algo exposto. As ações e seus motivos mostram-se a todos, em evisceração. Em um texto como este não é necessário precisar fatos, nominar pessoas. Disto, sabem-no as autoridades civis, militares, eclesiásticas e o povo em geral.

Disto estão cheios os jornais.

Disto estão cheios os livros de ocorrências.

Disto está cheia a nossa paciência.

Um dia, ela explodirá.

* EDMILSON SANCHES

FOTOS:

A escada onde o padre Josimo recebeu os tiros que o levou à morte (no alto, à direita, o padre). Alguns livros sobre a morte de Josimo (do acervo de Edmilson Sanches).

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Há 93 anos, em 10 de maio de 1933, o governo da Alemanha de Adolf Hitler remarcava seu ódio e descontava suas frustrações queimando livros em praça pública, de autores "inconvenientes" ao regime. Foi a “Bücherverbrennung” palavra alemã para “queima de livros”.

Daquela data até 8 de maio de 1945, doze anos depois, estima-se que a Alemanha queimou pelo menos CEM MILHÕES de livros.

Para os interessados, há uma obra espetacular que traz mais informações sobre esse "bibliocídio": "Quando os Livros Foram à Guerra", de M. G. Manning.

Também, na ficção e na história, há outros livros sobre essa criminosa relação dos alemães nazistas com esse que é o maior e mais charmoso objeto de cultura popularizado há 600 anos. Entre esses, "A Bibliotecária dos Livros Queimados", de Brianna Labuskes; "Ladrões de Livros", de Anders Rydell, a referência genérica de George Steiner em sua obra “Aqueles que Queimam Livros”... E sobre perdas em geral de livros, leia-se "O Livro dos Livros Perdidos", de Stuart Kelly... (Tenho essas obras em meu acervo, além de outros livros de Bibliologia que fazem referência a essa loucura piromaníaca [que queima] e biblioclasta [que destrói livros]).

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O LIVRO, A LEITURA, O PROFESSOR (*)

A bengala é a extensão do braço, a muleta é o complemento ou reforço da perna, o amuleto é a explicitação dos medos. Mas, o livro, é o prolongamento da consciência – e a leitura, sua decodificação e enriquecimento.

Não há nada que se compare ao ato de ler. Nem mesmo a apreciação de uma pintura, a contemplação de um pôr do sol. Ler é mais que ver – é vivenciar, é (re)viver. Ler é criar e recriar a coisa lida dentro de nós.

E lemos tão pouco... E, frequentemente, lemos tão mal...

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(...) De onde vem esse desapetite, essa falta de fome de leitura? Com fino humor, o crítico argentino Carmelo M. Bonet (falecido em 1977) escreveu que, para ser um escritor, haveria três alternativas: a genética – quando a pessoa dependeria de os pais serem inteligentes; o esforço pessoal – quando a pessoa dependeria de si mesma; ou a fé – quando a pessoa dependeria da vontade de Deus...

Não sei por que Carmelo Bonet não colocou o professor nessa lista da gênese da formação do escritor. Afinal, ali está ele, professor, artesão de saberes, emulador de mentes, fomentador de consciências, escultor a esculpir a massa (rósea, não cinzenta) de modelar que é o cérebro do jovem, do adolescente, da criança. Professor – modelo, exemplo, espelho.

Se o Brasil quiser ser uma pátria melhor, tem de ter mais e melhores leitores. E para ter mais e melhores leitores, temos de ter mais, muito mais e melhores professores. Professores-leitores.

No ato de ler, o leitor é, em igual tempo, objeto e sujeito: em um papel, é influenciado pelo conteúdo do texto-sujeito; no outro, e simultaneamente, o leitor é coautor, reescrevendo mentalmente, complementando, valorando e validando o texto-objeto.

* EDMILSON SANCHES

(*) Trecho do prefácio que escrevi para o livro "Professor-leitor: De um Olhar Ingênuo a um Olhar Plural", da professora doutora Tereza Bom-Fim (Uema). Interessados no texto integral podem solicitá-lo pelo e-mail ([email protected]) ou via Messenger/Facebook e WhatsApp.

FOTOS:

Fogueira de livros na Alemanha de 1933 e capas de livros que contam a história de livros queimados e livros perdidos..

 Brasília - 10/05/2026 - Equipe do filme O Agente Secreto recebe estatuetas do Platino. Divulgação/ Prêmio Platino.

O audiovisual brasileiro foi consagrado mais uma vez em um prêmio internacional. O Agente Secreto faturou quatro Prêmios Platinos na noite desse sábado (9), em uma cerimônia em Cáncun, no México. 

O filme Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, também venceu como Melhor Documentário a 13ª edição da premiação, a mais importante do cinema ibero-americano. O evento promove séries e filmes da América Latina, Portugal e Espanha.

Nesse sábado, o filme de Kleber Mendonça ganhou mais quatro Prêmios Platinos: Melhor Filme, Roteiro, Diretor e Ator, sendo a primeira vez que um brasileiro ganha o troféu de Melhor Ator. Em 2025, Fernanda Torres foi eleita Melhor Atriz por sua atuação como Eunice Paiva, em Ainda Estou Aqui – o grande vencedor da premiação, no ano passado. Os prêmios somam-se a outros quatro Platinos que a produção já havia recebido.

Em O Agente Secreto, Moura interpreta Armando, um professor universitário perseguido pela ditadura militar. Na história, ele precisou fugir de São Paulo para Recife e assumir uma nova identidade. Ambientado na década de 1970, a filme traz vários elementos da cultura pernambucana, como a lenda da perna cabeluda, além da Banda de Pífanos de Caruaru. Tanto o som, como as escolhas da direção de arte, são parte da história.

Ao receber a estatueta prateada, Mendonça celebrou a oportunidade de contar histórias em meio a um cenário de desinformação. “É um momento onde a verdade está sendo discutida e manipulada”, afirmou.

“De fato, é um momento de mentiras no mundo, mas o cinema é um poderoso instrumento para narrativas cheias de poesia, de aventuras fantásticas, drama humano, histórias de amor e afeto, com verdade e honestidade”.

 Brasília - 10/05/2026 - Equipe do filme O Agente Secreto recebe estatuetas do Platino. Divulgação/ Prêmio Platino.

O Agente Secreto soma oito Prêmios Platinos

O ator Wagner Moura estava em uma produção na Espanha e não pode comparecer ao evento. Em discurso de agradecimento lido por Mendonça, o ator brasileiro comemorou:

“Amo os Prêmios Platino, ver nossa cinematografia celebrada, encontrar amigos, descobrir talentos, filmes, artistas, trabalhadores do cinema falado em portugês e espanhol (...). Amo cada vez que percebo o Brasil integrado a uma cultura abrangente”.

Ele dedicou o prêmio a Mendonça, que confirmou o convite para o artista participar de seu próximo filme.

Há poucos dias, Moura, vencedor do Globo de Ouro, tinha sido eleito Melhor Ator pelo júri popular do Platino, consagrando o ator brasileiro que este ano disputou o Oscar. 

Pela Direção de Arte, Música e Montagem, O Agente Secreto já havia levado três estatuetas, anunciadas previamente, para os criadores Thales Junqueira, os irmãos Tomaz e Mateus Alves, além de Eduardo Serrano e Matheus Farias.

16/01/2026 - Cenas do filme O Agente Secreto de Kleber Mendonça com Wagner Moura. Foto: MK2Films/Divulgação

No evento, o filme de Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos, venceu a categoria Documentário, superando produções do Paraguai e da Espanha. O longa-metragem acompanha o governo de Jair Bolsonaro, retrata a tentativa frustrada de golpe de Estado em 2023 e discute a influência da fé evangélica na política brasileira.

Ao receber a estatueta, o produtor e pesquisador de Apocalipse nos Trópicos, Brunno Pacini, declarou que os documentários “têm a capacidade de transformar o trauma em memória e a memória em movimento” e agradeceu aos envolvidos no projeto.

Entre as séries, a brasileira Beleza Fatal, que se assemelha a uma novela, também levou o troféu de Melhor Série de Longa Duração. A diretora Maria de Médicis saudou o diretor de TV Dennis Carvalho, que faleceu há poucos meses, e celebrou o gênero novela, referência no audiovisual de toda a América Latina. “Viva a novela, viva o Brasil”, comemorou.

Nesta edição do Platino, o Brasil teve sete produções indicadas concorrendo, em 36 categorias, com cerca de 100 produções indicadas da ibero-américa.

(Fonte: Agência Brasil)

Brasília DF - 09/05/2026 - Ruth Rocha tem sua vida e obra celebradas na 73ª Ocupação do Itaú Cultural, inaugurada neste sábado (9). Foto: Arquivo pessoal.

Referência da literatura infantojuvenil brasileira, Ruth Rocha tem sua vida e obra celebradas na 73ª Ocupação do Itaú Cultural, em São Paulo. Mostra foi inaugurada neste sábado (9), com a presença da escritora, e fica em cartaz até 2 de agosto.

A exposição se junta às comemorações dos 95 anos da autora e das cinco décadas da publicação de seu primeiro livro, Palavras, Muitas Palavras, e do best-seller Marcelo, marmelo, martelo – que tem mais de 50 edições –, ambos de 1976.

“Quero agradecer a todos os meus leitores, que fizeram a minha vida”, disse Ruth no evento de abertura, diante de um público de adultos, jovens e crianças.

Na mostra, gavetas e nichos revelam livros originais, monóculos com fotos de família e vídeos que resgatam memórias da autora.

O espaço expositivo funciona como um dicionário biográfico. Na letra B, de borboleta, está um de seus livros, Romeu e Julieta, no qual duas borboletas de cores diferentes não podem brincar juntas, em uma alusão ao racismo. Na letra C, de canto, há um vídeo inédito de Ruth cantando com a filha, Mariana, em janeiro de 2025. Pulando para a E, de Eduardo, tem uma homenagem ao marido e parceiro de vida, com fotos do casamento de 1956.

“O artista precisa muito ser valorizado. Ele precisa perceber o valor que dão a ele, porque é do que ele depende, é de ser valorizado. Uma homenagem grande como essa, uma homenagem ‘barulhenta’ como essa, é uma homenagem que valoriza muito a gente. Deixa a gente com uma noção de que valeu a pena tudo o que a gente fez”, disse Ruth à imprensa.

A gerente do Núcleo de Curadorias e Programação Artística do Itaú Cultural, Galiana Brasil, disse que a Ocupação Ruth Rocha é uma oportunidade de apresentar a autora para mais gerações e promover um reencontro com os leitores que cresceram com ela e foram formados a partir dessa literatura.

“É importante dizer que a gente pensou muito do ponto de vista da criança, no sentido dos acessos, das alturas, das interações que o espaço promove, é como se fosse um brinquedo, um grande brinquedo. Tem cerca de 160 livros físicos delas, com a intenção da ocupação também, seduzir, brincar bastante com a criança e, depois, a ideia é que possam pegar, ler, entrar em contato fisicamente, corporalmente com esses livros”, explicou Galiana.

Brasília DF - 09/05/2026 - Ruth Rocha tem sua vida e obra celebradas na 73ª Ocupação do Itaú Cultural, inaugurada neste sábado (9). Foto: Arquivo pessoal.

Outro destaque é o aniversário de um dos personagens mais conhecidos de Ruth.

“Tem uma homenagem bonita, são 50 anos de Marcelo. Então, é um pouco fazer uma festinha de aniversário. O carrinho de rolimã está lá, tem um espaço com interação para as crianças poderem inventar novas palavras a partir da proposta dela", disse.

Em uma espécie de linha do tempo, é possível acompanhar, em diversas edições expostas em sequência, a evolução de Marcelo por meio dos traços de diferentes ilustradores ao longo destas cinco décadas. Há também uma nuvem de ideias, onde crianças podem renomear objetos, inspiradas no personagem, que procura uma lógica para os nomes das coisas.

Galiana ressaltou que a curadoria fez um mergulho no acervo da autora, que é muito preservado. “Tem um acervo fotográfico muito bonito da família, desses avós que ela tanto fala como os primeiros contadores de história”, disse. Ela citou, ainda, a importância da revista Recreio na trajetória profissional de Ruth e os depoimentos da Ana Maria Machado e Pedro Bandeira, autores contemporâneos de Ruth, e que estão disponíveis na mostra.

Família e literatura

Brasília DF - 09/05/2026 - Ruth Rocha tem sua vida e obra celebradas na 73ª Ocupação do Itaú Cultural, inaugurada neste sábado (9). Foto: Arquivo pessoal.

Os pais e avós da autora são lembrados na exposição, por meio de fotografias e até por uma carta, cujo manuscrito foi reproduzido e está acessível ao público. Ruth ressaltou a importância da família, não apenas por meio de apoio e incentivo à leitura e à escrita, mas como inspiração para suas obras. Segundo ela, o convívio com as crianças da família foi fundamental na sua criação literária.

“Eu tenho três irmãos mais novos, e esse convívio com eles crianças também significou muito para mim. Eu tive uma relação com eles muito amorosa, e depois, mais tarde, tive minha filha e sobrinhas muito queridas”, relatou.

“Então, eu acho que isso tudo influi para a gente criar. Eles mexem com alguma coisa lá dentro que dá vontade de conversar, dá vontade de explicar, dá vontade de contar. Eu tive muito contato com crianças e crianças muito especiais”, completou.

A relação com a irmã Rilda, 97 anos, ganhou uma representação especial na exposição. No espaço central, estão dois telefones antigos, chamado telefone de disco. Quando retirados do gancho, eles transmitem narrações de histórias de Ruth em sua própria voz. Essa é uma representação de um ritual diário entre a escritora e a irmã, que se falam e contam histórias por meio de ligações telefônicas.

O visitante também encontrará as caixas de história, que são mini teatros com cenas de contos da autora, visíveis por uma pequena abertura frontal. Elas são acompanhadas de áudios do álbum Mil pássaros, um projeto da dupla Palavra Cantada em parceria com Ruth.

Uma rampa conduz para o espaço Ruth para Ler, que remete a uma biblioteca, com tatames e almofadas. Esse é um convite para que as pessoas sentem no chão e possam ler juntas. Ali também é exibida a máquina de escrever original de Ruth Rocha e sete cadernos de anotações pessoais, entre fac-símiles e originais, além dos livros da autora disponíveis para manuseio.

Com mais de 200 títulos publicados, a obra de Ruth Rocha perpassa a infância de várias gerações, e continua levando crianças e jovens a se afeiçoar aos livros e à literatura. A autora sensibiliza leitores, ao longo de sua carreira, em temas que vão do medo à liberdade.

“Eu sou uma pessoa intuitiva, sabe? Eu não sou uma pessoa muito planejadora. Eu, quando começo um livro, geralmente eu tenho o começo e tenho o fim. Porque sem fim a gente não vai, né? Eu tenho que ter um fim. Depois eu recheio de uma maneira, cada um de um jeito, cada um com uma importância, cada um com um significado até para mim, sabe? Mas eu sou muito intuitiva para escrever”, disse Ruth sobre seu processo de criação.

Ela contou ainda, de forma bem humorada, como era seu tempo para escrever. “Eu sou desorganizada, e eu escrevia, atualmente não ando escrevendo mais, mas eu escrevia muito de noite, porque eu trabalhava fora, eu trabalhei toda a minha vida em empresa, então eu tinha pouco tempo. Eu trabalhava muito de madrugada, de domingo, de sábado, eu aproveitava muito o meu tempo, mas não sou organizada não, sou bem desorganizada.”

(Fonte: Agência Brasil)

O OLHAR DE MINHA MÃE

 *

Eu caminhava mais uma vez por São Paulo, olhando sem enxergar, ouvindo sem escutar.

Mais uma vez eu tinha trazido minha mãe, Dª Carlinda, para um hospital altamente especializado em doenças do fígado (hepatopatias).

Quando minha mãe me dizia “Meu filho, estou sentindo gosto de sangue na boca” tudo se transformava, a família toda se mobilizava: passagens de avião, justificativas de ausência no local de trabalho, divisão de tarefas para os filhos (meus irmãos, menores) que ficavam etc. etc.

Minha mãe era uma heroína. Sofria de uma doença rara, à época de menos de quarenta casos no mundo – uma tal de colangite primária, irreversível, fatal.

Suportar o que minha mãe suportou por puro amor aos filhos é algo só de mãe. Às vezes ela dizia:

“– Meu filho, se eu for gritar as dores que sinto, ninguém dorme nesta casa”.

Ah, minha mãe!...

Essas lembranças e tantas outras mais me vinham naquelas manhãs e tardes e noites em que eu caminhava pela capital paulista, como recorrente e noctívago “globe-trotter”.

Eu só podia visitar minha mãe na UTI por poucos minutos, ao meio-dia e às 7h da noite. Antes da permissão para adentrar a enorme UTI, cheia de pessoas entubadas, pequenos sons e luzes brilhando dos mostradores dos sofisticados equipamentos, antes de adentrarmos essa ilha de sobrevivência, lotada de pacientes, aparelhos, médicos e enfermeiros intensivistas, todos os parentes dos doentes passavam por um duro, um dramático, um indesejável momento: aguardar a atualização da lista de doentes da UTI.

Nessa lista, os nomes dos internados vinham com palavras que iam de “ESTÁVEL” a “ÓBITO”. Quando alguém falecia, todos os que aguardavam na antessala da UTI se dirigiam até os parentes do morto e os abraçavam, pesarosa e irmãmente, tal o sentimento de fraternidade que todos desenvolviam ali, uns em relação aos outros.

Naquela vez entrei na UTI e já fui até minha mãe. Logo seu olhar vivo e brilhante me reconheceu. Mas os tubos a impediam de falar. Estava tão miúda e frágil minha mãe!...

Peguei sua mão direita entre as minhas e comecei a falar, a fazer perguntas, a contar como estavam meus irmãos menores, a dizer-lhe palavras positivas e repassar-lhe as esperanças de todos, familiares e amigos, em sua recuperação.

De repente, percebo o olhar de minha mãe mais vívido, como se quisesse falar. Sabe aquele olhar, aquele jeito, aquela sensação, os olhos querendo dizer algo?

Comecei a perguntar a minha mãe o que era: Queria que chamasse um médico? Uma enfermeira? Não sei que outras perguntas fiz, tantas as que devem ter saído de mim aflito, angustiado...

E chegou o final da visita. Deixei a mão de minha mãe e pude ver seu olhar que continuava a querer me dizer algo. Ela sabia que eu iria ficar preocupado o tempo todo e talvez quisesse me acalmar -- essas coisas de mãe, que abdica da própria dor para não permitir que um filho sofra...

Fui saindo da Unidade de Terapia Intensiva do grande hospital paulistano e ainda me voltei para o leito de minha mãe, a ponto de alcançar um último olhar, como a dizer... o quê? O que minha mãe queria dizer, contar, transmitir? Ah insensibilidade filial, que não sabe perceber em vida o verdadeiro valor e sentimento que de tantas formas são comunicados pela mãe!...

Naquele dia e por causa daquele olhar o mundo deixou de ter sentido. Sem ter o que fazer (estava ali por minha mãe), caminhava repetidamente do começo ao fim a Avenida Paulista. Descia por um lado e subia pelo outro.

Lojas... bancos... o Shopping Avenida... o MASP... o Memorial da América Latina... um parque de árvores e bancos de sentar... lojas... empresas... bancos...

Fui dormir a noite dos insones e dos zumbis. Só pensava e só via o olhar de minha mãe. E se ela morresse justo naquela noite?

O que ela me queria dizer?

Que derradeiro recado queria dar?

Que último desejo gostaria de expressar?

Que recomendação final nos quereria transmitir?

Ah, meu Deus!...

Dentro de meu cérebro e em meu corpo, alma e mente se intranquilizavam...

Foi uma noite longa... Longa e horrível.

Mas, pela graça de Deus, minha mãe e eu superamos aquela noite. E outras. Até que, apesar de debilitada (a doença é incurável), deram-lhe alta e eu a trouxe de volta para casa. Os voos faziam muito mal para ela, mas não havia opção: por terra o desgaste seria maior. Então, dos males...

Em casa, certo dia, converso com minha mãe e faço a pergunta sobre o que tanto me inquietava:

“– Mamãe, naquele dia, eu percebi que a senhora queria me dizer alguma coisa. Fiquei muito preocupado, mãe. O que era? A senhora se lembra?”

A resposta foi uma graça – e, egoisticamente, um alívio: eu deixara de ser Atlas e descarreguei o peso do mundo de sobre os ombros. Mamãe respondeu:

“– Oh meu filho!... Claro que eu lembro! Sua mãe está é doente, e não doida. Meu filho, não era nada grave. Apenas você, na sua aflição, ao conversar comigo, estava sem saber apertando muito minha mão...”

Olhei mais uma vez as mãos de minha mãe, finas, magras da doença e as acariciei amorosamente.

Você nem imagina o tamanho do abraço que dei em minha mãe...

Tão demorado e intenso que parecia uma enorme vontade de voltar para dentro dela...

... e, mais uma vez, ser abraçado e protegido pelo seu ventre...

* EDMILSON SANCHES.

Fotos:

Retrato de uma mãe quando jovem – e o filho primogênito.

MINHA MÃE MORREU

(Em memória de Carlinda Orlanda Sanches, minha mãe)

* * *

Minha mãe morreu. Foi numa quinta-feira, 1º de agosto, 6h50 da manhã.

Dona Carlinda Orlanda Sanches tinha 49 anos. Nasceu sob o signo de Escorpião, gostava de futebol (era vascaína) e desejava assistir a uma Copa do Mundo. Também queria ir a Roma e, claro, ver o papa também.

Católica, ia à igreja quando podia, mas estava com Deus sempre.

Só sabia fazer o bem. E bem feito. Desconfio de que a única coisa ruim que ela fez... foi fazer-me.

Acho que sempre lhe dei menos do que ela desejava, e dela sempre recebi mais do que merecia. Dizem que mãe e filhos são assim mesmo.

Mãe padecia de "doença limitante, de caráter progressivo, tendo como único tratamento o transplante de fígado", que ela se recusou a aceitar ("O coração não pedia" – desculpava-se).

Quanto à doença, é um mal raro, comprido e indecifrável como o próprio nome: colangite esclerosante primária, detectável por meio de biópsia e exame de técnica e nome complicados: colangiotransparietohepática, ou, trocando em graúdos, colangiografia pancreática endoscópica retrógrada.

Li quase tudo sobre a doença. Informei-me em Medicina, especializando-me em Hepatologia e em hepatopatias crônicas. Instigam-me particularmente os mistérios do processo das doenças classificadas como autoimunes. Numa coleção de livros – "Clínicas Cirúrgicas da América do Norte", não lembro o ano – anotava-se que a colangite primária tinha 32 casos registrados em todo o mundo.

Mamãe foi a Brasília, São Paulo, e também foi atendida em Caxias, Teresina, São Luís...

Não queria viajar mais. Queria ficar, tratar-se – ou morrer – em Imperatriz.

E assim foi cumprida a sua vontade. Foram dois anos, ela carregando a sua cruz. E nós (Francisca Cláudia, Carlos Magno, Júlio César, Wendel e eu) sequer podíamos dividir o peso, sua dor.

A dor é irrepartível. A dor que sentíamos era outra, filial. A de mamãe, matriz. Uma dor tinha origem na doença; a outra, nascia daquela dor. Dores diferentes. A de mamãe, com certeza, maior: sofria porque sentia dor, e sofria porque sentia por nós.

Meu sono é como minha consciência – leve. Assim, na madrugada, duas, três horas, bastava os pezinhos de mamãe roçarem a ardósia, à procura dos chinelos, para eu acordar e ir ao seu encontro. Eu era um escoteiro da noite, sempre alerta.

Sem uma palavra, no meio do corredor fracamente iluminado, nos olhávamos, nos sorríamos um sorriso meio maroto meio triste e nos abraçávamos mudos e ternos. Seu corpo, debilitado pela doença; o meu, fragilizado pela emoção – e pela impotência ante o avanço do mal.

Mãe deu lições de dignidade e resistência, inclusive física. Enfrentou e venceu três comas e encefalopatias hepáticas, inúmeras cirurgias e pós-operatórios. Ficava dias só respirando quase imperceptivelmente, como um pássaro. Médicos arriscavam: poucas horas de vida, cérebro comprometido, vida vegetativa, uma pena, nada mais há o que fazer, agora é só esperar. E coisa e tal. Aí, mãe acordava, assombrosamente, aliás, divinamente lúcida. E se o corpo enfraquecia, a mente cada vez mais se fortalecia. Impressionante a memória. A lucidez. E isso doía: "Mens sana in corpore insanus”.

Em um dos comas mais graves, familiares e amigos reunidos em volta do leito hospitalar, uma quarta-feira, sete para oito horas da noite, mãe desperta e diz: "Deus, Deus, Deus!" Reconheceu parentes que não via há anos e os chamou pelos nomes. De onde vinha aquela surpreendente vitalidade, só Deus sabe.

Mães morrem todo dia. Mas mãe – como todas as mães – queria viver.

Queria continuar plantando plantas, floreando flores. Mulher "da mão boa", o que tocava ficava bom. Porque assim era o seu coração. Coração de mãe. Mãe sofria – mas queria viver.

Não houve jeito. Ela, mais uma vez, sempre pioneira, tinha de ir na frente. Na terra, abrira o próprio ventre para dar os filhos ao mundo. Agora, ia na frente para abrir o céu aos filhos – ou para convencer Deus de que nós mereceremos, ao menos, o purgatório.

Naquela madrugada, quando eu a flagrei já no corredor, fomos ficar sentados quietinhos no sofá. Ali, eu e ela, enquanto o mundo mantinha-se mudo, mãe olha um olhar longo assim em volta, vê a casa quase nua de bens materiais, mobiliário e outros itens de decoração, bate os olhos nas diversas estantes e diz de um jeito indizível: " – Os móveis do meu filho são livros".

Ninguém jamais disse ou dirá algo tão belo...

Gotas de emoção e lágrimas desembucham o peito, sobem pra garganta, brotam dos olhos e caem em pingos, pontuando o texto e a vida.

Ah! mãe... Que saudade!... Que solidão!... Quanta dor!...

Chove.

Chove muito dentro de mim...

* EDMILSON SANCHES